GRÊMIO IMORTAL OU IMORAL?
Fabrício Carpinejar

Mosqueteiro: cadê a espada?
O destino quis que o Inter só fosse tetracampeão brasileiro com a ajuda do Grêmio. Está a dois pontos do líder Flamengo a uma rodada do final e enfrenta o Santo André no Beira-Rio. Sabe aquela condição que torna qualquer negócio impossível, qualquer casamento inviável?
É o campeonato mais esquizofrênico que já ouvi falar e vi acontecer. Mais dupla personalidade. Mais Dama do Lotação.
Quando o marido descobre que sua mulher o traiu no conto de Nelson Rodrigues, logo pega a arma e pergunta quem é o sujeito. Ela diz que não adianta se vingar: são muitos. Aquilo arrebenta com qualquer represália: como ele pode redimir sua honra trucidando a lista telefônica? Decide morrer de fome, trancado no quarto.
No Brasileirão, foram muitos os possíveis campeões. Muitos cornos. Não perca tempo tentando articulando tocaias.
Na semana passada, São Paulo era o favorito, bastava ganhar do Goiás. Levou uma surra no Serra Dourada. Agora o Flamengo só tem que empurrar o tricolor gaúcho - totalmente inofensivo - para as redes e levanta o caneco. Não duvido de mais nada. Nem de um título do Palmeiras matematicamente milagroso. Fluminense praticamente escapou do rebaixamento encaixando seis vitórias consecutivas, depois de amargar 27 rodadas na 2ª Divisão.
O Grêmio vive o maior dilema de sua história.
Agora está entre a imortalidade e a imoralidade.
Se deixar o Flamengo vencer no próximo domingo (6/12), seus jogadores abandonarão sua masculinidade e a fama farroupilha (no retrospecto de Marcelo Rospide, são duas vitórias e um empate, a tendência seguia para o alto).
Todo o país estará assistindo ao vexame de um dos maiores times brasileiros, capaz de se rebaixar a um conchavo. E não importa se jogarão com reservas, juniores ou dente de leite, é a estima da camisa que está na vitrine. O valor dela mais do que o preço. Ficará conhecido como o clube que entregou o campeonato. Por longo e maldito tempo. Daí pode tirar definitivamente a espada da mascote. O mosqueteiro seguirá desarmado em direção ao Juízo Final.
Se empatar ou ganhar do Flamengo, seus jogadores perderão a confiança da torcida. A impressão é que ser gremista é torcer somente contra o Inter, mesmo que isso signifique ser contra o próprio Grêmio. O que está em cena é se o amor ao time significa o ódio ao rival, ou não. É um debate inédito sobre moralidade futebolística.
Sei que é importante secar, desde que com a roupa limpa e lavada.
Entenda, o Grêmio pode perder naturalmente, já que não ganhou nenhuma fora de casa. Pode perder premeditadamente, que não estará sendo ilegal.
Mas o que é legal pode ser imoral. Não adianta reclamar da maracutaia legalizada da política quando há torcedor defendendo a quebra do decoro parlamentar no futebol. Sem eufemismos, é quebra do decoro parlamentar. Corresponde a vender um resultado. Melhor nem entrar em campo. Qualquer deputado seria cassado e aniquilaria sua reputação com essa atitude.
Todos confiam na segunda opção. Que o Grêmio terá sangue doce no Maracanã. Sangue caramelizado. De maçã do amor. Ainda não consigo imaginar como será a encenação. Devem fazer um pênalti escancarado no ataque flamenguista. Para aumentar o desespero, talvez o juiz não marque e os zagueiros gremistas vão para cima dele:
- Está maluco, nos derrubamos o Adriano de propósito, ladrão ladrão!
Era previsível que o campeonato de pontos corridos, que funciona na Itália e na Espanha, encontraria algum defeito no Brasil. Descobrimos a falha do sistema na edição de 2009: a rivalidade regional. Caso o Atlético estivesse no topo e o Cruzeiro enfrentasse seu oponente direto na briga pela taça, a mesma discussão tomaria os botecos mineiros. Assim por diante no Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. Eu não acredito que o Corinthians se esforçou contra o Flamengo no último domingo (29/11). Foi uma pasmaceira de funcionário público. O aviso foi dado quando o timão atuou fardado com as imagens de torcedores. Sinal de que estava secando o São Paulo e atendendo ao capricho da massa bicolor.
Não há como apagar os méritos do Flamengo, que acumulou na última fase onze vitórias e quatro empates, 37 pontos de 51 possíveis, numa escalada improvável quando estava engolindo vento no meio da tabela. É o único time do certame que poderia criar até o momento um DVD sem recorrer à ilha de edição e ao dom da montagem. Cumpriu uma estabilidade vitoriosa no 2º turno.
Porém, o próprio filme do Mengo corre o risco de naufragar com a desistência gremista. Como justificar um épico com W.O. do adversário?
CAIXINHA DE SURPRESAS OU URNA DE CINZAS?
Mário Corso

O jornalista Humberto Werneck juntou durante anos os lugares comuns da nossa língua. Resultou no “O Pai dos Burros – Dicionário de lugares-comuns e frases feitas” (Editora Arquipélago, 2009), um livro imprescindível para quem escreve, está ali tudo que deve ser evitado.
Adivinhem o verbete com maior número de entradas?
Futebol, é claro. Veja abaixo:
A magia do futebol
Achei que já tinha visto tudo em futebol
Futebol é assim mesmo
Futebol é bola na rede
Futebol não tem lógica
Jogar o seu melhor futebol
Jogar um futebol burocrático
O futebol campeão do mundo
O futebol é uma paixão nacional
O futebol é o ópio do povo
O futebol é uma caixinha de surpresas
O futebol tem dessas coisas
O melhor futebol do mundo
Começamos esse blog para falar do esporte de outra maneira, com outras palavras. O “rude esporte bretão” parece ter seu dialeto próprio, suas expressões cansadas e suas máximas ainda mais desgastadas. O dever do escritor é renovar e arejar a linguagem. Conseguir vencer a preguiça conclusiva e inventar novas expressões. O leitor que nos diga se conseguimos trocar o para-choque do caminhão.
Falta ainda alguém escrever um manual da lógica própria ao futebol. Por exemplo: “o gol veio na hora certa”. Vocês já viram um gol vindo na hora errada? Um técnico pedir a anulação do gol que teria chegado em um momento errado? O capitão xingar o jogador que colocou para dentro quando não podia?
Tem muito mais: “se entrasse era gol” anuncia o locutor eufórico. Alguém soube dum gol sem entrar?
Uma das origens do besteirol no futebol é fácil de apontar: a televisão. O locutor de rádio é um artista, ele tenta recriar uma cena e uma emoção que o ouvinte não está vendo. Quando assistimos o jogo na TV é quase como estar no estádio. O futebol não precisa de legendas, tal qual um filme mudo todos o entendem. Ele é explícito, a narração na TV é inútil, é uma fala que já nasce vazia. Apenas ninguém tem a coragem de deixar esse espaço vazio. Ok, quem sabe, como nos filmes mudos, um pianista que faça de improviso um fundo musical que interprete a alma da partida. Ou então podiam apenas gritar gol ou amaldiçoar o juiz. Nada disso, e ainda chamam comentaristas para ajudar a preencher o que está transbordando, só pode resultar numa enchente de obviedades.
