LEALDADE
Fabrício Carpinejar
Falar nome feio e jogar bonito são as duas maiores vaidades do futebol.
A primeira é prática do torcedor, para se adonar do time e do momento. Necessita se exibir atento e cúmplice: vaiar o bandeirinha, cumprimentar a mãe do juiz, exorcizar os demônios da língua.
A segunda é do habilidoso, daquele que nasceu para provocar exclamação entre os colegas e interrogação entre os adversários. Ainda mais se é zagueiro.
Nada mais perfeito: ser treinado para ferir e dançar.
Nada mais vaidoso do que um zagueiro que não bate. De que não depende coisíssima nenhuma da violência.
Que não teme atacantes, que não se assusta com pressão e ausência de espaço.
O defensor que dribla e costura, estilista!, e não apenas afasta o perigo.
Que finta e abre o jogo, que sai com a bola dominada, que escolhe o passe, que protesta contra a truculência, Mahatma Gandhi da zona de agrião, capaz de jejuar pontapés e botinadas.
O virtuoso, silencioso de propósito para afanar o lance.
O motivado, que transforma tango em samba.
O gentil, cabeceando com o cuidado de um chapeleiro.
O leal. Expoente da única lealdade que existe: a lealdade com a bola.
Não isola a bola, não se livra da bola, não prende a bola, faz mais: seqüestra a bola, gosta de estar junto, de levá-la a passear.
Apanha a bola logo cedo. A área é sua estufa, na verdade cultiva a bola como uma orquídea. A zaga floresce em seu domínio.
Nunca está atrasado no ofício, melhor colocado do que o centroavante. Determina o ritmo em vez de remediar o erro. Salta disputando corrida com a brisa.
Tigre. Guepardo. Não perde tempo, cria o tempo, sempre à espreita.
Quem se antecipa não entra em desespero.
É Domingos da Guia, é Nilton Santos, é Luisinho, é Gamarra.
Cavaleiros, cavalaria almada; enxergam o restante do time do lombo de um cavalo, altos pelo dobro de impulso.
Não renunciam à educação. Às regras. Mantém o caráter na mais perversa adversidade. Não estarão fingindo pênalti, caindo por qualquer coisa, agredindo secretamente, jurando falso, adorando cera, bancando a vítima.
Convidam ao duelo. Não impõem nada.
Brigam com justiça, as armas à mostra, a exemplo de um faroeste.
(Até o pistoleiro tem ética)
Guerreiam dentro de um acordo claro, na claridade do rosto.
(Todo rei deveria ter sido guerreiro antes)
Não criam inimigos, desafiam.
Não traem a palavra, não se atrevem a apunhalar pelas costas, acotovelar oponentes em voo.
Exatos, não exagerados. Firmes, não apelativos.
Não arrombam correspondência. Retiram o selo das cartas com o vapor das chuteiras. Enviam telegrama aos laterais, ditam testamento aos armadores. São cúmplices do goleiro. E muito mais do que o arqueiro ao defender somente com os pés.
Leais. Honrados: respeitando a si mesmo para respeitar o outro.
Atacante bom é craque. Zagueiro bom é santo.
QUINTO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
AMOR À CAMISETA
Fabrício Carpinejar
Mais fácil trocar de sexo do que time.
Futebol é RG, CPF, certidão de nascimento, partido político.
Num tempo sem identidade, é o supremo vínculo. O elo com os outros. O que não migra com os dias. É se profissionalizar na esperança, é se aposentar na esperança.
Torcer por um time é a monogamia que funcionou, é o casamento que deu certo, é até que a morte nos separe, é permanecer junto na saúde e na doença, na Primeira ou na Segunda Divisão, é chorar derrotas acachapantes, é uivar em vitórias apertadas e gargalhar em goleadas improváveis.
Torcer é nascimento e velório juntos, todos os sacramentos reunidos na expectativa de alterar a vida com uma partida, alterar a vida de uma partida.
Torcer é tabelar com o batimento cardíaco. É atingir o extremo de si e não se cansar, é se confessar e roer as unhas, é se humilhar diante de um estádio cheio, é chutar o vento para acompanhar a cobrança de falta.
Faz ateu rezar, faz criminoso pedir perdão, faz família voltar a se ver, faz homem sério enlouquecer, faz marido roubar domingo da própria esposa.
Não importa se o time veio pelo regime monárquico, por imposição dos pais, ou democrático, pela própria escolha. Não se troca de time, assim como não se muda de alma.
Time é para sempre. Uma benção que nos define, uma maldição que não lutamos contra.
Não é sorte ou azar, certo ou errado, é costume. É lembrar de que se viveu a partir de jogos inesquecíveis. É quando a memória coletiva nos salva do esquecimento pessoal.
É transformar um simples jogador em ídolo, em padrinho, em exemplo. É beatificar o talento. É encontrar um atleta fiel à história de nosso clube mais do que a um momento. É adorá-lo pelo conjunto de cenas. É apenas enxergá-lo com as cores de nossa equipe, como um manto, um sudário. É Sócrates e Corinthians, é Zico e Flamengo, é Falcão e Inter, é Renato e Grêmio, é Pelé e Santos, é Garrincha e Botafogo, é Telê e Fluminense, é Raí e São Paulo, é Tostão e Cruzeiro, é Reinaldo e Atlético.
Buscamos justificar a torcida aos amigos, explicar racionalmente nossa decisão, mas torcer não é uma opção intelectual, não é um investimento seguro, não surge de estudo de mercado, de teste vocacional, não é algo que se gosta e se deixa de gostar, é algo que entra no sangue como vírus e nos contamina de fraquezas.
Qual é seu time? é a pergunta feita hoje logo depois da gente dizer o nome. Como um destino.
QUARTO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
QUARTETO FANTÁSTICO
Fabrício Carpinejar

O torcedor santista não teve tempo de torcer no domingo (18/12). Recém começara o embate decisivo do Mundial e o Santos já restava esmagado. Dezesseis minutos, um a zero. Vinte e três minutos, dois a zero.
Se o Real Madrid foi o primeiro time a contar com camisas numeradas na Espanha, o Barcelona é o primeiro time a desmanchar qualquer sentido de numeração.
Gerard Piqué poderia atuar no ataque e não seria um estranho no ninho. Fábregas poderia contracenar de zagueiro e não seria criticado.
