MESSI E NEYMAR REEDITAM DUETO DE MARADONA E ZICO
Fabrício Carpinejar

Neymar liquidou o colorado no clássico dos campeões das últimas Libertadores: 3 a 1. Além de converter o pênalti, deu duas arrancadas velozes, de lebre, ziguezagueando, limpando quatro jogadores em seu encalço e arrematando sem nenhuma misericórdia. O zagueiro Rodrigo Moledo foi humilhado em ambas as situações.
Dois gols de placa, com o recheio plástico da finalização, sempre à queima-roupa, por cima. Assim o Inter manteve a sina de nunca ganhar na Vila Belmiro. Castigo para Dorival Júnior, que adotou esquema retranqueiro, de contenção, com três volantes, deixando Dagoberto e Tinga no banco.
Mas o que me impressiona é a alta performance de Neymar. Percorreu o gramado em skate enquanto os demais caminhavam. Seu topete deve ter um desenho propositalmente aerodinâmico, contribuindo com suas ultrapassagens espantosas.
Neymar é uma guilhotina de vento, lâmina afiada aos 20 anos.
Ele e Messi foram exuberantes nesta quarta (7/3). Um luxo para os colecionadores de imagens.
Messi fez cinco gols numa goleada histórica nas quartas de final da Champions League. Barcelona massacrou Bayer Leverkusen por 7 a 1.
O que comprova que Messi não joga, levita. Aquela cavadinha sobre o goleiro é sua assinatura, como a bola no acento do autógrafo do Pelé. É um capricho aéreo, um colchete.
Toca com despretensão, quase olhando para o lado oposto. Seu chute é um piscar de olho.
Finalizou duas vezes por cobertura, como uma tranquilidade de pescado. Encobre o goleiro como quem abre um guarda-chuva, como se fosse fácil e repetitivo. O arqueiro da equipe alemã, por mais que fechasse o ângulo, não tapava a grande angular da chuteira do argentino. O jovem de 24 anos está alcançando, no meio de sua carreira (recém atingiu a metade), o maior goleador da história do Barcelona, César, que tem 235 tentos, apenas sete a mais.
Neymar e Messi fornecem ao espectador contemporâneo à possibilidade de acompanhar, ao mesmo tempo, um par de craques fora de série. Assim como já aconteceu com Zico no Flamengo e Maradona no Boca Juniores no início da década de 80.
Duelos milagrosos em extremos geográficos, um na Europa e outro na América do Sul.
Duetos de suspender a credulidade, eliminar rivalidades, justificar derrotas.
São semideuses entregando suas benções. Pequenos e irremediáveis semideuses.
Extrapolam a esfera humana do julgamento.
É possível torcer contra o Santos, mas não dá para torcer contra Neymar.
É possível torcer contra o Barcelona, mas não dá para torcer contra Messi.
A beleza paralisa a oposição. Todos os torcedores do mundo se transformam em testemunhas do impossível e súditos da beleza.
OS CARECAS DO FUTEBOL
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Robben: contrariando expectativas
Ser careca é um destino, não uma moda. Não há como imitar um careca verdadeiro. A calvície é um pedido dos hormônios, um mandado do corpo.
Há mais raspados do que carecas. Carecas mesmo são os loucos do futebol, de natureza imprevisível e original.
Os samurais. Exibem um conhecimento muito superior a sua idade.
São os sábios da bola. Jedis das chuteiras.
O careca é sempre uma promessa de reencarnação, suspeita de Dalai Lama.
É observar um deles em campo que confundiremos com um sênior, um auxiliar técnico.
Ele engana com sua aparência. Sua aparência já é um drible.
Opera em um nível mental acima da média cartesiana.
O careca é um falso fim. Uma morte fingida.
O careca é o Lázaro dos esquemas táticos.
Os técnicos experientes presentem na foto o sabor do time. O careca fornece o sal e a pimenta.
É um pacto demoníaco, a natureza tira e os deuses restabelecem, reequilibram. As mechas representam a oferenda ao dom. São faustos contrariados, mas nem por isso menos cultos. A perda precoce lhes abre o terceiro olho védico. O careca participa dos segredos do velho da montanha.
Falamos, por exemplo, de Robben, o atacante que levou a Holanda a final da Copa do Mundo, o oposto do tipo histórico e cabeludo holandês (Cruyff e Gulit).
Robben aprontou duas pinturas em amistoso contra a Inglaterra no estádio Wembley (29/2).
O olhar do armador da laranja mecânica é arrasado, melancólico. Uma mulher distraída é capaz de elogiar sua forma física dizendo que ele é conservado (conservado é o mesmo que ser um idoso entre os adolescentes). Tem rugas na testa de alguém que superou quatro décadas.
Mas ele é jovem, completou apenas 28 anos.
Do mesmo jeito que gera miragem etária, não confie em sua natureza cerebral, compassiva, calma, estratégica.