"O Pai dos Burros" é o cemitério do dicionário. Um cemitério lotado, já é o momento do clichê aderir à cremação.
BALDE DE CARANGUEJOS
Fabrício Carpinejar

Imagino a frustração da torcida do São Paulo com a derrota para o Botafogo. Ou o recalque da massa flamenguista com o empate em casa contra o Goiás. Ou o desamparo dos palmeirenses com a derrota para o Grêmio. Os três poderiam colocar a mão na taça.
O Brasileirão é o anticlímax. É mais o que está deixando de ser campeão do que aquele que está sendo campeão. Os jogos paralelos são mais importantes do que os cruzamentos do próprio time. Quando algum plantel ameaça acelerar, logo atola.
Não diria que é um campeonato, mas um balde de caranguejos.
Praticamente torcedores dos seis primeiros lugares já se sentiram campeões em alguma fase do campeonato e tiveram que devolver a faixa ao vizinho.
O Inter, muitas vezes, desfrutou de condições para assumir a liderança com folga, e gastou a vantagem até se endividar. Se não ganhar o caneco, o colorado vai explicar que foi a derrota caseira para a estrela solitária ou o empate com o Atlético Paranaense ou ainda o naufrágio desmerecido diante do São Paulo. Os derrotados têm uma explicação na ponta da língua antes do balanço final.
É a primeira competição que acontece no sentido anti-horário. A cada rodada, uma retrospectiva dos pontos perdidos.
O Inter era para acenar da cova, chegou a sair inclusive do G-4. O que indica que a ausência de Giuliano, convocado para a seleção Sub-20, deflagrou a perda de qualidade, o retrocesso e a confusão do meio. Com duas vitórias seguidas, mudou a sorte e garantiu novamente a possibilidade do tetra, bastando duas vitórias com rebaixados (Sport e Santo André), uma derrota dos são-paulinos e um empate do Flamengo. Três pontos separam o Inter do líder, a dois jogos do encerramento. O tempero (melhor: afrodisíaco) da virada é que o rival ajudou a ressurreição ao congelar Palmeiras e Cruzeiro. Talvez os gremistas tenham oferecido a Libertadores como presente do Centenário.
O curioso é que ninguém mais joga dependendo de si, somente o São Paulo. Vinte times fofoqueiros, interessados na vida do outro. O desempenho é transparente, não surgiu esquadra com 60% de aproveitamento. O campeão terá menos do que a média escolar.
Em 2009, morreram os profetas. Morreram os palpiteiros. Morreram os prognósticos. Morreram as estatísticas. Ou havia um Nelson Rodrigues prevendo que o Fluminense não seria rebaixado? Comandado por Fred, conseguiu o absurdo de cinco vitórias consecutivas (batendo grandes como Palmeiras, Galo e Cruzeiro) e se aproxima (dois pontos) da faixa intermediária.
O vencedor do Brasileirão é um só: o acaso. Não existe justiça porque somente há injustiçados.
THIERRY HENRY E MORAL CÂMERA LENTA
Manoel Madeira
Correspondente - Paris
Henry aproximou handball do futebol no último jogo das Eliminatórias que classificou a França e eliminou a Irlanda
Tratava-se de encrespada refrega nos relvados do Bois de Vincennes, em Paris, onde nas terças-feiras à noite realizam-se os famigerados treinamentos da ASPG, time da 13ª. Divisão do Campeonato Francês de Futebol. Na verdade, ninguém nunca assim contou as tais divisões, pois é tão complexo que não vale a pena. A gente chegou num ponto que as divisões de definem pelos times que podem jogar no domingo ou no sábado. Isso não impede, nessas terras onde impera a ordem, que tenhamos a carteira da Federação Francesa de Futebol, o que, aliás, muito nos orgulha. Mas acabemos com essas tergiversações e voltemos a essa noite gloriosa.
Era a despedida do Misaki, um japonês altivo, galhardo, sangue bom mesmo, que decidiu se mudar para a Austrália. Fora Misaki e eu, todos os jogadores são franceses, e é por isso que somos reservas: eles não entendem a nossa arte, o nosso savoir-faire que extravasa fronteiras. Por isso aquele coletivo era de importância maior, hora de mostrar nosso valor aos protegidos titulares. Num exercício de extremo denodo, levamos o embate empatado até o último minuto, quando adveio o momento crucial. Após um vertiginoso disparo de fora da área, o eminente arqueiro adversário espalma a gorducha em direção ao solo, o qual ela beija quase voluptuosamente, assim oferecendo, em movimento diagonal, quase toda a área da goleira ao implacável Misaki. Este dirigiu-se à bola como um samurai em desembalada carreira, mas hesitou em dar a punhalada derradeira no último momento. Sua irresolução fez-lhe perder a passada e a posição ideal para chute, não restando ao nosso herói dar um pequeno pulo reparador, o que não foi suficiente, pois a bola já fugia tragicamente de seus domínios. Ele, então, em reflexo absolutamente impensado, dá-lhe um tapa de mão espalmada (como um pai que fustiga as nádegas do filho insensato) e empurra a dita como uma bala estufando os cordéis adversários. Nunca vi franceses rirem tanto.
Tal fato, que é por si só de elevada importância, ganhou contornos mundiais quando na noite seguinte Thierry Henry, capitão da seleção francesa, dominou com a mão uma bola cruzada na área irlandesa, já na prorrogação da partida, permitindo-se assim criar a jogada do gol que classificou a França para a Copa do Mundo de 2010. Num primeiro momento, meu vizinho e seus amigos gritaram aliviados, pularam, o teto do nosso apartamento parecia que ia cair: de fato, ninguém havia visto que Henry metera a mão na bola já que na área irlandesa se encontravam uma miríade de jogadores. Estes foram os únicos que o viram. A confusão forma-se, a televisão passa a imagem em câmera lenta, muito lenta, e “a mão de Henry” vem a público. Os vizinhos riem, comemoram, cantam a marselhesa, mas ao fim da partida, ao desceram as escadas, um já murmura: “que vergonha!”.
Os jornais da quinta-feira são implacáveis. Reprovam “a classificação pela porta dos fundos”, ironizam a “mão de deus”, pedem a defenestração do técnico, admoestam Nicolas Sarkozy, que, num provável gesto de ciúmes, pois já prevendo que Henry seria por alguns dias mais falado que ele, declara algo como “o importante é a classificação”. No trabalho, encontrei meus colegas chocados: “imagina se a gente ganha a Copa do Mundo depois disso?”, me disse meu chefe. “É assustador”, disse a psicóloga. “É uma vergonha perante o mundo inteiro”, disse a farmacêutica. Só o motoboy foi um pouco mais condescendente: “Imagina, a bola vem e ele pensa ‘Se eu boto a mão, a gente vai prá Copa, se eu não boto a gente perde’ Ele botou”.
Não impressiona ninguém que todos os grandes jornais tenham estampado a questão da “mão de Henry” nas suas capas como matéria mais importante. O Libération publica uma enorme foto tremida da mão do sujeito, e chama a classificação de “imoral”. O L’Équipe e o Parisien falam de “constrangimento”, e o primeiro reafirma a necessidade de pensar na demissão do já anteriormente contestado treinador, Raymond Domenech, que não quis apresentar suas desculpas. Já o La Tribune e Le Fígaro abordam a questão econômica. O primeiro fala das somas mirabolantes que o Canal de Televisão TF 1, a Adidas e a Federação Francesa de Futebol ganharão com ida da França à África do Sul; o segundo, se volta à própria equipe, afirmando que só o Domenech faturou 862,000 € (mais de R$ 2 milhões) como prêmio pela vitória. Estando sempre os valores relacionados à foto da mão pérfida de Thierry Henry. Por fim, todos falam, claro, da solicitação do primeiro ministro irlandês junto à FIFA que reclama que o jogo seja realizado de novo.