Barcelona transformou o Santos no Al Sadd. O elenco árabe, na verdade, não era ruim, todo time enfraquece ao desafiar a supremacia galáctica catalã.
Barcelona é um esquadrão de semideuses, de heróis gregos.
É Cervantes, é Homero, é Shakespeare, é clássico, ultrapassa a condição contemporânea. A efemeridade de um campeonato.
Quatro a zero na final do Mundial é um escore trepidante. A beleza sozinha humilha. A beleza com a competência do resultado termina sendo insuportável.
Neymar desapareceu, reconhecido apenas pelo seu topete cobreado. Ganso abanava, desesperado, com os olhos. Borges parecia um reserva esforçado dando piques. Dorval rodou no exame de baliza da autoescola.
Santos se acovardou, como se fosse juvenis treinando com os titulares. Santos se retraiu, como fãs mais interessados em pedir autógrafo do que barrar a goleada.
O medo é conservador. O medo é anacrônico. O medo é Muricy criando duas paredes do seu próprio cativeiro (plantou Danilo, Arouca e Henrique à frente da zaga).
Santos se mostrou dependente de Neymar, enquanto o Barcelona é maior do que Messi - o grupo inteiro esbanja habilidade (quem do Santos seria titular no Barcelona?).
Barcelona domou, dominou, destruiu. Mais de 70% de posse da bola. E não somente posse, mas arte, espetáculo, empolgação. Os dois gols de Messi são diamantes. Lapidou as redes. Um toque por cima do goleiro Rafael, depois de escapar da marcação, e o quarto, quando driblou Rafael, em maiúsculo desenlace de placa. Faces refletidas de uma única joia.
E deveria ser mais se o goleiro santista não defendesse seis chutes impossíveis (e a trave mais dois).
É o futebol total novamente em prática, porém com ideário de diversão. O quarteto Xavi, Fábregas, Iniesta e Messi alcança a soberba estilística de outro grupo de virtuoses, do lendário adversário merengue. Ver o Barça flutuar com facilidade, densidade, ímã de passes, é lembrar com nitidez do ataque do Real formado pelo argentino Di Stefano, húngaro Ferenc Puskás, francês Kopa e espanhol Gento, base de cinco títulos consecutivos da Copa dos Campeões de 1956 a 1960 (analise a comparação em vídeo).
Barça fez uma esquadra que rivaliza com aquele futebol doído de tão bonito, doido de tão veloz do Real (que inspirou o carrossel holandês). O goleiro Valdés não chuta a bola para o meio-campo, nunca. Não bate tiro de meta para longe, sai sempre jogando com seus defensores, jogador a jogador, roda de capoeira, de bobo, virando o lance, reduzindo o campo a uma quadra de salão.
Desculpa, não era futebol de salão, e sim handebol, vôlei, basquete. Os ilusionistas grenás calçaram as mãos com chuteiras. Fica uma só certeza: havia dois esportes diferentes praticados, ao mesmo tempo, hoje no gramado de Yokohama.
VINGANÇA DE REI
Fabrício Carpinejar

Neymar não pode ser Pelé.
Pelé não morreu para reencarnar em outro.
É incrível raciocinar que Pelé é Pelé, o maior atleta da história, e ainda está vivo. Diferente de Garrincha, que faleceu em 1983, há trinta anos, e desfruta da unanimidade do túmulo.
A morte já reluziu o anjo de pernas tortas tudo o que podia, mas ainda não tocou no rei do futebol.
Pelé não morreu e parece completo, o Livro dos Recordes em pessoa. É eterno sem precisar da eternidade. Dispensa o fiador da cova, o bônus de Morfeu.
Quando falecer, é bem capaz de ser beatificado, virar santo, produzir curas em Três Corações.
Não só porque marcou 1281 gols em 1363 partidas, não só porque ganhou três Copas do Mundo, parou uma Guerra na África, e todos os recordes que bateu como maior artilheiro do Santos e mais jovem jogador a encantar na Seleção Brasileira.
Pelé tinha uma monumental capacidade de se superar. Driblava, cabeceava, chutava, defendia com igual maestria. Um acrobata com a bola nos pés, um trapezista do impulso, um estrategista circense do time inteiro.
Há o costume de diminuir seus feitos comentando que as partidas eram mais fáceis no seu tempo, não havia tanto patrulhamento, disciplina e preparação física como hoje. Mentira. Pelé gostava de chamar a marcação para perto, não ter espaço e criar brechas imaginárias e impossíveis no campo. Um MacGyver das chuteiras. Podia-se amarrar Pelé na trave e ele arrumaria um jeito de converter a dificuldade em vantagem.
Em confronto com Juventus, em 1959, deu quatro chapéus consecutivos nos defensores e goleiro, para concluir de cabeça, livre e sossegado. Em disputa com o Fluminense, em 1961, arrastou seis adversários com seus dribles e inventou o gol de placa.
O espectador que contou com a sorte de assisti-lo tornou-se seu apóstolo. Pelé não jogou futebol, evangelizou o futebol.
Num clássico contra o Grêmio, nos anos 60, em Olímpico lotado, Pelé enfrentou o zagueiro Aírton Ferreira da Silva, conhecido como Pavilhão (seu passe valeu um Pavilhão de arquibancadas dado ao Força e Luz). Aquilo que poderia ser uma humilhação acabou em redenção desaforada.
Aírton se antecipou à corrida de Pelé e meteu um lençol no atacante santista, para vibração apoteótica da Geral. Quem estava no estádio diz que foi comemoração de título mais do que de gol. O primeiro lençol - e único - sofrido pelo mito acontecia naquela tarde ensolarada em Porto Alegre. Os torcedores gritavam e riam, escarneciam o cetro, a coroa e o trono.
No segundo tempo, Pelé se aproximou novamente de Aírton. Fingiu que recuava e desistia do ataque para girar com violência o corpo de volta.
Veio rilhando para cima de Aírton, que não imaginava o ataque surpresa. Airton teve o troco, chapelado de inopino. Só que o zagueiro tricolor tentou se recompor, diminuir o prejuízo com a testa, mas levou outro chapéu de Pelé. Tonto e desequilibrado, Aírton procurou segurar Pelé pela camisa e levou um terceiro e humilhante chapéu. Uma chapelaria havia sido aberta na Azenha.