A falta de apetite é ilusória. De repente, corre como um possuído, um exorcista.
O careca é um passional em segredo. Fleumático na conduta, sanguíneo na essência. Uma bebedeira instantânea. Seu protetor é Baco.
No confronto com English Team, Robben furtou a bola na entrada da própria área, cruzou o gramado, superando a marcação na velocidade. Da meia-lua, chutou e abriu o placar.
Foi um surto. Um surto sublime.
A partida recomeça e ele volta ao casulo da cadência, à discrição do conjunto. Não se difere de nenhum dos seus comparsas. Até que surge novamente a responsabilidade de decidir. Numa sobra da zaga, coloca a bola com curva no alto da goleira do arqueiro Hart, garantindo a vitória de 3 a 2.
O calvo é a falha meteorológica do jogo, a tempestade de inopino, os relâmpagos.
Não existe como se prevenir de suas atitudes disparatas, porque lembram velhos, lembram asilos, lembram cansaço.
Na verdade, andam em círculos aguardando o bote. Giram, passam, recuam. Lobos famintos emparedando as presas ao longo de noventa minutos. Acumulam motivos, armazenam privações, escarram ressentimentos.

Lato: velocista da loucura
Recordamos de Lato, o maior atacante da história da Polônia, artilheiro da Copa de 74, campeão olímpico de 72.
Trata-se de um careca soberbo.
Era um violino na maior parte da partida. Numa fração, virava Jimi Hendrix, uma guitarra. Corria 100 metros em 10 segundos e 8 milésimos.
Seu rosto arredondado e de leve penugem transpirava racionalismo. Por dentro, ao contrário, irradiava lavas e fúria.
Na definição do terceiro lugar da Copa de 74, Lato despertou inveja nos campeonatos de rugby. Deixou no chão o time inteiro brasileiro com sua arrancada para finalizar no canto do goleiro Leão.

Tostão: jogo subterrâneo
Outros maestros carecas com dupla personalidade são Tostão e Zidane.
Tostão desfrutava de andar arredio de defensor, porém goleava profissionalmente. Parecia que atuava em dois gramados. Um aberto ao resto dos mortais, visível, e um segundo, subterrâneo, que somente acontecia em sua cabeça. Arremessava quando ninguém esperava. Fez os gols mais sem ângulo e fulminantes que o Cruzeiro viu na vida. Inteligente, criava elos perdidos, brechas temporais, triângulo das bermudas para passar no meio das retrancas. Sua geração acabou premiada, Gérson cumpria sua escolta, mais um que funcionava numa temporalidade própria, num giro só seu. Gérson era canhoto, mas todo careca é, a sua forma, um canhoto, escolhe o lado oposto, o canto inesperado, o recorte penetra. Inaugura espaços improváveis.
Já Zidane - e seu ninho ralo de refugiado de guerra - pertencia ao elenco mágico das adivinhações súbitas. Num momento, um aposentado. No seguinte, um aloprado.
Levou a seleção da França ao título mundial e da Eurocopa.
O meia limpava a zaga somente quando necessário, quando desaforado, quando enfurecido.
Daí humilhava, daí o sangue fervia, daí sobrevoava as jardas adversárias com suas passadas longas.
Zizou trabalhava para Deus e Diabo ao mesmo tempo, e não desagradou nenhum dos dois senhores.
Os carecas contrariam os condicionamentos. Coringas, duplos. Toda revolução depende deles. Toda queda de governo.
Formam os templários do futebol. Com técnica, zelam pelo santo graal da fúria.
POR QUE ODIAMOS ALECSANDRO?
Fabrício Carpinejar

O centroavante do Vasco, Alecsandro, é o artilheiro do Campeonato Carioca, com sete gols. Tem uma média superior a um gol por partida em 2012.
Era para ser ídolo natural, mas não convence o torcedor por inteiro. Fica uma dúvida de sua natureza letal, uma desconfiança de seu dom. Está longe do estatuto de craque, da placa de bronze.
Mesmo que tenha feito dois gols contra o Fluminense, mesmo que tenha um aproveitamento comparável à passagem cruz-maltina de Romário, mesmo que dance Michel Teló na comemoração, nunca atingirá a popularidade de um Dedé, de um Juninho Pernambucano, de seus companheiros de pandeiro e de pelada.
No Internacional, tornou-se um dos maiores artilheiros da história do clube. Merecia a confiança por sua freqüência nas redes.
Não aconteceu, pelo contrário, foi hostilizado por deixar Leandro Damião na reserva. Mais de uma vez vaiado. Mais de uma vez conclamado para ser substituído.
Ele deveria constar na galeria de heróis matadores colorados ao lado de Nilson, Geraldão, Christian. Disputou 116 jogos e marcou 54 gols. Um gol a cada duas rodadas.
No entanto, Alecsandro é boicotado nitidamente. É competente, cumpridor de posicionamento e oportunista na pequena área, mas não tem carisma.