O que impressiona nessa história toda é descobrir que Henry, no imaginário de todos que o recriminam ou elogiam, é nada menos que um super-herói. Vendo a bola que parte a quarenta e cinco metros de distância (o cruzamento foi do meio-campo), ele correu em sua direção se livrando de dois ou três armários irlandeses, e vendo que na grama úmida a bola escorregara mais do que o previsto, pensou que estava ali a possibilidade de levar ou não seu país à Copa, no dinheiro das empresas, no do seu técnico, no seu próprio, e que enganaria o mundo inteiro, sem contar no goleiro que a dois metros estava, e no zagueiro francês que ganhava fulgurantemente a pequena área para receber seu cruzamento. No tempo em que Henry fez tudo isso, ninguém, sentado em sua poltrona, com os olhos arregalados em frente à TV, viu que ele colocou a mão na bola. Sugerem alguns jornais que, na hora em que todos gritavam alucinadamente, inclusive as oitenta mil pessoas do Stade de France, Henry tivesse que julgar tudo que naquele segundo acontecera, não comemorar o gol, correr em direção ao árbitro e assinalar o seu pecado. Ou seja, um herói.
O que parece é que o mundo se plastifica. O futebol, que é esporte que aparentemente mais favorece a arte do engano, pode aos poucos perder a graça frente à complexa moral da câmera lenta, submissa à tirania da imagem irrefutável e que polemiza questões irrelevantes. Os jogadores, tão encorajados a enganar (pois o drible não é outra coisa), devem agora dar-se conta de toda uma etiqueta moral extra-campo.
Ora, será que vale se questionar sobre as intenções de Henry naquele milésimo de segundo? Quer dizer que, se o gol fosse legal, o fato de Domenech ganhar uma fortuna como prêmio é aceitável? Parece haver aí uma inversão: o que podemos controlar e moralizar é o que se encontra em torno do jogo e não o que acontece dentro dele. Peguemos um exemplo tupiniquim: o episódio da suposta “mala branca” do Brasileirão deu menos o que falar do que a anulação de um gol do Palmeiras contra o Fluminense. Colados com o nariz em alguma tela que nos mostra o lance fatídico nos ângulos mais diversos e quantas vezes queremos, vociferamos contra o árbitro que teve um átimo para refletir. Ao mesmo tempo, aceitamos os ingressos caros, as maracutaias das quais desconfiamos, a moda de suspender jogadores durante meses às vezes por infrações tão sutis que só foram vistas em câmera lenta.
Aliás, um deputado francês já pediu a suspensão definitiva de Henry da seleção francesa – mesmo que o craque já tenha pedido desculpas e se adiantado em dizer que a partida deve ser jogada de novo! Quem teve sorte foi Misaki que com todo esse escândalo foi ofuscado pelas banalidades do affaire Henry. Nelson Rodrigues dizia que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade Shakespeariana” – o que o futebol pasteurizado de hoje só faz confirmar.
DIA DA MARMOTA
OU O CENTENÁRIO AZARADO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Quem briga pelo G4 está fora do G4, quem briga pelo título está dentro do G4. O Grêmio vem tentando há um bom tempo chegar ao quarteto premiado e sempre esbarra como visitante. Nunca estará no G4. O Inter - enquanto brigava pelo título - permanecia no G-4, agora está em 5º (não caiu para sexto porque o Cruzeiro vacilou diante do Fluminense) e deve se contentar novamente com a Sul Americana (mirando ilusoriamente o G-4).
Matemática simples.
Não conheço um time que seja tão ruim, tão medíocre na reta final como o Inter. É o quase, está virando piada nacional. Todos apostam nele no início da competição, é o favorito moral e vai se imoralizando ao longo da competição. Foi assim em 2006 e 2007, ficando em 2º lugar, atrás do Corinthians e São Paulo, foi assim em 2008 e repete a ladainha das derrotas nas partidas derradeiras de 2009. Quando faltam sete rodadas, o Inter entra em colapso. É um hábito, imaculando a imagem de campeão do primeiro turno. O Saci bem que poderia fazer uma prótese na perna direita. Não dá mais para continuar pulando com um pé.
O colorado não tem competência, que sobra para o São Paulo, que é capaz de emendar um tri. Os paulistas jogam mal e ganham. Placar magro, mas avançam. São objetivos nos objetivos. Palmeiras reforçou o elenco, quer o título, ainda que seja também instável nos duelos decisivos. O Atlético corre por fora, com mais garra e atrevimento do que estrela. O Inter é somente escandaloso no vestiário, nunca em campo, vive arrumando uma explicação para justificar seu tombo, seja o juiz, seja expulsões ou lesões. Duvido que não culpe a temperatura de 40º.
Era a competição mais tranquila para se vencer. Não há favorito, a maioria tropeça, os resultados paralelos ajudam, mas o Inter tem a síndrome da insuficiência em pontos corridos. Se a Libertadores fosse por pontos corridos, o Inter nunca seria Campeão do Mundo. Ele consegue se concentrar no mata-mata, em adversários isolados, por isso alcançou o vice-campeonato na Copa do Brasil. Sucumbe em longas jornadas, obrigado a manter a regularidade e constância. Ganha duas para perder duas. É um velocista posto numa maratona (o São Paulo é o mais completo maratonista, some da ponta para reaparecer ao final, no momento certo, e com fôlego para arrebentar a fita).
Inexplicável a partida contra o Botafogo neste domingo (1º/11), no Beira Rio. Levou um gol de falta aos 2 minutos e teve o jogo inteiro para reagir e não assustou nem o torcedor. Contou com um jogador a mais em campo, André Lima foi expulso, e parecia que atuava com um a menos. O técnico Mário Sérgio sacou um zagueiro (Índio) para colocar mais um ponta (Taison), além de tirar Daniel para colocar o ofensivo Bolaños. Nem a loucura produz sorte. O ataque virou um caçador - todos fugindo da bola ou tentando entrar na área por chuveirinhos (tudo bem que estava quente).
Inter é o campeão de escanteios do campeonato. E deu. De quinze levantadas hoje, por exemplo, nenhuma estufou as redes. O encontro com os botafoguenses poderia durar três dias que a bola não ultrapassaria Jéfferson.
Desde 1979, passa ininterruptamente pelo Dia da Marmota. Com o raro talento de piorá-lo.
Não conheço clube que se consagrou no ano do centenário. Uma maldição de zumbi. Veja o caso do Grêmio (caiu em seguida para a 2ª Divisão), Coritiba e Atlético (nada a comemorar), Flamengo (que conquistou somente a Taça Guanabara em 1995).
O jogo com o Botafogo encerra o ano. É simbólico, se o time não faz o possível não fará o impossível.
Poucas vezes na história do Inter um primeiro semestre prometeu tanto e colhemos uma miséria no segundo. O Gauchão não vale: enfrentou um Grêmio numa época capenga. Bater nos pequenos é fácil. Projetamos o ano baseado nessa experiência menor. E não estamos tão mal na tabela pelos gols do Nilmar no começo da temporada.