Daí Pelé encarou a torcida e tocou a bola para lateral com indiferença. Dispensou o ataque de propósito. Por honra. Para provar que não se brinca com a realeza.
Ninguém pode ser mais Pelé. Nem o próprio Pelé.
CHAPINHA NO JAPONÊS
Fabrício Carpinejar

O gol de Neymar, o primeiro, contra Kashiwa Reysol na semifinal do Mundial foi um milagre. É o que fica da vitória de 3 a 1 do esquadrão santista no Toyota Stadium nesta terça (14/12).
Milagre é aquilo que é visto mas ninguém acredita mesmo assim.
Neymar recebe de Ganso na entrada da área. E, num golpe de mágico, troca a bola de pé, do direito para esquerdo e deixa o capitão japonês como um réptil, a rastejar sem entender a mudança de rumo. Não alterou apenas a direção da bola, porém a sua velocidade. Vinha rápido e desacelorou de repente para retomar a mesma ânsia de vento num instante. Como se suas pernas fossem marchas de uma bicicleta.
Ele recortou uma cena e colou em outra página. Livre da marcação, num toque rápido e preciso, Neymar colocou a bola no ângulo do goleiro Sugeno.
Teve um flash arrepiante de Pelé, em especial pela facilidade de execução e complexidade do desafio.
Não fez somente barba e cabelo, mas chapinha no 7 do Kashiwa. O raciocínio de Neymar é espantoso, intuitivo. Ele não posa diante do oponente, age, todo drible é um passe, um passe para si mesmo.
DEFESA
Santos é um time de inspiração. Com a benção das musas, pode ser melhor do que o Barcelona de Messi e golear a frota catalã. Mas, num dia ruim, é capaz de perder até para o Íbis.
Das oito investidas, marcou três vezes em cima do Kashiwa. Quase cinquenta por cento de aproveitamento. Demonstra possuir um ataque formidável e letal, de giros e telepatia.
Se observarmos a defesa da Vila Belmiro, é um seriado totalmente diferente. Não sei se é tragédia grega ou tango argentino.
O esquema de 4-2-3-1 de Nelsinho Baptista ameaçou seriamente a folga alvinegra. Houve domínio das laterais pelos asiáticos, uma bola na trave e uma chance perdida debaixo das traves por Sawa, afora o gol de cabeça longe da marcação de Hiroki Sakai.
O escore poderia ser outro. Santos sofre de dupla personalidade. Na frente, é um sonho. Atrás, é um pesadelo.
Deve-se tomar cuidado com Iniesta, Messi ou Xavi. Eles não serão como Kashiwa, não vão acertar somente um lance em quatorze finalizações.
ESPÍRITO DE EQUIPE
Fabrício Carpinejar
É pouco provável, mas há times que atuam em partituras, quando o jogador nem enxerga o outro e já está passando a bola. Times que jogam como uma orquestra, onde o técnico é o regente na casamata e a torcida é o bumbo, o triângulo, a percussão ao fundo.
Quando acontece, é lenda, é história; o conjunto irrompe formidável, sonoro, ritmado, acima de qualquer talento individual.
O torcedor não destacará somente um atleta, mas guardará o elenco inteiro, repetindo a posição de cada um no pôster.
Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo, Calvet, Zito, Mengálvio, Pelé, Dorval, Coutinho e Pepe.
A escalação será lembrada para o resto da vida, eternizada nos botões da infância, usada na crise para criticar a direção atual.
Um nome ajudará a lembrar do próximo, como uma criança decorando as vinte e seis capitais, os vinte e seis estados brasileiros.
Alguns clubes criam óperas, Santos e Botafogo dos anos 60, dramaticamente lindos, abrindo o palco aos timbres dos tenores Pelé e Didi; os demais criam sinfonias, Flamengo da década de 80 e São Paulo de 90, absurdamente coesos.
Espírito de equipe é toque de bola, é telepatia, é constelação melodiosa de talentos.
A zaga são os metais (trompetes, trombones, trompas, tubas), os volantes são os instrumentos de teclas (piano, cravo, órgão), os meias são as madeiras (flautas, flautins, oboés, corne-inglês, clarinetes, clarinete baixo, fagotes, contrafagotes), o ataque são as cordas (violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas).
Não há como escolher quem vibra mais bonito: persevera a composição, a obediência ao esquema tático, a solidariedade do dom.
Na alegria, time unido é música de orquestra, ciranda de empatia e admiração; na tristeza, time unido é grito de tribo indígena, coro passional e ofendido, pintando o rosto e cantando ao redor da fogueira.
No sol, todos por um; na tempestade, um por todos.
A valentia é o derradeiro desenho da voz.
O time crescerá diante de uma injustiça, do erro do juiz na marcação de um pênalti, do escândalo de um gol anulado.
Crescerá quando tudo conspira contra ele. Ao perder a partida e o equilíbrio, ao perder a confiança e o futuro.
Crescerá quando um ou dois jogadores terminam expulsos.
Crescerá por dentro.
E os que restam em campo se dobram por aqueles que faltam e ocupam o espaço como xamãs, titãs, gigantes do vento.
E viram o jogo, atestando que a desvantagem numérica no gramado nada é perto da multiplicação das almas.
TERCEIRO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
UMA ÚNICA PARTIDA DE 3.420 MINUTOS
Fabrício Carpinejar

Os espiritualistas acreditam que morrer no dia do próprio aniversário é sinal de merecimento. Equivale a uma prova de que se viveu bem, concedida a alguns eleitos.
Sócrates não morreu no seu aniversário - o paraense completaria 58 anos apenas em 19 de fevereiro - , mas faleceu quando o Corinthians, seu time do coração, conquistou o pentacampeonato brasileiro.
É como se despedir durante um segundo e mais verdadeiro nascimento. Uma data coletiva. É deixar de existir quando o torcedor está mais feliz. Quando seu clube completa um feito sempre desejado.
Com certeza, não foi casualidade, e sim predestinação. Sócrates abandonou a cena para infuenciar o resultado lá de cima.
* * *
Com o título, o Corinthians cobre de ouro o troféu de latão escandaloso de 2005 e, de inhapa, distancia-se moralmente do rebaixamento em 2007. Agora foi merecido, o time soube fazer a poupança para os tropeços e tempos duros.