E centroavante pode abdicar de qualquer característica, menos do carisma. Pode deixar de cabecear, de chutar de longe, porém nunca esquecer a proximidade física com o humor. É um item indispensável do caráter do atacante, já que ele é o porta-voz da massa fanática no time, quase um infiltrado da arquibancada em campo.
É o carisma que mantém sua escalação ainda que esteja atravessando jejum, abstinência, fase azarada.
Mocinho ou bandido, tanto faz. Há o carisma dos malvados (Edmundo, Kléber, Viola, Serginho Chulapa) e o carisma dos bondosos (Nilmar, Kaká, Bebeto). Os vilões traduzem o aspecto negro do torcedor, a truculência de nação, a rixa de tribos, a malandragem contra o juiz. Aplaudido por bater no adversário, pelas entradas duras e perigosas, pelas jogadas individuais. O bondoso tem aquele charme de preferido da sogra, de suar para conquistar a estabilidade, expõe a perspectiva disciplinada e trabalhadora do torcedor. Ovacionado pela aplicação ao esquema tático, pela doação aos lances coletivos. Ambos se credenciam à posteridade. Traduzem facilmente sinais de garra e lealdade.
Alecsandro não tem nenhum dos dois lados, é neutro como um massagista, é imparcial como um preparador físico. Incapaz até de produzir catimba, de prender tempo.
É o avesso da imagem. Apesar do alto desempenho, tem um único problema: é tímido. Não fala; resmunga. Arredio como uma toupeira.
Parece que é burocrático e desmotivado, pois não conta vantagem. São fachadas de sua calmaria.
A grande verdade do futebol é que o atacante não tem direito a ser tímido. Terminará rejeitado na primeira crise.
Porque predomina o hábito de confundir recolhimento com arrogância.
O retraído não gosta de falar, não gosta de se expor, não gosta de provocar e comentar desempenhos. E não realiza publicidade de seus atos, campanha de recordes, como um Dadá, um Túlio Maravilha.
É a única função que exige oratória, megalomania, que o sujeito seja exibido. Nas apostilas de goleador, o desembaraço é a regra, rifado em letras garrafais.
O zagueiro, por exemplo, pode ser uma rocha de mudez. Ninguém irá questionar. O volante pode ser uma estátua. Ninguém irá estranhar. O lateral pode ser um antipático. Ninguém irá notar.
Todo centroavante calado nunca será perdoado. Todo centroavante casmurro não tem escapatória.
Menos dia, mais dia, caminhará para o pelotão de fuzilamento. Sua glória é sempre efêmera.
Alecsandro é um injustiçado.
FACA NA CHUTEIRA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Desde Hugo de Léon, barbudo inacreditável, zagueiro no melhor estilo anjo exterminador, o Grêmio fracassou em integrar argentinos e uruguaios em seu time.
Há quase trinta anos, tenta transfusão e não obtém tipo sanguíneo compatível.
Experimentou Loco Abreu (URU), Saja (ARG), Schiavi (ARG), Herrera (URU), Máxi Lopes (ARG), Escudero (ARG), Miralles (ARG), nenhum desponta, mostra personalidade, obtém desempenho persuasivo.
A lacuna explica a ausência de títulos continentais pelo tricolor.
A química não desenrola. O time mais raçudo do Rio Grande do Sul extraviou seu sotaque castelhano, o chute para as arquibancadas, atuar pelo resultado. Colocou fora uma tradição que nasceu de lendas como o arqueiro Corbo e o defensor Ancheta.

Nossa tese é que o Grêmio se distanciou do estilo guerreiro e belicoso do futebol da América, afastou-se do embate duro, do duelos estratégicos, do bote do mata-mata. Ele se abrasileirou nos últimos anos. Esqueceu o tango e começou a escutar pagode. Despediu-se daquela frieza cheia de passionalidades, das viradas antológicas e dos escores impossíveis.
Ressente-se de um herói hermano. De Léon, o capitão do Mundial de 1983, foi substituído pela dupla defensiva Arce e Rivarola, da Seleção do Paraguai, responsável pela Libertadores de 1995. Foi o que mais próximo a Azenha alcançou de uma formação latino-americana (Dinho completava a muralha).
Depois se acostumou a um ritmo lento e bovino, arrastado, de muita posse de bola e pouca verticalidade, esquema em que Douglas era o personagem emblemático (finalmente devolvido ao Corinthians, enquadrado na célebre equação jogador certo no lugar errado).
O oposto do que vem vivendo o Inter, que participa de sua terceira Libertadores consecutiva, arrebata um caneco internacional por ano e hoje é o representante nacional com melhor desempenho no mundo. O Inter assumiu que é a Embaixada da Argentina no Brasil: deveria colocar até a bandeira na entrada do Beira-Rio. Três gringos são titulares: Bolatti, Guiñazu e D`Alessandro. Dorival Júnior ainda dispõe no banco do talentoso Jesus Dátolo. Quer mais?