O futebol não é só feito de superstições. Erramos demais. Num espaço de um ano vendemos quatro jogadores cruciais, aqueles que são a diferença. Terminamos o ano com os cofres cheios e a barriga vazia.
A questão central não é essa, gastamos um ano e um plantel num técnico que não empolgava sequer os mais caxienses. Não adianta ter uma Ferrari e dar para o Rubinho. Não construímos um padrão de jogo, um espírito de corpo. O nosso time é um bando - cadê Virgulino? Com o que gastamos em jogadores, não dava para contratar um técnico com mais experiência? Deixamos passar a cantada do Murici para honrar a palavra com o Tite. É de cortar o pulso com Bolacha Maria.
Resta a festa do centenário, quem vai?
O CAVALO DE MANOEL
E A ESTRATÉGIA DE MÁRIO SÉRGIO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Arte de Leonardo da Vinci
O português tinha um cavalo que era uma maravilha, bonito, rápido e não havia carga que não puxasse, mas o Manoel achava que o cavalo comia demais. Então, o Manoel teve uma ideia brilhante, foi tirando a ração do cavalo. Cada dia desfalcava um pouco mais e o cavalo seguia trabalhando, abruptamente emagrecido. Vejam que grande azar: no dia em que o cavalo aprendeu a trabalhar sem comer, ele morreu.
Isso nos lembra um time mágico, rápido, atuava bonito, comovente, não tinha gramado ruim para ele. Mas era um time caro, então os Manoéis tiveram uma ideia: vender um jogador expressivo. Venderam e o time seguia ganhando, não era um espetáculo, mas seguia em frente. Então os portugas pensaram: quem sabe mais um? O time perdeu a magia, o embalo, queimou a gordura acumulada, mas ainda ganhava. Por que não mais um e mais um? E quando o time ficou barato, mas vocês nem sabe que azar: justamente agora não ganhava mais de ninguém e enforcaram o técnico!
É a história subjetiva do Internacional neste último triênio, que testou os limites do seu plantel. Ao ganhar, pensou que não era suficiente, poderia vencer e também economizar. Tomado do orgulho do título mundial, os cartolas passaram a não considerar nenhum atleta indispensável.
O Inter tornou-se maior do que o seu futebol.
No momento em que supera a marca de cem mil sócios, dispondo de uma condição orçamentária privilegiada diante dos rivais, decide ser avarento. É uma burrice extremamente ousada. Ao invés de segurar os craques, desandou a vender. Tirava mais um e jurava que nada mudaria. Desde a conquista da Libertadores, seguiram o rumo do aeroporto Tinga, Sóbis, Alex, Alexandre Pato e Nilmar. Com um deles, o tetracampeonato estaria garantido.

Mário Sérgio: Adão sem Eva.
A tal ponto que o Inter avança no Campeonato Brasileiro por sedentarismo. Conseguiu diminuir a vantagem de nove para quatro pontos do líder Palmeiras porque todos os seus adversários perderam ou empataram nas últimas duas rodadas. Não é o Inter que mostra serviço, cochilou em casa com o Atlético Paranaense (1X1) no último sábado (10/10), são os outros que tentam dar o título de presente para o seu centenário. Tite caiu, assumiu Mário Sergio, e herdou toda a improvisação do elenco. O grupo numeroso e profuso, carente de várias posições e com duplicidade em setores desnecessários, é o eletrocardiograma da direção. Taison não é mais Taison sem Nilmar, o time é lento no contra-ataque, Alecsandro funciona somente plantado na pequena área, a regra é meia e atacante assumirem as laterais, uma confusão tática, um tumulto pelo centro do campo, uma movimentação capenga e o desespero incontrolável dos chuveirinhos para resolver de qualquer jeito.
Até entendemos o motivo do cancelamento de treinos pelo Mário Sérgio. Ao descobrir o que tem em campo, reuniu todo o time para secar. É a única coisa que vem funcionando. O Inter é imbatível na secação.
XÔ URUCA!
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

- Maria, você estava comigo quando fugimos da seca nos sertão.
- Estava.
- Maria, você estava ao meu lado quando perdemos nosso filho.
- Estava.
- Maria, você estava junto quando o nosso armazém faliu.
- Estava.
- Maria você estava sentada ao meu lado quando nos roubaram o Chevette.
- Estava.
- Maria, você estava ao meu lado agora que eu tenho câncer.
- Estava
- Sabe Maria, você me dá um puta azar!
O futebol transforma os céticos em supersticiosos, e os supersticiosos viram religiosos na hora do jogo.
Faz tempo que observamos que o Tite não acerta o time. Não que seja um desastre, e nem que joguemos tão mal assim, mas ultimamente tem algo fora do eixo. Na conclusão o chute espirra, o centroavante erra gol feito, nada funciona. Se não marca, Alecsandro não é ninguém porque não ajuda em mais nada. Seu jejum ultrapassa 300 minutos. Não tem a velocidade de Nilmar, que era capaz de jogar bem mesmo não pontuando nas redes. Todos os jogadores estão abaixo da expectativa. Taison passa a sensação de que está com febre amarela, mole, profuso.
Aliás, a camisa do centenário só provou que o Inter amarelou. Falta tingir o uniforme de sangue.
São quatro jogos sem vitória (além dos dois da desclassificação na Sul-Americana). O colorado perdeu de 2 a 0 neste domingo (4/10) para o Coritiba, empatou com o Flamengo em casa, sucumbiu ao Vitória no Barradão e tropeçou diante do Cruzeiro em casa. Dos doze pontos disputados no Brasileirão, conseguiu mísero um logo no funil das últimas rodadas. Desperdiçou a chance de assumir a liderança e agora está fora do G-4. A marcação falha, a zaga tornou-se uma das mais vazadas, o ataque deixou de ser o mais competente, temos uma das piores campanhas do 2º turno.
E Tite troca tudo que é posição e não muda o escore. É um desespero no vestiário, aquece reserva, entra, chama outro e a partida parece uma peneira dos juniores. Não arma coisa alguma, amontoa desastres.
Qualquer comentarista acredita que, com esse elenco, dá para ir melhor, fazer um pouco mais, e esse um pouco mais, hoje, nos daria a ponteira da tabela e o título. Mas o técnico, mas o técnico, mas o técnico desfruta do apoio inacreditável da direção.
O torcedor sua frio, tem o pesadelo que o Celso Roth comanda o Inter, acorda assustado, e quando olha o Tite no reservado tenta voltar a dormir para ver se o pesadelo volta.
Como a razão não comove os dirigentes, vamos para o andar de baixo. Achamos que a sorte do Tite morreu, era um talismã, rendeu, ganhou, e mudou de lado. Terminou naquele gol mágico do Andrezinho contra o Flamengo. Depois disso foram espasmos de reação e uma corrente contínua de azar. Uma alternância de três vitórias e três derrotas, embriaguez seguida de ressaca violenta, o campeonato inteiro com recaídas e internações em clínica de desintoxicação.
Tite, você estava conosco nas finais da Copa do Brasil contra o Corinthians.
Tite, você estava treinando naquelas duas partidas lamentáveis, difícil saber qual a pior, contra a LDU.
Tite, você estava no banco nesse último Gre-Nal que eles viraram.