O Brasileirão acaba com o fortalecimento do Tite, que agora atinge o primeiro escalão dos técnicos, acompanhado de Muricy Ramalho, Felipão (quem mais teve a autoridade balançada), Abel Braga e Luxemburgo. Conduziu uma equipe mediana a liderar o campeonato de ponta a ponta. Tirou proveito de Alex, de Willian, de Liedson. Manteve o grupo concentrado até o fim. Foram 26 rodadas na liderança do certame, incluindo as sete derradeiras. Ficou 68% da competição à frente dos concorrentes.
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Dos clássicos, o mais espantoso foi o mineiro. O Atlético realizou a proeza de apagar a campanha de recuperação do segundo turno, sair por baixo quando tinha tudo para empurrar seu rival para a segunda divisão e cantar de galo sozinho em 2012. Levou uma goleada inexplicável de 6 a 1 do Cruzeiro. Se não foi marmelada desconhecemos o que é doce.
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O Atlético Paranaense estragou o chope do rival Coritiba que vinha de uma temporada perfeita. Largou a primeira divisão de cabeça erguida. Cumpriu o que o Grêmio sonhou, tirar o Inter do certame mais valorizado.
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Ronadinho aparece e logo desaparece. Não tem mais voz própria, é um soluço. Brilhante em três ou quatro partidas e inoperante no resto. Encantou momentaneamente a torcida - como ocorreu no Milan. Triste é que seu desempenho decaiu justo quando atrasou o salário do Flamengo, reforçando a pecha de "oportunista".
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Numa safra excelente de centroavantes (Borges, Damião, Fred, William, Luis Fabiano), o melhor jogador do futebol brasileiro é Dedé, zagueiro do Vasco.
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Celso Roth virou um Carlos Lupi do Brasileirão. O presidente Paulo Odone anunciou o fim de seu contrato uma semana antes do Gre-Nal. Ele era um fantasma na casamata do Beira-Rio. Demitir um treinador por antecedência é mania de político, vício do ex-deputado Odone. Prejudicou o rendimento do tricolor, diluiu a concentração para o clássico.
* * *
O Inter participa da Libertadores pelo terceiro ano consecutivo, amostra de sua regularidade, mantendo-se entre os cinco melhores no último triênio. Bateu o Grêmio com a natural dificuldade emocional: gol sofrido de pênalti e desespero nos descontos. D' Alessandro é a vértebra do esquema de Dorival Júnior. Há uma sinfonia contagiosa nele. É o Stravinsky da equipe, cheio de desaforos e resmungos. Põe o plantel em alerta, transmitindo sua loucura portenha. Quando ele baila, todos reclamam do árbitro, tomam cartões, xingam as bandeiras do escanteio e batem carreiras com o minuano. Trata-se do grande nome do colorado, o xerife musical. Os holofotes estão em Damião, mas a juventude continua representada no genioso D`Ale.
* * *
Os jogadores do Internacional lamentavam que a sorte não vinha ajudando o time quando, na verdade, o time é que não colaborava com a sorte. O que não faltou foram resultados paralelos favoráveis. Mas podemos falar em sorte num campeonato tão longo? Os pontos corridos afastam o futebol da aleatoriedade de um juiz ou da falha avulsa do goleiro. É como um só jogo de 3.420 minutos.
ANJOS, REGENTES E SÓCRATES
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Quando os japoneses querem expor seu sincero interesse por um amigo preparam um origami. É a sua maneira de rezar, no papel realizam a demonstração prática do amor. Nós não sabemos fazer origami, então dobramos algumas palavras em nome de Sócrates, ex-capitão da Seleção Brasileira, que morreu às 4h30 deste domingo (4/12), aos 57 anos, em decorrência de um choque séptico.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira exibia na certidão um nome longo e pomposo, uma graça de rei. Mas foi o contrário: um democrata, humano, corajoso.
Rompeu com a aristocracia, com a cartolagem, com o que se espera de um jogador.
Quando encontramos com ele, no ano passado, no Cartão Verde, programa que ele atuava na TV Cultura, ele sintetizou sua trajetória de exceção:
- Nunca parei para pensar, posso fazer isso jogando.
E rimos da iluminação trivial.
Sócrates deve ter sido um dos raros atletas a completar curso superior enquanto atuava. E para humilhar, fez Medicina. E não reclamava da falta de tempo. Mesmo estudando, tornou-se artilheiro do Campeonato Paulista de 1976 e levou o Botafogo de Ribeirão Preto ao título do primeiro turno de 1977.
Deve ter sido um dos poucos jogadores a ter uma dimensão política, sabia falar e discutir qualquer assunto, do cinema de Costa-Gravas ao novo CD de Chico Buarque. Durante a ditadura, criou uma trégua intelectual, uma paralisação inacreditável de vestiário, somente comparável em ousadia à greve do ABC capitaneada por Lula.
Sócrates ombreou o presidente do time, Vicente Matheus, e liderou a Democracia Corintiana, em que os jogadores decidiam os rumos da equipe. Entre outras revoluções, o movimento aboliu a concentração na véspera dos jogos.
Deve ter sido um dos mais honestos ídolos, não se importava em envelhecer e ostentar fios grisalhos na barba; bebia e fumava nos bares, e nem por isso cabulava os horários dos treinos. Ele mostrou que o homem tem direito a viver quantas vidas quiser num único dia. Prazer e responsabilidade andavam juntos, entrelaçados.
- Sou torcedor de mim - ele nos avisou.
Deve ter sido um dos boleiros mais carismáticos que apareceu por aqui. Criou uma identidade indiscutível com o Parque São Jorge. Mostrou-se leal a um clube, torcendo dentro e fora das partidas. Não existe como vestir branco sem pensar antes no Doutor dos gramados.
Ainda que não tenha obtido grandes títulos - pelo Timão, ganhou três campeonatos paulistas, em 1979, 1982 e 1983 - assumiu uma condição de lenda por aliar o caráter combativo (garra) e habilidade (arte).
Pode-se lamentar que ele não tenha alcançado o título mundial pela seleção memorável de 1982 (ao lado de Zico, Falcão, Éder, Júnior) ou a glória em 1986, no México. Mas Sócrates inventou um novo atacante: o solidário.