E sempre foi assim, num trabalho lento e gradual de encorpar a ideia de selecionado ao grupo. O Inter desfrutou de grandes craques no passado, que modificaram o DNA de seu futebol, de um modelo alegre e malandro para um outro aguerrido e vingativo (chileno Figueroa, paraguaios Benitez, Gato Fernandez e Gamarra, uruguaio Rubén Paz, argentino Goycochea, colombiano Rentería...)
O colorado ultrapassa a cota se for preciso, depende essencialmente dessa valentia suicida no campo e do idioma espanhol brigão no vestiário (a Argentina é detentora do recorde de Libertadores, com vinte e dois troféus contra 15 conquistas dos brasileiros).
O esforço em manter o maestro D`Ale na temporada, suplantando oferta milionária da China, sustenta a filosofia de trabalho da direção, de alternar talentos de diferentes nacionalidades. É o ponto básico para afastar nervosismo e vencer altitudes. Nem sempre acerta: o badalado Cavenaghi passeou como um fantasma em Porto Alegre, raramente aproveitado por Falcão e Celso Roth. Apesar dos erros, segue o ideal de nunca reduzir a procura por reforços nos países vizinhos.
O tempero argentino muda o gosto do churrasco. Tomar gol já não é da partida, é desaforo. Levar um gol é apanhar na cara, só resta devolver em seguida. Tomar gol energiza e não abate, incita ao duelo, fermenta a febre. Mas foi preciso sacrificar a bossa nova, a cordialidade, o cumpadrismo. O Internacional voltou ao tratado de Tordesilhas, deseja a nacionalidade platense.
A torcida entendeu e veio junto, a prova é a paixão incondicional a D`Alessandro. O argentino é amado por ser encrenqueiro, teimoso, ladino beirando o trapaceiro. Joga muito e quando não consegue blefa. No campo reclama de tudo. Reclama para descansar as pernas. Não é e nunca quis ser bom moço. Não se esconde, não desiste e sempre chama a responsabilidade para si. Cresce sempre que a honra está em jogo, é craque de Gre-Nal, nasceu atalhado ao faroeste, com pulmão ajeitado a cuspir fúria.
Para encontrar o caminho da América, aconselhável ter guias no plantel.
LEALDADE
Fabrício Carpinejar
Falar nome feio e jogar bonito são as duas maiores vaidades do futebol.
A primeira é prática do torcedor, para se adonar do time e do momento. Necessita se exibir atento e cúmplice: vaiar o bandeirinha, cumprimentar a mãe do juiz, exorcizar os demônios da língua.
A segunda é do habilidoso, daquele que nasceu para provocar exclamação entre os colegas e interrogação entre os adversários. Ainda mais se é zagueiro.
Nada mais perfeito: ser treinado para ferir e dançar.
Nada mais vaidoso do que um zagueiro que não bate. De que não depende coisíssima nenhuma da violência.
Que não teme atacantes, que não se assusta com pressão e ausência de espaço.
O defensor que dribla e costura, estilista!, e não apenas afasta o perigo.
Que finta e abre o jogo, que sai com a bola dominada, que escolhe o passe, que protesta contra a truculência, Mahatma Gandhi da zona de agrião, capaz de jejuar pontapés e botinadas.
O virtuoso, silencioso de propósito para afanar o lance.
O motivado, que transforma tango em samba.
O gentil, cabeceando com o cuidado de um chapeleiro.
O leal. Expoente da única lealdade que existe: a lealdade com a bola.
Não isola a bola, não se livra da bola, não prende a bola, faz mais: seqüestra a bola, gosta de estar junto, de levá-la a passear.
Apanha a bola logo cedo. A área é sua estufa, na verdade cultiva a bola como uma orquídea. A zaga floresce em seu domínio.
Nunca está atrasado no ofício, melhor colocado do que o centroavante. Determina o ritmo em vez de remediar o erro. Salta disputando corrida com a brisa.
Tigre. Guepardo. Não perde tempo, cria o tempo, sempre à espreita.
Quem se antecipa não entra em desespero.
É Domingos da Guia, é Nilton Santos, é Luisinho, é Gamarra.
Cavaleiros, cavalaria almada; enxergam o restante do time do lombo de um cavalo, altos pelo dobro de impulso.
Não renunciam à educação. Às regras. Mantém o caráter na mais perversa adversidade. Não estarão fingindo pênalti, caindo por qualquer coisa, agredindo secretamente, jurando falso, adorando cera, bancando a vítima.
Convidam ao duelo. Não impõem nada.
Brigam com justiça, as armas à mostra, a exemplo de um faroeste.
(Até o pistoleiro tem ética)
Guerreiam dentro de um acordo claro, na claridade do rosto.
(Todo rei deveria ter sido guerreiro antes)
Não criam inimigos, desafiam.
Não traem a palavra, não se atrevem a apunhalar pelas costas, acotovelar oponentes em voo.