Tite, você estava quando recebemos o Corinthians em casa e, ao invés de uma vingança, confirmamos a apatia de freguês.
Tite, você estava no comando contra o Palmeiras com aquelas bolas todas na trave, aproveita e explica, por que tantas bolas na trave ultimamente, não é um sinal?
Tite, você estava dirigindo o jogo naquele domingo que perdemos em casa para o Cruzeiro quando os mineiros dominaram totalmente o meio-campo?
Tite, era você que escalou o time contra o Universidad de Chile quando começamos a Sul-Americana com o pé na jaca?
Sabe Tite, você nos dá um puta azar! Vai esfregar sal grosso no corpo.
VELHAS BANDEIRAS PERONISTAS
Mário Corso

Juan Domingo Perón e Diego Armando Maradona: nomes pomposos, caudilhos inconfundíveis.
Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo brasileiro menos um torce contra a seleção argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos pouco, mas nos gostamos muito e por isso fizemos um pacto. Ele torceria pelo Inter sempre, menos contra o Boca, e eu seria Boca, menos, é claro, contra o Inter. Depois acertamos o mesmo entre as seleções. Foi difícil, sabia que me custaria muito, mas fiz pela nossa amizade, torci minha alma para torcer por eles.
Não pensem que isso me faz vacilar quando estamos contra eles. Eu estava em Buenos Aires naqueles três a zero em julho de 2007 e foi um dia que não esqueço.
Quando o Maradona assumiu, eu cantei a pedra. Disse que ele foi sublime em campo, mas fora dele só fez merda, e que a possibilidade de voltar a fazer era quase certo. Não me deu ouvidos, disse que eu estava erradíssimo e eles seriam campeões. Outros argentinos me disseram o mesmo: Maradona era a solução.
Hoje eles estão num brete, talvez até consigam ir à copa na repescagem, mas vamos combinar, é humilhante. Eu torço para irem, a copa sem los hermanos perde em charme. Não consigo conceber uma copa sem as grandes seleções, imaginem uma copa sem a Itália, sem a Alemanha. É como um campeonato gaúcho sem Gre-Nal, o gosto não é igual.
Mas a questão é que um país se expressa na sua seleção: a convocação de um herói do passado para salvar a pátria é o mesmo que os argentinos têm feito na política. Eles não renovam, tiram o pó das velhas bandeiras peronistas já sem cor e olham para o passado e não para o presente. Quando a coisa aperta convocam os mitos.
O que é o Maradona hoje? Uma mistura de Dom Quixote no corpo de Sancho Pança, uma combinação de arrogância com falta de qualquer percepção da realidade. Seus pés mágicos se foram e deixaram uma cabeça tonta que gasta quase toda sua energia para (mal) controlar seus vícios. Maradona foi um rei no futebol e um bufão na vida. A única coisa que se pode fazer com ele hoje é um tango.
Convocá-lo para técnico foi uma oferta dos argentinos para que ele se redima, e com isso redima a todos eles. A aposta saiu ao contrário, afundaram os dois. Um jogador pode administrar dons que compreende mal, pode deixar-se tomar pela competência mesmo sem ter nenhuma consciência de onde vem e como funciona. Já um técnico tem que ser ou alguém com visão estratégica e capacidade de administrar recursos humanos ou pode ser um líder nato, coisa que Maradona não é. Ele foi um craque nato, ser um ídolo e um exemplo de desempenho em campo não quer dizer que ele tem algum dom para a liderança. Nossos vizinhos apostaram no poder do mito, como se a presença xamânica do craque fosse hipnotizar a equipe, que aliás tem bom potencial.
Os argentinos são um povo que nunca diz basta para a saudades, a cada tanto andam de costas, tapados de mágoas antigas e idealizações extemporâneas. Por isso o populismo entre eles é tão entranhado, dificilmente abrem mão de lamentar o caudilho deposto, a primeira dama carismática, o amor perdido. Êta povo melancólico!
Pobre Argentina, e a seleção nem é o pior do que eles têm que aturar. A seleção só mostra o impasse que eles mesmos estão, eles têm craques (Messi barbariza no Barcelona e desaparece na seleção), mas não sabem usar, eles são um povo culto e preparado, mas não se entendem para agir. E meu sobrinho no meio disso...
SÍNDROME DA RELAÇÃO ESTÁVEL
Ana Baggio

Inter, segunda derrota consecutiva, amassado pelo Vitória da Bahia e novamente distante da liderança do Brasileiro. Arte de Francis Bacon
Uma desilusão amorosa seria menos traumática. O que vemos acontecer com o Inter é a síndrome da relação estável. Falta tesão, entrosamento e deleite para brigar por aquilo que a torcida deseja. Um time pronto a barganhar o título que não conquista há 30 anos não se desprenderia como vem fazendo nos últimos jogos. Volta a ser o Inter do quase. Ejaculação precoce seria elogio. As armações equivocadas, a falta de gana nos jogos fora do Beira-Rio e até dentro, como no caso do Cruzeiro, a indisposição do técnico em revirar seu baú de reservas, a pressão da diretoria na oferta de um bicho equivalente ao nacional ou a vaga para a Libertadores acabam minando uma relação prazerosa dos jogadores e sua torcida.
Falta motivação? Sim. Falta um maestro? Sim. E o maestro pode se ver no Inter das belas apresentações: o garoto Giuliano. Entrou em poucas partidas, mas fez estalar os olhos de talentos como D’Alessandro e Andrezinho, que neste sábado, contra o Vitória, não justificaram sequer o par de chuteiras.
Sandro, após a recusa do Inter em vendê-lo para a Inglaterra, bate cartão ponto nas quatro linhas. De longe e de perto, escancara sua falta de vontade. É um homem a mais para ocupar espaço. Não mais que isso. E nem o ocupa direito, basta ver a falha no primeiro gol do Vitória no Barradão. Mesmo o xingão do capitão Guinazu fez com que mostrasse mais empenho no decorrer do jogo.
Os demais terminam o primeiro tempo exauridos. Alecsandro não brilha há meses, ficará recalcado pelos títulos do pai e do irmão, se continuar olhando para dentro de casa.
Assim estão os jogadores. Sem qualquer tipo de inspiração que os embale e os marque como absolutos e soberanos ao título. Jogam como o marido cansado que pede as pantufas e a cerveja gelada. Sequer se esmeram em levantar da poltrona. O controle remoto está viciado em derrotas. E o que sobra aos pobres colorados é ficar rezando, imaginando que o time assuma sua condição de lobo e saia de casa. Que rompa o relacionamento falido e abusivo, que aprenda a ter autonomia, e não dependa da esposa para fazer a comida.
Mas o Inter não parece querer largar sua condição. Será sempre a vítima da arbitragem, vítima das escalações fora de hora, vítima das lesões e decisões dos cartolas. Um time calcado a ser o quase. Ainda verá sua esposa sair de casa, bela e aprumada para garantir a vitória. Ficará remoendo os erros por mais de meses, culpando os vizinhos e o patrão. A cerveja estará choca e, com sorte, terá como consolo ligar a tevê para ver sua participação na Sul-Americana.
ESTADO HIPNÓTICO
Ana Baggio

O amor por um clube não é amor. É maior que qualquer desejo. Não acredito que exista amor à primeira vista entre o torcedor e sua equipe, o amor é anterior à primeira vista. À primeira pegada, ao primeiro gol. Há quem vá ao estádio muito antes de caminhar, sequer entende o que significa o alarido de cores e o urro ao redor. Espantados, os olhos infantis seguem um ritmo, são exagerados, inflamados, até alcançarem a luz da bola.