Extinguiu o fominha, aquele que não passa, o malabarista, que realiza tudo sozinho. Primeiro, o trabalho coletivo, em seguida, os voos individuais. Aperfeiçou os ensinamentos do palmeirense Ademir da Guia e transformou a lentidão numa arma letal de precisão.
É o antiGarrincha. O antifirula.

Sócrates é a reforma de bases do futebol. A passeata dos cem mil. A revolução cubana. A educação de Paulo Freire. A arquitetura de Oscar Niemeyer. A antropologia de Darcy Ribeiro. Ele preferia deixar um companheiro livre do que seguir acumulando créditos.
Armava!, mais do que simplesmente passar a bola adiante. Imprevisível, culto, seus ataques vinham de lado, um tesoureiro das triangulações.
O craque ensinou que a fraqueza é a força. O calcanhar de Aquiles, sinônimo mítico de vulnerabilidade, converteu-se em calcanhar de Sócrates, tradução de passes exatos, força e gols inesquecíveis.
Antes de Sócrates, o calcanhar era mero apoio. Depois dele, o calcanhar é uma marca registrada de inteligência.
Com 1,90m e um giro de corpo devagar em comparação aos colegas mais baixos, Sócrates começou a empregar o calcanhar para ganhar velocidade e surpreender os adversários. O defeito cresceu em virtude. A falha amadureceu em vantagem.
O domínio desconcertava a marcação. Sócrates elaborava longos cruzamentos de calcanhar ou encobria o goleiro em momentos improváveis. Não tinha pressa, ânsia de resolver. Dava corpo ao ritmo, densidade estratégica para equipe, calculava aproximações.
Filósofo, passeava pelos gramados, sempre com as costas eretas, um farol da objetividade, clarão de lucidez.
Sócrates não precisava olhar para a bola. Não tinha costas como um anjo, como um regente.
Não houve na história do esporte alguém igual a ele. Dobrou o Brasil em origami.
FUTEBOL-ARTE
Fabrício Carpinejar

O sobrenatural vem da simplicidade. Da situação mais normal, mais corriqueira.
É de um lance comum que surge o gênio. O predestinado. O mito.
É de um lance bobo que tudo faz sentido. Não podia acontecer, e acontece.
Quando ninguém espera, quando nenhum torcedor observa direito, a chuteira estala a grama de modo preciso e o som corre fulminante das traves para arquibancada.
Futebol-arte é um milagre. É quando todo o time desemboca num único jogador, e ele passa a ser todo o time. Não que os outros não existam, os outros são ele e mais ele e mais ele e mais ele...
Ele: aquele que não corre, aparece; não chuta, coloca.
Futebol-arte é a superação das expectativas: quando testemunhamos algo que não vai se repetir.
É uma cena que não foi ensaiada, e é perfeita, incompreensível. Por mais que a gente conte como foi, nunca será entediante, nunca esgotaremos seu mistério.
Não esquecemos porque não cansamos de lembrar.
Futebol-arte não traz alegria, traz pânico. Todo gol é um susto, uma assombração, um terror.
Os olhos doem pelo excesso de beleza.
Futebol-arte nasce da descrença, do não acredito, do não é possível.
Futebol-arte não rende exclamações, e sim uma longa interrogação: como ele fez isso?
Futebol arte é quando nos estragamos de exigências.
E começamos a reclamar que não existe futebol como o do nosso tempo.
Futebol-arte é quando parece que o torcedor já viveu muito numa única partida e está encabulado. Tenso. Parece que não merece tanto, pagou por um jogo e recebeu um espetáculo.
É quando um gol já é uma goleada. Quando um drible já é um gol.
Futebol-arte é quando a saudade é maior do que a memória.
É desejar gritar um gol e ser ataque cardíaco. É nossa capacidade de morrer e continuar vivendo.
O artista dos pés sabe vira o mundo pelo avesso: sabe que o impossível é o caminho mais rápido para a vitória, o inacreditável é um atalho para a glória.
Ele não quer o mais fácil, mas contrariar as estatísticas. Não se acovarda diante das dificuldades.
É Pelé, sem nenhum companheiro livre, usando os pés dos adversários como parte dos seus e tabelando com as pernas do invisível.
É Didi cobrando falta e aquela bola longe da trave de repente caindo no ângulo: folha seca.
É Garrincha dançando tango com as bandeirinhas do escanteio.
É Tostão cavando ângulos sem ângulo, transformando goleiras em polígonos.
É Leônidas criando a bicicleta, é Ronaldinho criando o elástico.
Futebol-arte é quando a bola só aceita beijo na boca. Não admite amadores, pede delicadeza maliciosa. Futebol-arte é quando a bola só responde pelo apelido. Feita para ser asa mais do que pata, ser pluma mais do que couro. É preciso bater sem machucar, tocar embaixo para subi-la, sussurrar em seus ouvidos como um amante desinibido.
Convencer a bola que é um balão, uma janela, uma meia-lua, um chuveirinho.
A bola nos pés de um artista é um pássaro durante o chute, um peixe dentro do gol.
SEGUNDO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
FRED E O CARISMA DA CARÊNCIA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Futebol é proteger a exceção. Não há como banalizar o craque.
Dilemas dificultam o acesso dos boleiros ao estrelato. Uma deles é se o jogador é imprescindível no clube e na seleção. Cumprir os dois requisitos formam o gênio. Messi é paranormal no Barcelona, mas não atingiu nem metade de suas habilidades na Argentina. Ainda é sombra adolescente de Maradona - esse sim, um mito nos times e no selecionado (levou o pequeno Napoli a arrebatar o scudeto italiano e carregou a Argentina ao mundial praticamente sozinho). Ronaldinho também padeceu do mal nacional, não repetiu as atuações convincentes do Campeonato Espanhol durante a Copa de 2006. Os ídolos unânimes não atalharam, obtiveram sucesso em ambas as esferas: Garrincha, Puskás, Cruyff, Beckenbauer, Tostão, Dino Zoff, Sepp Maier.
Outro questionamento restritivo é se o atleta é bom durante um momento do time ou se ele já pertence a todos os momentos da história do time por aquilo que produziu em campo.
Centroavantes costumam pertencer a períodos. Túlio Maravilha é uma época do Botafogo, mas não entraria na seleção da estrela solitária. Não ficaria nem no banco de reservas. Nilson ou Geraldão foram atacantes excelentes nos anos 80 e 90 do Inter, cumpriram sua parte, só que é um exagero escalá-los como mitos. O mesmo aplica-se à Viola, que ajudou o Corinthians, nada mais do que isso.