Exatos, não exagerados. Firmes, não apelativos.
Não arrombam correspondência. Retiram o selo das cartas com o vapor das chuteiras. Enviam telegrama aos laterais, ditam testamento aos armadores. São cúmplices do goleiro. E muito mais do que o arqueiro ao defender somente com os pés.
Leais. Honrados: respeitando a si mesmo para respeitar o outro.
Atacante bom é craque. Zagueiro bom é santo.
QUINTO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
AMOR À CAMISETA
Fabrício Carpinejar
Mais fácil trocar de sexo do que time.
Futebol é RG, CPF, certidão de nascimento, partido político.
Num tempo sem identidade, é o supremo vínculo. O elo com os outros. O que não migra com os dias. É se profissionalizar na esperança, é se aposentar na esperança.
Torcer por um time é a monogamia que funcionou, é o casamento que deu certo, é até que a morte nos separe, é permanecer junto na saúde e na doença, na Primeira ou na Segunda Divisão, é chorar derrotas acachapantes, é uivar em vitórias apertadas e gargalhar em goleadas improváveis.
Torcer é nascimento e velório juntos, todos os sacramentos reunidos na expectativa de alterar a vida com uma partida, alterar a vida de uma partida.
Torcer é tabelar com o batimento cardíaco. É atingir o extremo de si e não se cansar, é se confessar e roer as unhas, é se humilhar diante de um estádio cheio, é chutar o vento para acompanhar a cobrança de falta.
Faz ateu rezar, faz criminoso pedir perdão, faz família voltar a se ver, faz homem sério enlouquecer, faz marido roubar domingo da própria esposa.
Não importa se o time veio pelo regime monárquico, por imposição dos pais, ou democrático, pela própria escolha. Não se troca de time, assim como não se muda de alma.
Time é para sempre. Uma benção que nos define, uma maldição que não lutamos contra.
Não é sorte ou azar, certo ou errado, é costume. É lembrar de que se viveu a partir de jogos inesquecíveis. É quando a memória coletiva nos salva do esquecimento pessoal.
É transformar um simples jogador em ídolo, em padrinho, em exemplo. É beatificar o talento. É encontrar um atleta fiel à história de nosso clube mais do que a um momento. É adorá-lo pelo conjunto de cenas. É apenas enxergá-lo com as cores de nossa equipe, como um manto, um sudário. É Sócrates e Corinthians, é Zico e Flamengo, é Falcão e Inter, é Renato e Grêmio, é Pelé e Santos, é Garrincha e Botafogo, é Telê e Fluminense, é Raí e São Paulo, é Tostão e Cruzeiro, é Reinaldo e Atlético.
Buscamos justificar a torcida aos amigos, explicar racionalmente nossa decisão, mas torcer não é uma opção intelectual, não é um investimento seguro, não surge de estudo de mercado, de teste vocacional, não é algo que se gosta e se deixa de gostar, é algo que entra no sangue como vírus e nos contamina de fraquezas.
Qual é seu time? é a pergunta feita hoje logo depois da gente dizer o nome. Como um destino.
QUARTO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
QUARTETO FANTÁSTICO
Fabrício Carpinejar

O torcedor santista não teve tempo de torcer no domingo (18/12). Recém começara o embate decisivo do Mundial e o Santos já restava esmagado. Dezesseis minutos, um a zero. Vinte e três minutos, dois a zero.
Se o Real Madrid foi o primeiro time a contar com camisas numeradas na Espanha, o Barcelona é o primeiro time a desmanchar qualquer sentido de numeração.
Gerard Piqué poderia atuar no ataque e não seria um estranho no ninho. Fábregas poderia contracenar de zagueiro e não seria criticado.
Barcelona transformou o Santos no Al Sadd. O elenco árabe, na verdade, não era ruim, todo time enfraquece ao desafiar a supremacia galáctica catalã.
Barcelona é um esquadrão de semideuses, de heróis gregos.
É Cervantes, é Homero, é Shakespeare, é clássico, ultrapassa a condição contemporânea. A efemeridade de um campeonato.
Quatro a zero na final do Mundial é um escore trepidante. A beleza sozinha humilha. A beleza com a competência do resultado termina sendo insuportável.
Neymar desapareceu, reconhecido apenas pelo seu topete cobreado. Ganso abanava, desesperado, com os olhos. Borges parecia um reserva esforçado dando piques. Dorval rodou no exame de baliza da autoescola.
Santos se acovardou, como se fosse juvenis treinando com os titulares. Santos se retraiu, como fãs mais interessados em pedir autógrafo do que barrar a goleada.
O medo é conservador. O medo é anacrônico. O medo é Muricy criando duas paredes do seu próprio cativeiro (plantou Danilo, Arouca e Henrique à frente da zaga).
Santos se mostrou dependente de Neymar, enquanto o Barcelona é maior do que Messi - o grupo inteiro esbanja habilidade (quem do Santos seria titular no Barcelona?).