E quando acontece, o amor está entranhado, como voltar não há resposta.
Não conheço ser algum que não se comova com uma bola parada. É como se ela fosse uma referência de vida. Tem de estar incessantemente em movimento. E faiscamos os lados quando bebês, tentando acreditar que ela fique estática, e quando se mexe, ganha uma magia que cresce. Mas a bola sozinha não mantém o amor. É preciso mais. É necessário que haja movimento e troca. E as crianças aprendem a dividir os chutes e os empurrões, até emergir o desejo por algo maior, por aquilo que chamamos de amor. Por mais que busquemos o desejo de satisfação na ação solitária com a bola, não há como comparar com a explosão de um jogo do seu clube, com a vitória de seu clube, com o arrebatamento de uma conquista.
Ser campeão, o que coloca toda uma nação em um mesmo patamar, independente das precariedades de cada um, é a motivação para a eternidade desse sentimento. Duvido que troque de time, troque de uniforme, troque de estação de rádio. Criamos mecanismos para santificar o time, adotamos estratégias pessoais como forma de perdurar a vitória. E ao justificar as derrotas, pouco nos importamos. Ou fazemos de conta que não ouvimos o burburinho alheio. É uma massa de cornos andando cabisbaixa pelas ruas, com as bandeiras enroladas, não há como esconder o desânimo, a consternação. Traída por quem mais ama. Vontade de tirar a camisa. Mas ficar nu ainda é vestir a tristeza.
Porque sabemos que a perda será provisória, mesmo que em décadas não surja um título relevante ou qualquer possibilidade de estar entre os melhores. A esperança engana. Torcedor é um apaixonado por toda a vida. É um ciumento nato. Não queira pegar seu radinho, sua almofada ou seu boné emprestado. Tolera até ter sua mulher roubada, mas sua camiseta não!
É um masoquista, que aceita os comentários mais infames de um apresentador, e os discute durante uma semana no trabalho, arranja um desentendimento com o chefe, com o subalterno, supera a inferioridade descambando o estagiário.
Volta para a tevê e escancara a DR com desconhecidos. Sua privacidade escancarada com direito a intervalos comerciais. Liga, xinga, aponta o editor como rival, promete cancelar o jornal, a revista, evitar o canal.
E não adianta querer demovê-lo desse estado hipnótico. Vai morrer amando, vai exigir a bandeira sobre o caixão, o hino do clube tocado no enterro. Com sorte, não deixará uma parte do espólio para ajudar a esquadra. Trocam os jogadores, os técnicos, toda direção, e ainda o amor é sublime. Porque é o seu amor, não é de ninguém, depende de alguém, o seu clube, mas ainda será sempre só seu.
O RETORNO DO CENTROAVANTE
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Depois de dez partidas sem fazer gol, centroavante é enforcado pela torcida. Desenho de Goya.
Confira a lista dos goleadores do Brasileirão: Val Baiano (Barueri), Marcelinho Paraíba (Coritiba), Jonas (Grêmio) e Roger (Vitória), seguidos de Adriano (Flamengo), Alecsandro (Internacional) e Gilmar (Náutico).
Há algum craque? Não, alguém pode objetar e avisar que Adriano é um atleta de exceção, mas o comentário virá mais de um flamenguista do que um analista.
O que une os artilheiros do Brasileirão é uma só característica: são goleadores, o que não significa que são bons jogadores. Não se pode dizer que esbanjam habilidade, e sim que definem. Altamente funcionais. Passam uma partida inteira sem fazer nada até que - pelo posicionamento destacado e oportunismo - resolvem a parada com um ou dois lances. Não querem gol bonito, mas gol: de panturrilha, de canela, de trombada. A maioria é feita de susto mesmo. Roubam a bola, e aproveitam a falha adversária mais do que elaboram uma jogada em câmera lenta. São preparados para o desarme fatal, não para a armação plástica ou o desenho sinuoso.
Muitas vezes nem jogam bem uma partida. Natural que tenham uma atuação apagada ao mesmo tempo em que são os responsáveis pela vitória. Não duvidamos que acumulem o título de herói e pior num jogo. Amados e odiados em tremenda oscilação. Com jejum, não tem sentido e arcam o índice de rejeição de um técnico.
O futebol brasileiro está assistindo ao retorno do centroavante monotemático, monoglota, que conhece unicamente o idioma das redes e mal conversa com os demais fundamentos. Não bate falta, muito menos escanteio, somente executa pênaltis para ampliar sua contagem. Diferente do atacante completo, como Ronaldo, Nilmar e Luís Fabiano, líricos, que desembaraçam com dribles nocivos e se esmeram em cada bicada da chuteira. Esses são meias avançados. Ou Maradonas mansos.
Volta para a berlinda o centroavante durão, osso duro de roer, tipo Serginho Chulapa. O que briga com a bola até que ela ceda seus encantos. Aliás, Serginho era o único humano de uma constelação de gênios na seleção de 1982.

Nunes domando Leão e mostrando que a juba maior é a dele.
O centroavante arrisca a prosa e olhe lá. Na verdade, dita a carta, preguiçoso para escrever. Destaca-se pela dedicação na pequena área. É quase como um gandula dentro do campo. Um gandula fardado. Lança a bola para o interior do ferrolho e volta à posição original. Não vai barbarizar como Diego Souza (Palmeiras), outro atacante. É objetivo, panorâmico e direto. Não canta a bola, não decanta, arrasta a pelota para a cama da goleira. Puxando os cabelos do couro.
Um grande time depende de um brucutu penteado. Um brucutu finalizador. Nunes do Flamengo era assim, em meio a virtuoses como Zico, Júnior, Adílio. Casagrande era assim, em meio a doutores como Sócrates.
Alecsandro do Inter tem dez gols no Brasileirão e não vai virar boneco como Guiñazu. Sua missão é botar para dentro. Desafogar. Incendiar a arquibancada. É retílineo, previsível. Se atravessa uma partida em branco será questionado. Não há quase-gol como permitido a um armador, elogiado inclusive pela conclusão cinematográfica.
Com ele, é gol ou reserva. Ao errar, neca de aplausos, cobrado com rigor pela chance desperdiçada.
"Até eu fazia" é que o torcedor não cansa de repetir ao centroavante. Com a intensidade de um "filho da p..." ao juiz.
Interessante concluir que ele não recebe indulgência nenhuma. Bola fora é como gol sofrido de um goleiro.
Sua fama é provisória, momentânea. Depois de uma década, constará nas capas das revistas dos sebos. Centroavante não se aposenta, é enterrado vivo.
Jonas do Grêmio, então, com 11 gols, nem é titular incontestável. Demonstra ser um desengonçado artilheiro. Contra o Botafogo, conseguiu atirar duas vezes a bola na trave antes de gritar com a torcida. Insistente acima de tudo. Tinhoso, perdigueiro. Chega a dar pena, quase entramos para ajudá-lo. Não será admirado pelo dom, mas pelo esforço. Diante de tamanha dificuldade, fica-se despossuído de graça para comemorar. Sujeito que fala com dificuldade para a direita ou para a esquerda. Algo como um gago das duas pernas.