A imortalidade é avarenta. Assim como a história costuma ser um técnico ranzinza. Renato Gaúcho não entraria nos melhores do Flamengo, porém teria a 7 cativa no Grêmio.
Obedecendo a essa linha de raciocínio, considerávamos Fred do Fluminense um matador datado, de iluminações provisórias e fama limitada. Seria lembrado com modéstia pelas passagens vitoriosas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e pelas atuações operárias na seleção.
A surpresa é que ele mudou de categoria. Tem sido um monstro atemporal do tricolor carioca. Um Heleno de Freitas das Laranjeiras. Executou uma metamorfose lendária. Sua atitude transtornou o passado. É uma garça que virou pelicano. Não existe bola ou peixe perdido.
Caça, cata, cava.
Com uma insistência incomum, mistura-se aos feitos do Fluminense, a ponto de não imaginá-lo com brasão diferente. Ele não é um virtuose, seu dom é a garra, verticaliza o lance, aproveita o máximo de cada situação, explora exaustivamente sua mortalidade. Age como um fanático pela vitória. Não provoca o oh de espanto, o meu deus da comoção, não intriga o espectador, não gera exclamações incrédulas. Suas jogadas são explicáveis, oportunas, felizes. Sua coragem é executar o óbvio e não se extraviar em firulas.
Sem a bola, seu olhar é triste, melancólico, não brinca, não se diferencia da aparência desinteressada e profissional de quem recebe o salário em dia.
Com a bola, ele enlouquece. Retira o carisma da mais absoluta carência.
Nas três últimas partidas pelo Brasileirão, assinalou inacreditáveis oito gols (quatro contra o Grêmio, três em cima do Figueirense e um sobre o Vasco). Assumiu a vice-liderança da artilharia (21 gols) e se igualou a Washington, recordista do clube na competição. Ninguém mais duvida que seja capaz de ultrapassar Borges, do Santos (23 gols).
Diante de sua doação espartana, qualquer um esquece que ele ficou lesionado parte do certame.
Fred faz questão de pagar os juros exorbitantes da torcida. Não reclama da cobrança, devolve o tempo perdido, triplica a alegria em minutos.
Já salvou o Fluminense do rebaixamento em 2009 (na maior sequência de vitórias de Cuca), já conduziu sua equipe para o título nacional em 2010 (colaborando com o paredão de Muricy Ramalho), agora assegura uma vaga na Libertadores (apoiando o controle do vestiário de Abel Braga).
É um sujeito que dá a ideia que pode morrer no gramado, que não desistirá até o último minuto, que brigará com o juiz em nome de seus companheiros, que buscará a bola na rede em vez de renunciar valiosos minutos comemorando o gol.
Não é rei como Pelé, não é príncipe como Neymar, Fred é um cavaleiro que comanda o exército nas manobras de terra. Entende que o matador requer humildade. Todo centroavante é um mendigo na grande área, esmolando cruzamentos, pedindo passes e se posicionando para receber - a sorte unicamente acontece para aquele que está bem posicionado.
Fred superou a si mesmo. Era para ter sido apenas competente, foi extraordinário. Porque ele é profundamente apaixonado pelo Fluminense.
Vem se tornando um mártir: um santo eleito pelos homens, intruso humano e raçudo do templo, incomodando a paz dos santos indicados pelos deuses.
RAÇA
Fabrício Carpinejar

Raça é perder o jogo, o campeonato, mas não perder a torcida.
Um jogador que não desiste de ganhar sempre é perdoado. Poderá ser aplaudido no desastre, abraçado no velório, recompensado no drama.
É o que sobrevive ao fim.
A raça converte insistência em heroismo; disciplina, em obstinação.
Raçudo não é qualquer um, é lutar para não ser qualquer um. É o primeiro jogador a chegar ao treinamento, o último a deixar o vestiário.
É o que conversa com os pés antes de bater uma falta, e cobra empenho dos colegas com gestos de regente.
Nem respira, todo sopro é suspiro, toda loucura é respeito pelo sonho.
É o chato, o esperançoso, o ingênuo; o que apressa o coração do tempo, e não obedece ao placar. Só acredita na bola, em mais ninguém. Surdo a Deus, ao Diabo, aos matemáticos.
Raçudo: aquele que confunde a partida com sua vida, e ressuscita por teimosia. Por orgulho. Porque não aceita se entregar à fatalidade.
O que vai suar enquanto os demais descansam; o que vai sangrar enquanto o mundo recém acorda; o que vai morrer para mostrar que é possível estar de volta.
Leva qualquer resultado como pessoal. Uma derrota é ofender sua família. Gosta de cair para voar mais rápido. Não há como tirá-lo do campo, contundi-lo, não aceita substituição, reclama da lentidão de seu próprio anjo da guarda, não abandona o time na mais absoluta desvantagem, é o que buscará a bola dentro das traves para recomeçar a luta no meio de campo.
É mítico por se expor à fraqueza. Foi provado pelo destino e não sucumbe às adversidades. Tudo fracassou e ele corre para a glória.
Será o goleiro que falha durante os noventa minutos e se redime nas cobranças de pênaltis.
Será o atacante que erra um gol feito e exorciza as redes nos acréscimos.
Será o reserva que entra no segundo tempo, sob vaias, e nos conduz à euforia de urros.
Um jogador não se torna ídolo por ser craque, mas pela raça.
A raça é quando o jogador torce e a torcida joga. É a admiração eterna da arquibancada.
PRIMEIRO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
O MEDO DO ATACANTE
DIANTE DO PÊNALTI
Fabrício Carpinejar

Dos homens, o que mais evoluiu desde a Idade Média foi o goleiro. Muito mais do que a figura do pai e do torneiro mecânico.
Na minha infância, acho que não é impressão ou chantagem da saudade, não era fácil errar pênalti. Aliás, errar era um escândalo, um momento raro, suficiente para destruir reputações e colocar o batedor numa perigosa zona de bullying com a torcida. Falha imperdoável, tratada como um vexame, ou um dos selos do Apocalipse.