Barcelona domou, dominou, destruiu. Mais de 70% de posse da bola. E não somente posse, mas arte, espetáculo, empolgação. Os dois gols de Messi são diamantes. Lapidou as redes. Um toque por cima do goleiro Rafael, depois de escapar da marcação, e o quarto, quando driblou Rafael, em maiúsculo desenlace de placa. Faces refletidas de uma única joia.
E deveria ser mais se o goleiro santista não defendesse seis chutes impossíveis (e a trave mais dois).
É o futebol total novamente em prática, porém com ideário de diversão. O quarteto Xavi, Fábregas, Iniesta e Messi alcança a soberba estilística de outro grupo de virtuoses, do lendário adversário merengue. Ver o Barça flutuar com facilidade, densidade, ímã de passes, é lembrar com nitidez do ataque do Real formado pelo argentino Di Stefano, húngaro Ferenc Puskás, francês Kopa e espanhol Gento, base de cinco títulos consecutivos da Copa dos Campeões de 1956 a 1960 (analise a comparação em vídeo).
Barça fez uma esquadra que rivaliza com aquele futebol doído de tão bonito, doido de tão veloz do Real (que inspirou o carrossel holandês). O goleiro Valdés não chuta a bola para o meio-campo, nunca. Não bate tiro de meta para longe, sai sempre jogando com seus defensores, jogador a jogador, roda de capoeira, de bobo, virando o lance, reduzindo o campo a uma quadra de salão.
Desculpa, não era futebol de salão, e sim handebol, vôlei, basquete. Os ilusionistas grenás calçaram as mãos com chuteiras. Fica uma só certeza: havia dois esportes diferentes praticados, ao mesmo tempo, hoje no gramado de Yokohama.
VINGANÇA DE REI
Fabrício Carpinejar

Neymar não pode ser Pelé.
Pelé não morreu para reencarnar em outro.
É incrível raciocinar que Pelé é Pelé, o maior atleta da história, e ainda está vivo. Diferente de Garrincha, que faleceu em 1983, há trinta anos, e desfruta da unanimidade do túmulo.
A morte já reluziu o anjo de pernas tortas tudo o que podia, mas ainda não tocou no rei do futebol.
Pelé não morreu e parece completo, o Livro dos Recordes em pessoa. É eterno sem precisar da eternidade. Dispensa o fiador da cova, o bônus de Morfeu.
Quando falecer, é bem capaz de ser beatificado, virar santo, produzir curas em Três Corações.
Não só porque marcou 1281 gols em 1363 partidas, não só porque ganhou três Copas do Mundo, parou uma Guerra na África, e todos os recordes que bateu como maior artilheiro do Santos e mais jovem jogador a encantar na Seleção Brasileira.
Pelé tinha uma monumental capacidade de se superar. Driblava, cabeceava, chutava, defendia com igual maestria. Um acrobata com a bola nos pés, um trapezista do impulso, um estrategista circense do time inteiro.
Há o costume de diminuir seus feitos comentando que as partidas eram mais fáceis no seu tempo, não havia tanto patrulhamento, disciplina e preparação física como hoje. Mentira. Pelé gostava de chamar a marcação para perto, não ter espaço e criar brechas imaginárias e impossíveis no campo. Um MacGyver das chuteiras. Podia-se amarrar Pelé na trave e ele arrumaria um jeito de converter a dificuldade em vantagem.
Em confronto com Juventus, em 1959, deu quatro chapéus consecutivos nos defensores e goleiro, para concluir de cabeça, livre e sossegado. Em disputa com o Fluminense, em 1961, arrastou seis adversários com seus dribles e inventou o gol de placa.
O espectador que contou com a sorte de assisti-lo tornou-se seu apóstolo. Pelé não jogou futebol, evangelizou o futebol.
Num clássico contra o Grêmio, nos anos 60, em Olímpico lotado, Pelé enfrentou o zagueiro Aírton Ferreira da Silva, conhecido como Pavilhão (seu passe valeu um Pavilhão de arquibancadas dado ao Força e Luz). Aquilo que poderia ser uma humilhação acabou em redenção desaforada.
Aírton se antecipou à corrida de Pelé e meteu um lençol no atacante santista, para vibração apoteótica da Geral. Quem estava no estádio diz que foi comemoração de título mais do que de gol. O primeiro lençol - e único - sofrido pelo mito acontecia naquela tarde ensolarada em Porto Alegre. Os torcedores gritavam e riam, escarneciam o cetro, a coroa e o trono.
No segundo tempo, Pelé se aproximou novamente de Aírton. Fingiu que recuava e desistia do ataque para girar com violência o corpo de volta.
Veio rilhando para cima de Aírton, que não imaginava o ataque surpresa. Airton teve o troco, chapelado de inopino. Só que o zagueiro tricolor tentou se recompor, diminuir o prejuízo com a testa, mas levou outro chapéu de Pelé. Tonto e desequilibrado, Aírton procurou segurar Pelé pela camisa e levou um terceiro e humilhante chapéu. Uma chapelaria havia sido aberta na Azenha.