Centroavante bom mesmo é galã de indivisível papel vida afora, como Tarcísio Meira e Francisco Cuoco.


Tarcísio Meira e Casagrande: um único papel pela vida inteira.
Testemunhamos com Jeová a estranha ressurreição do centroavante. Que surgiu numa antiguidade de pontas, um pela esquerda, mais valorizado, e outro pela direita, não menos cobiçado. Sim, caro jovem leitor, existiam mesmo, não é uma lenda. Uma época de territorialistas, o gramado recortado, retalhado como um boi, cada qual tratava de morder melhor seu pedaço. O ponta resplandecia no triângulo imaginário que tem seu vértice no escanteio, por ali trabalhava, ciscava, entortava os zagueiros e laterais, e cruzava em direção ao gol, de preferência de trás, quase linha de fundo, para o companheiro encarar de frente e esmagar os zagueiros. O ponta era ponta, não visitava novas cidades, qualquer um saberia o que esperar dele. Residente, pagava o IPTU em dia, não viajava, nunca agia como turista.
Os pontas rarearam - um observador atento pode descobrir a idade de um colorado pela intensidade do suspiro quando lembra de Valdomiro - mas os centroavantes subverteram a nova ordem. E não aceitaram a modernidade dos esquemas táticos. Essa confusão dinâmica, pandemônio de treinos fechados, onde todos jogam em qualquer lugar, salvo uns mais para frente outros mais para trás, e que contagiou certos goleiros, que gostam de sair até o meio de campo para desespero de suas torcidas e só param depois de tomar uma humilhante cobertura.

Alecsandro, do Inter: matador e gandula fardado que busca a bola na rede.
O centroavante se rebelou. Conservador, barbeia-se ainda com lâmina. Tradicional, não pisa em salão de beleza, freqüenta barbeiro. Não procura mercado, compra num armazém de secos e molhados.
Quer feijão, arroz, ovo e um pão para quebrar a gema. Adepto do prato-feito e da comida com toalhas de plástico.
Temos um dinossauro rebelde na escalação. O centroavante clássico, de função, com uma cova debaixo dos pés firmando seu lugar ao sol. Simples e comunicativo. Nem sempre tem estilo, parece que lhe falta algo. Toscos no trato com a esfera, os chutes saem tortos. A emoção do gol é que embeleza e compensa a aspereza original do disparo. O centroavante joga mal. Ele não vai a campo para jogar bem, ele vai para marcar gol.
Conhece sua natureza sádica e contorna sua limitação masoquista. Mais que uma posição, é sina.
DOR DE COTOVELO DE FERNANDÃO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A mão de Maradona é de Deus, mas seus pés são do demônio.
O cotovelo de Fernandão é do Inter. Continua sendo.
O cotovelo o traiu em sua estreia no Goiás, contra seu time de coração, que o consagrou como capitão do Mundial e da Libertadores.
Fernandão não suportou jogar contra a enxurrada vermelha de trinta mil torcedores. É a única explicação.
Restou uma confusão amorosa, um desentendimento entre ele e o diretor Fernando Carvalho, que não teria feito uma proposta e o deixou livre para voltar à Goiânia.
O ídolo não tocou na bola, sequer matou saudade da grama do Beira-Rio, sequer se envergonhou de seus toques rápidos.
Foi expulso aos dez minutos de jogo por um cotovelaço em Magrão. Um cotovelaço inexplicável em seu antigo colega. Uma desonra para quem sempre demonstrou disposição e nunca violência. Podia sair do jogo brigando com o juiz, não com um antigo companheiro, numa entrada desleal e peçonhenta. Não combina com seu perfil aglutinador e diplomático.
Fernandão explodiu, com um homem explode quando se vê traído por uma mulher. Como explode ao ser despedido de casa.
Devia ouvir Elis Regina em seu headphone cardíaco enquanto a torcida cantava paródia de Mamonas Assassinas:
"Beber pra esquecer é teimosia
Hoje muito whisky, muita alegria,
Amanhã ressaca, saco de gelo
O bar não é doutor que cure a dor de cotovelo
A dor pra curar não tem receita
É corcunda que se deita
Sem achar a posição
E sentir saudade não faz mal
Não é no fundo do copo
Que você vai encontrar sua moral
Beber pra esquecer..."
Uma passionalidade que a tiara não conseguiu segurar. Ao subir para cabecear, desceu o braço. O cotovelo. Seu calcanhar de aquiles é o cotovelo.
Seu cotovelaço mostrou sua dor de cotovelo. Escancarou uma dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues. Soltou os cabelos como um chicote. Uma dor de cotovelo que o lembrou outra dor, a de corno. A infidelidade do Inter teve seu troco involuntário, desembaraçou sua raiva no ar.
Não percebeu que prejudicou seriamente o Goiás, goleado implacavelmente por 4 a 0. Inter assume a terceira colocação e encosta na liderança com um jogo a menos (37 pontos, quatro a menos do que o Palmeiras). Só um clube jogou em campo. Só o Inter. Se Bolaños fosse Alecsandro (machucado) teria sido sete ou oito tranquilamente.
Fernandão não falou com os jornalistas, não tinha voz para justificar sua ira.
Saiu calado para embaçar a televisão e testemunhar Guiñazu matando Harlei e dizendo simbolicamente que o capitão agora era ele. Para acompanhar o meteoro Marquinhos, garoto que assumiu a condição provisória de titular e desencantou, confundiu os olheiros espanhóis, ingleses e italianos sempre camuflados nos camarotes, embaralhou inclusive o Google: Quem é ele? Quem é ele? Fez um golaço com requinte de crueldade, alçando com carinho a bola sobre o goleiro após destroncar zagueiro, tabelou com Guiñazu no segundo gol, iniciou a jogada do terceiro.
Fernandão não conseguiu desligar o massacre. Babou Giuliano, o regente. Além do oportunismo do terceiro gol, movimentou-se entre a zaga e o ataque com ambição e regeu os contra-ataques com sua batuta destra.
E era uma noite de gala para Magrão, Kléber, Fabiano Eller, Índio.... Todos atuando de fraque, num baile de debutantes. O olé substituído ao final pelo "Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky.
Tãn Tãn Tãn Tãn Tãn
Menos para Fernandão. Além de ser traído, acompanhou seu clube jogando muito melhor sem ele.
O AMOR DESDE O INÍCIO
Mário Corso

Prepare-se, nesta sexta (21/8) acontecerá a estréia do filme: Nada vai nos separar – Os cem anos do S. C. Internacional. Tive a sorte e o prazer de ver na pré-estréia (mais sorte ainda de sentar atrás do Valdomiro).
Fui bem recomendado para carregar lenços e me prevenir das lágrimas. Nem foi necessário, eu me seguro (mas se você é do tipo que chora em casamentos, filme de animais e propaganda de margarina leve uma toalha de banho), porém meu coração parecia num eletrocardiograma de esforço. Colorados cardíacos devem evitar o filme.
Basicamente temos a história sucinta do time na boca de historiadores e depois de torcedores e jogadores que marcaram época. Entremeado, é claro, com os gols e momentos decisivos. Simples, mas a genialidade foi em como juntar tudo isso. A quantidade de informação é extraordinária, é um primor de montagem. São inúmeros planos e o espectador não se perde, o filme vai deixando esperas para reatá-as logo em seguida. O acerto está no equilíbrio, na concepção de clube, ou seja, na interação do clube e do time com a sua torcida. É a história de uma paixão centenária, o resto é decorrência.