Já o goleiro, quando alcançava o milagre da defesa, recebia coroa de louros de César, ovacionado, erguido subitamente nos ombros dos companheiros ao final da partida.Penalidade no tempo normal soava como gol obrigatório. A exceção ficava por conta da decisão de campeonato, após a prorrogação, onde o nervosismo e o cansaço favoreciam o defensor.
Pelé comemorou seu milésimo gol sobre o Vasco num pênalti - imagina se iria jogar para fora. O rei do futebol desperdiçou cerca de quatorze cobranças em toda sua carreira. Uma ninharia diante de centenas de acertos e de seus 1367 jogos.
O torcedor ofendia a mãe do juiz, e a mãe do goleiro é que sofria calada.
Ficava-se com pena do número 1, e seu papel de vítima no paredão, de bode expiatório, condenado a ser fulminado no alvo de onze metros. Pivô de uma covardia absoluta, sem o direito a se mexer, de fazer um último pedido ou se precipitar antes do apito.
Naqueles minutos de enfrentamento, o goleiro atuava como mero gândula das redes. Tinha o único trabalho de buscar a bola e repor ao centro do gramado.
Obrigatoriamente, o placar deveria se mexer: assim como na arena esperamos a morte do touro, e jamais a queda do toureiro.
Não existia firula. Zagueiro cobrava forte, de bico e olhos fechados (estilo Dunga). Atacante colocava com categoria no canto oposto (estilo Romário).
Lembro perfeitamente de Zico chutando em cima do francês Joël Bats nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, não dava para acreditar, coisa do demônio, azar dos deuses.
Há dez anos a torcida comemorava a marcação do árbitro com o estardalhaço de um gol. Hoje não tem como antecipar o grito. Pênalti virou cobrança de falta perto da área. A expectativa desandou em desconfiança.
Times do Brasileirão como Santos e Inter, apesar de cobradores experientes, costumam errar metade das chances. Na Liga Inglesa, um terço das penalidades não é convertido.
Não sei o que aconteceu: se o excesso de requebros dos centroavantes banalizou o ato, se a banda Calypso influenciou a cintura dos envolvidos, se a cavadinha corrompeu os atacantes, se a CIA e a KGB treinaram arqueiros no Afeganistão.
Não sei o que deve ser feito: diminuir a distância, ou aumentar a dimensão das traves.
O pênalti transmitia uma ideia de virilidade ao batedor, o equivalente a nunca broxar, a nunca negar fogo.
E nem dá para receitar Viagra em função do antidoping.
Publicado na Revista da ESPN
Outubro/2011
Número 24
P. 90, Crônica
BIPOLARES
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

O Brasileirão é uma festa para os psiquiatras.
Nos anos anteriores, Fluminense e São Paulo foram megalomaníacos. Tomaram dianteira e não tiraram o pé do acelerador. Viveram a liderança com folga, ambiciosos e arrivistas. Afinal, Muricy Ramalho era Napoleão.
Na edição de 2011, a situação é nova, a irregularidade é corrente, impossível indicar um provável vencedor faltando dez partidas. Os competidores demonstram que são bipolares. Ninguém segura a euforia por mais de três rodadas. Corinthians começou muito bem, caiu de rendimento, ficou em 4° lugar, teve mais um pico de adrenalina, recuperou a liderança no domingo (9/10), e promete seguir com altos e baixos inacreditáveis. O Flamengo, após sequências deslumbrantes, empacou por dez jogos, retomou o gosto da vitória há pouco com América MG, São Paulo e Fluminense, subiu ao G-4 e deve tombar brevemente.
É o campeonato mais alegre e depressivo do mundo. O Grêmio supera o Santos e pensa na Libertadores. Perde para o Coritiba e briga para se manter na Sul-Americana. No prazo de quatorze dias, os gremistas estiveram por cair e por se consagrar.
É uma mudança de mentalidade a cada final de semana. De um domingo para outro, ou os times estão perto do título ou do rebaixamento. Nenhum torcedor aguenta tamanha alternância.
O Inter leva dois do virtual rebaixado Atlético Paranaense fora de casa e depois dá um chocolate de três a zero no líder Vasco dentro do Beira-Rio. Despede-se do título amargando a diferença de dez pontos dos primeiros, e, de repente, volta a sonhar com a taça diminuindo a vantagem para sete pontos.
Venceu três partidas seguidas – pode ir cobrindo de lantejoulas a faixa de campeão e separando dinheiro para viajar pela América. Perdeu três seguidas e é hora de preparar a novena e sensibilizar as potências celestes contra o descenso.
Duas vitórias seguidas desembocam na ilusão do Japão, duas derrotas consecutivas resultam em desespero alfabético.
Todos os vinte participantes seguem a hipérbole doentia. Ou a equipe ruma a disputar ao Mundial Interclubes ou o chicote do destino empurra o clube à Segunda Divisão. O meio-termo não faz parte do sistema classificatório. Para os atuais concorrentes só existe o céu e o inferno, ou tomar cerveja gelada com São Pedro ou leite de soja morno com o diabo.
O time sofre uma goleada e o torcedor começa a admitir que permanecer na primeira divisão é lucro. O time goleia o lanterna e o torcedor projeta que a vaga para libertadores é questão de tempo, nada é impossível, esse ano a coisa vai.
E vale para tudo. O técnico que usou cinco volantes e ganhou é um gênio a ser indicado para o futuro Nobel do futebol (com certeza, vão criar a categoria por causa de suas inovações táticas). O mesmo técnico ao naufragar com cinco volantes (por favor, não pensem que é uma alusão à Celso Roth) ganha diploma de cretino autenticado pela FIFA.
Não tem como gerar prognósticos. Vasco assume a dianteira, engata três e decepciona a seguir. Os enfrentamentos funcionam por ciclos de contentamento e de irritação fúnebre. É fé sucedida de ceticismo, é alegria acompanhada de niilismo, é risada vizinha do choro.
Brasileirão 2011 é bipolar. Uma doença que não tem cura. Não despontam favoritos, não surgem certezas. Conta-gotas até o fim. Haja estabilizadores de humor, ansiolíticos e antipsicóticos.
A TORCIDA COLORADA SÓ ACREDITAVA NELE
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Hoje (4/10), data de São Francisco de Assis, é a missa de sétimo dia da ave Escurinho, ou Luis Carlos Machado, que faleceu aos 61 anos, vítima de complicações do diabetes e da doença renal crônica, que já estava em estágio terminal.