Daí Pelé encarou a torcida e tocou a bola para lateral com indiferença. Dispensou o ataque de propósito. Por honra. Para provar que não se brinca com a realeza.
Ninguém pode ser mais Pelé. Nem o próprio Pelé.
CHAPINHA NO JAPONÊS
Fabrício Carpinejar

O gol de Neymar, o primeiro, contra Kashiwa Reysol na semifinal do Mundial foi um milagre. É o que fica da vitória de 3 a 1 do esquadrão santista no Toyota Stadium nesta terça (14/12).
Milagre é aquilo que é visto mas ninguém acredita mesmo assim.
Neymar recebe de Ganso na entrada da área. E, num golpe de mágico, troca a bola de pé, do direito para esquerdo e deixa o capitão japonês como um réptil, a rastejar sem entender a mudança de rumo. Não alterou apenas a direção da bola, porém a sua velocidade. Vinha rápido e desacelorou de repente para retomar a mesma ânsia de vento num instante. Como se suas pernas fossem marchas de uma bicicleta.
Ele recortou uma cena e colou em outra página. Livre da marcação, num toque rápido e preciso, Neymar colocou a bola no ângulo do goleiro Sugeno.
Teve um flash arrepiante de Pelé, em especial pela facilidade de execução e complexidade do desafio.
Não fez somente barba e cabelo, mas chapinha no 7 do Kashiwa. O raciocínio de Neymar é espantoso, intuitivo. Ele não posa diante do oponente, age, todo drible é um passe, um passe para si mesmo.
DEFESA
Santos é um time de inspiração. Com a benção das musas, pode ser melhor do que o Barcelona de Messi e golear a frota catalã. Mas, num dia ruim, é capaz de perder até para o Íbis.
Das oito investidas, marcou três vezes em cima do Kashiwa. Quase cinquenta por cento de aproveitamento. Demonstra possuir um ataque formidável e letal, de giros e telepatia.
Se observarmos a defesa da Vila Belmiro, é um seriado totalmente diferente. Não sei se é tragédia grega ou tango argentino.
O esquema de 4-2-3-1 de Nelsinho Baptista ameaçou seriamente a folga alvinegra. Houve domínio das laterais pelos asiáticos, uma bola na trave e uma chance perdida debaixo das traves por Sawa, afora o gol de cabeça longe da marcação de Hiroki Sakai.
O escore poderia ser outro. Santos sofre de dupla personalidade. Na frente, é um sonho. Atrás, é um pesadelo.
Deve-se tomar cuidado com Iniesta, Messi ou Xavi. Eles não serão como Kashiwa, não vão acertar somente um lance em quatorze finalizações.
ESPÍRITO DE EQUIPE
Fabrício Carpinejar
É pouco provável, mas há times que atuam em partituras, quando o jogador nem enxerga o outro e já está passando a bola. Times que jogam como uma orquestra, onde o técnico é o regente na casamata e a torcida é o bumbo, o triângulo, a percussão ao fundo.
Quando acontece, é lenda, é história; o conjunto irrompe formidável, sonoro, ritmado, acima de qualquer talento individual.
O torcedor não destacará somente um atleta, mas guardará o elenco inteiro, repetindo a posição de cada um no pôster.
Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo, Calvet, Zito, Mengálvio, Pelé, Dorval, Coutinho e Pepe.
A escalação será lembrada para o resto da vida, eternizada nos botões da infância, usada na crise para criticar a direção atual.
Um nome ajudará a lembrar do próximo, como uma criança decorando as vinte e seis capitais, os vinte e seis estados brasileiros.
Alguns clubes criam óperas, Santos e Botafogo dos anos 60, dramaticamente lindos, abrindo o palco aos timbres dos tenores Pelé e Didi; os demais criam sinfonias, Flamengo da década de 80 e São Paulo de 90, absurdamente coesos.
Espírito de equipe é toque de bola, é telepatia, é constelação melodiosa de talentos.
A zaga são os metais (trompetes, trombones, trompas, tubas), os volantes são os instrumentos de teclas (piano, cravo, órgão), os meias são as madeiras (flautas, flautins, oboés, corne-inglês, clarinetes, clarinete baixo, fagotes, contrafagotes), o ataque são as cordas (violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas).
Não há como escolher quem vibra mais bonito: persevera a composição, a obediência ao esquema tático, a solidariedade do dom.
Na alegria, time unido é música de orquestra, ciranda de empatia e admiração; na tristeza, time unido é grito de tribo indígena, coro passional e ofendido, pintando o rosto e cantando ao redor da fogueira.
No sol, todos por um; na tempestade, um por todos.
A valentia é o derradeiro desenho da voz.
O time crescerá diante de uma injustiça, do erro do juiz na marcação de um pênalti, do escândalo de um gol anulado.