Você já tentou escutar um desses discos que são um apanhado dos clássicos mais famosos, uma espécie de pizza 24 sabores de música só com o recorte dos allegros de cada peça. É um saco! A música sem os andantes e os adágios não funciona. O Fischer, o roteirista, sabe que nada seria mais enjoado e raso do que uma coleção ufanista de gols, por isso as conquistas e os gols estão no contexto do momento. Eles não nos pouparam dos momentos duros do time, da década perdida (anos 90), das grandes derrotas, mas só nos recordam para preparar o clima, para revivermos os últimos títulos praticamente com a emoção engasgada que estávamos naquele momento.
Mas a comparação do filme com uma sinfonia não é por acaso, as músicas escolhidas, o hino tocado em vários arranjos, de diversas formas, ajuda na construção do clima. Dois dias depois e a trilha sonora não me sai da cabeça.
Vá com a bandeira, a emoção é de fim de campeonato.
Nada Vai nos Separar, Brasil, 2009
Gênero: Documentário
Duração: 116 min.
Tipo: Longa-metragem / Colorido
Produtora: G7 Cinema
Diretor: Saturnino Rocha
Roteirista: Luís Augusto Fischer
DESESTRESSOU
Fabrício Carpinejar

O time do Santo André é tão ruim quanto o gramado do estádio Bruno José Daniel. Um estádio sem apelido já não promete muito. É a última letra do ABC paulista. É o olho do C.
Inter enfileirou três vitórias consecutivas neste sábado (15/8). Alcançou 33 pontos e tem dois jogos a menos. O que deve assustar os palmeirenses que empataram no Parque Antártica com o Botafogo e estacionaram nos 37.
Parece que a equipe se recuperou do estrelismo que estava ameaçando seu aproveitamento. Sim, o Inter não consegue suportar o favoritismo. Agora que ficou um pouco esquecido, já se sente mais à vontade para galgar posições. O Inter obscuro é mais perigoso. O inter mediano é mais ofensivo. O Inter vai aprendendo a garra de Segunda Divisão na primeira. Antes queria jogar vistoso e vencer e acabava perdendo bonito. Aliás, o Inter dificilmente perde feio. Perde bonito, de virada, nos últimos instantes, o que irrita grosseiramente seus torcedores.
Por não contar mais com Nilmar (no Villareall) e D' Alessandro (suspenso cinco rodadas), ao vender Álvaro, zagueiro insatisfeito com a reserva e que liderava um motim psicológico no vestiário, o Inter recuperou a humildade. A coesão. Não há nenhuma estrela que tenha que receber serviço na pequena área e um jogo de toalhas felpudas. Muda tudo, cada integrante passa a ser importante. O crescimento é coletivo, finalmente. Até Danilo Silva está jogando. Sandro vive sua confirmação e chuta com coragem. Sorondo esqueceu suas dores no quadril e age como uma toupeira cavando a bola e dando cabeçadas. Taison reencontrou o lado de dentro do pé. Alecsandro é o artilheiro do plantel no campeonato.
Tite teve sorte: a direção remontou o grupo que ainda deverá receber os reforços de Cléber Santana e Fabiano Eller. A zaga não furou em duas partidas, o que é um alívio e corrige o grave problema do 1º turno.
Sem a pressão dos altos salários, o técnico pode deixar espaço para quem vive seu grande momento como Andrezinho, que foi um suplente de luxo nos últimos meses. O jogador precisa aproveitar a enxurrada de sorte. Como tesão, excitação. É agora ou nunca. Não existe jeito de resgatar a iluminação.
Colocar um atleta na reserva quando está bem melhor do que o titular é subestimar o prazer. É confundir masturbação com orgasmo. Na masturbação, a gente sufoca, geme baixinho. O orgasmo é público, gritamos para acordar os vizinhos.
O Inter voltou a trepar.
AS MÃOS E OS PÉS
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Arte de Leonardo da Vinci
Sempre que um goleiro comete uma falha é capaz de defender um pênalti na mesma partida. Não entendemos a lógica, é o que costuma acontecer. Basta recordar de Marcos no clássico Palmeiras e Atlético no Mineirão na última quarta (12/8), que garantiu o empate de um a um e embaralhou os líderes na virada do primeiro turno do Brasileirão.
Talvez seja a lei da compensação, talvez o goleiro seja o Cristo do futebol. Precisa morrer e voltar à vida para ser valorizado. E a maioria das torcidas pratica o ateísmo e não acredita nele. Fé no futebol é confiar no goleiro. O resto é realismo.
O torcedor jura que toda bola é fácil para o goleiro. Toda bola é simples. Toda bola é acessível. Goleiro tem que fazer milagre para chamar atenção. Se largar, é inseguro. Se tapear, é imaturo. Se errar o tempo da saída, é preguiçoso.
Para ganhar a credibilidade de um atacante, deve defender de costas, mudar o rumo do corpo, subir três andares.
No fundo, o goleiro é tratado como um privilegiado. Um favorecido. Um filhinho de papai. Questionado eternamente pelo uso das mãos. Como se estivesse roubando. Tanto que é obrigado a ficar debaixo das traves nos noventa minutos. A goleira é uma cela especial.
No imaginário popular, o goleiro representa uma infração legal. Nunca se teve a certeza se ele é considerado um jogador ou o melhor amigo dos jogadores. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.
Não foi perdoado pela diferença. Muito menos por depender das luvas. É o único jogador que tem escudos no gramado. Os demais atletas estão desarmados.
Por que a intolerância?
O futebol é o reverso do mundo produtivo, o ócio alegre, a diversão intuitiva. No dia-a-dia quem governa são as mãos, símbolo do trabalho. Não dizemos: mão-de-obra, dar uma mãozinha, botar a mão na graxa? A mão é a nobreza, é ela que escreve, que opera máquinas, que aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes. Os pés estão a serviço das mãos.
Ora, no mundo do avesso, da brincadeira, são os pés se revoltaram contra suas limitações e comandam o espetáculo: dançam e jogam bola. No campo de futebol a mão não vale, não entra em campo. Pudessem tirá-la os jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia na corrida, mais nada. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante das cobranças (você já ouviu falar num grande cobrador de lateral?).
No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento, podem mostrar sua força e sua perícia, sua pontaria e destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés partilha treinos secretos. Mão é cultura, pé é natureza. Podemos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia.

O pé como parte mais baixa do corpo, mais ligada ao chão, mais bruta recebe seus encantos pela sua condição animal, pela sua força indomável. O pé é fetiche para as mulheres, vejam quantos sapatos elas possuem. Mas o pé feminino é um pé passivo, para ser visto e admirado. Os pés para os homens são ativos, não são para olhar, ninho de unhas encravadas e penugem primata; são para chutar, para correr, para driblar, para cavar o ar quando o natural é levantar a terra.
Os pés do futebol realizam o impossível, desenham o vento, pintam o invisível, criam janelas, balõezinhos, meia-lua, corta-luz. Uma gramática da fugacidade.
As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, contratuais, selam pactos e acordos, casamentos e bruxarias. São elas que deslizam pelo corpo da amada e acenam nas despedidas. Os pés querem sua parte, sua inteligência motora. Ganharam os gramados de domingo para integrar o corpo.
O futebol é a alma que inventamos enquanto a eternidade não chega.
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