Ídolo da segunda década de ouro do Internacional, bicampeão brasileiro em 1975-1976 e hexa do Gauchão de 1970-1976, Escurinho é um apelido simpático, mas de "inho" ele não tinha nada, tudo nele soava superlativo, a começar pela alegria em campo e no samba.
No estilo de atuar ele não encontrou imitadores, não dá para dizer com quem se parece. Ele carregava o violão nas costas - não era bobo de carregar o piano.
Não preenchia o perfil da malandragem, pelo contrário, exibia virtudes europeias de atacante operoso, disciplinado e generoso com os colegas. Mostrou que quem é inteligente não precisa ser malandro.
Escurinho jogava por telepatia com Falcão, Figueroa e Carpeggiani. Tabelava adivinhações usando as sobrancelhas de batuta. Ficou conhecido como um regente de pássaros do Guaíba, controlou o espaço aéreo do Beira-Rio por meia década.
Consolidou no futebol brasileiro a expressão "time com banco”. Foi o melhor reserva que o Internacional já teve. Por uma razão singela, além de decisivo e certeiro, ele nunca quis outra coisa. Sentia-se um coringa da cumplicidade, a carta na manga para desentortar jogos truncados e revalorizar os naipes do carteado. Escurinho estava à disposição do técnico, de verdade, jogava para ele. Poucos entenderam tanto o que é espírito de equipe. Quando entrava, decidia. Sua estrela raramente falhava. Seu ingresso tinha o efeito de bomba moral, vitaminava o elenco. Do outro lado apavorava o adversário. Eles sofriam com o sangue novo e a clarividência do posicionamento.
Se já é infernal para uma zaga cuidar para não fazer falta perto da área, com o Inter a prevenção dobrava: devia-se cuidar para não ceder escanteio. Valdomiro batendo um escanteio e Escurinho em campo resultava em meio gol, quase pênalti.
Não dependia de dois tempos, um tempo, meio tempo. Bastavam-lhe os instantes finais do segundo período para resolver o placar. Ele virava a ampulheta, vinha para o nocaute. Como ninguém, dominava a tensão dos acréscimos. Sua presença dilatava os segundos, a partida não terminava antes do seu gol. Escurinho foi o único juiz que a torcida colorada acreditou.
O cabeceio era a essência de sua virtude, pulava mais alto que todos e, acreditem, chutava com a cabeça. Rivelino da testa, Nelinho das têmporas,transformava a bola em míssil.
Mas sabia também contorná-la, acariciá-la com os cabelos, cumprindo passes com a precisão de engenheiro e delicadezas de aeromoça. A teoria conspiratória é que ele produzia um feitiço congelando os outros e levitava sozinho, livre, desimpedido. Seu salto tomava sempre a direção certa, graúna inesperada, e corrigia a trajetória errática da bola.
POR QUE O INTER NÃO DECOLA?
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A torcida vermelha esperou abril para voltar a sentir alguma confiança no time. A saída de Roth foi como desenterrar um sapo, desencantaram os pés, os gols voltaram. O time andava mais leve em campo, adrenalinado. E o novo técnico mal começara.
Existe algo em Roth que é um mistério: ele sofre da síndrome da vassoura nova. Varre e arruma a casa onde chega, e sempre com competência, porém não segura o que ele mesmo monta.
Falcão chegou. Não duvidamos de seu passado impecável como atleta, sua postura aristocrática em campo teve poucos rivais. Falcão é um lorde inglês que nasceu por descuido no Brasil. Exala ares de diplomata. Qualquer pessoa que tenha privado uns minutos de sua presença pode testemunhar sua sensibilidade, sua escuta fina e atenta, e a delicadeza em lidar com questões polêmicas. Mas nossa questão é: como será como técnico? Sua experiência anterior foi mediana: com 50% de aproveitamento.
O senso comum acredita que futebol é uma ciência simples. Nada disso, é uma mistura com pesos distintos em que se necessita do cérebro de enxadrista, da percepção de regente de orquestra, da frieza de cirurgião, com a grossura decidida de um capo de organização mafiosa. E se ele tiver um analista de Bagé como auxiliar será o tipo perfeito.
Meses depois sentimos o que nunca antes poderíamos supor: uma pontinha de saudades de Roth. Falcão mantém sua fraca média no comando, apesar da distância intelectual de uma década de sua experiência na direção do Inter e da seleção.
Não evoluiu, está enferrujado, mexendo o pescoço com tiques, acuado com a pressão do vestiário, distanciado da malandragem do meio.
Com Roth, pelos menos o colorado não fracassava no Beira-Rio. São cinco rodadas sem vencer na Padre Cacique, cinco pontos em quatro jogos pelo Brasileiro, uma derrota em casa para o Ceará (que levou goleada para o Atlético Goianense), além de uma incompreensível entregada da Libertadores ao Peñarol.
O time com Roth era medíocre, e com Falcão a mornidão tem requinte de dengue. Surgem até indícios de ausência de condicionamento físico dos atletas.
A conquista do Gauchão disfarçou a precariedade. Uma conquista no detalhe, nunca resultado de uma grande campanha. Falcão foi outra vassoura nova e só.
Ele aponta sinais de burocracia, de amarração no meio-campo e lentidão de saída de bola. Não firmou esquema tático, o time não é uma escola, mas um bando vulnerável a viradas.
Técnico bom é o que mexe com o time ganhando, não é aquele que mexe com o time perdendo, movimento natural e esperado para reverter o resultado.
Falcão não segura vitórias.
Ou temos o melhor elenco e um técnico desorientado ou um técnico competente e um elenco fraco ou ambos?
O primeiro pedido do técnico nos comoveu e parecia que apontava um bom caminho: ele queria que se retomasse a alegria de jogar.
Não houve alegria, porém o conflito entre duas gerações. Um time velho, desmotivado, sem nenhuma gana por vitória (Bolívar, Kléber, Guiñazu, Índio), consagrado por grandes títulos na última década, e um plantel jovem, louco para fazer história (Oscar, Damião, Fabrício, Gilberto).
Os dois juntos não vem funcionando juntos. Um puxa o outro para baixo.
Toda galeteria, toda churrascaria pede um pratinho de cemitério para o osso.
Ou Falcão limpa o prato ou será enterrado logo logo.
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