Crescerá quando tudo conspira contra ele. Ao perder a partida e o equilíbrio, ao perder a confiança e o futuro.
Crescerá quando um ou dois jogadores terminam expulsos.
Crescerá por dentro.
E os que restam em campo se dobram por aqueles que faltam e ocupam o espaço como xamãs, titãs, gigantes do vento.
E viram o jogo, atestando que a desvantagem numérica no gramado nada é perto da multiplicação das almas.
TERCEIRO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
UMA ÚNICA PARTIDA DE 3.420 MINUTOS
Fabrício Carpinejar

Os espiritualistas acreditam que morrer no dia do próprio aniversário é sinal de merecimento. Equivale a uma prova de que se viveu bem, concedida a alguns eleitos.
Sócrates não morreu no seu aniversário - o paraense completaria 58 anos apenas em 19 de fevereiro - , mas faleceu quando o Corinthians, seu time do coração, conquistou o pentacampeonato brasileiro.
É como se despedir durante um segundo e mais verdadeiro nascimento. Uma data coletiva. É deixar de existir quando o torcedor está mais feliz. Quando seu clube completa um feito sempre desejado.
Com certeza, não foi casualidade, e sim predestinação. Sócrates abandonou a cena para infuenciar o resultado lá de cima.
* * *
Com o título, o Corinthians cobre de ouro o troféu de latão escandaloso de 2005 e, de inhapa, distancia-se moralmente do rebaixamento em 2007. Agora foi merecido, o time soube fazer a poupança para os tropeços e tempos duros.
O Brasileirão acaba com o fortalecimento do Tite, que agora atinge o primeiro escalão dos técnicos, acompanhado de Muricy Ramalho, Felipão (quem mais teve a autoridade balançada), Abel Braga e Luxemburgo. Conduziu uma equipe mediana a liderar o campeonato de ponta a ponta. Tirou proveito de Alex, de Willian, de Liedson. Manteve o grupo concentrado até o fim. Foram 26 rodadas na liderança do certame, incluindo as sete derradeiras. Ficou 68% da competição à frente dos concorrentes.
* * *
Dos clássicos, o mais espantoso foi o mineiro. O Atlético realizou a proeza de apagar a campanha de recuperação do segundo turno, sair por baixo quando tinha tudo para empurrar seu rival para a segunda divisão e cantar de galo sozinho em 2012. Levou uma goleada inexplicável de 6 a 1 do Cruzeiro. Se não foi marmelada desconhecemos o que é doce.
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O Atlético Paranaense estragou o chope do rival Coritiba que vinha de uma temporada perfeita. Largou a primeira divisão de cabeça erguida. Cumpriu o que o Grêmio sonhou, tirar o Inter do certame mais valorizado.
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Ronadinho aparece e logo desaparece. Não tem mais voz própria, é um soluço. Brilhante em três ou quatro partidas e inoperante no resto. Encantou momentaneamente a torcida - como ocorreu no Milan. Triste é que seu desempenho decaiu justo quando atrasou o salário do Flamengo, reforçando a pecha de "oportunista".
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Numa safra excelente de centroavantes (Borges, Damião, Fred, William, Luis Fabiano), o melhor jogador do futebol brasileiro é Dedé, zagueiro do Vasco.
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Celso Roth virou um Carlos Lupi do Brasileirão. O presidente Paulo Odone anunciou o fim de seu contrato uma semana antes do Gre-Nal. Ele era um fantasma na casamata do Beira-Rio. Demitir um treinador por antecedência é mania de político, vício do ex-deputado Odone. Prejudicou o rendimento do tricolor, diluiu a concentração para o clássico.
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O Inter participa da Libertadores pelo terceiro ano consecutivo, amostra de sua regularidade, mantendo-se entre os cinco melhores no último triênio. Bateu o Grêmio com a natural dificuldade emocional: gol sofrido de pênalti e desespero nos descontos. D' Alessandro é a vértebra do esquema de Dorival Júnior. Há uma sinfonia contagiosa nele. É o Stravinsky da equipe, cheio de desaforos e resmungos. Põe o plantel em alerta, transmitindo sua loucura portenha. Quando ele baila, todos reclamam do árbitro, tomam cartões, xingam as bandeiras do escanteio e batem carreiras com o minuano. Trata-se do grande nome do colorado, o xerife musical. Os holofotes estão em Damião, mas a juventude continua representada no genioso D`Ale.
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Os jogadores do Internacional lamentavam que a sorte não vinha ajudando o time quando, na verdade, o time é que não colaborava com a sorte. O que não faltou foram resultados paralelos favoráveis. Mas podemos falar em sorte num campeonato tão longo? Os pontos corridos afastam o futebol da aleatoriedade de um juiz ou da falha avulsa do goleiro. É como um só jogo de 3.420 minutos.
ANJOS, REGENTES E SÓCRATES
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Quando os japoneses querem expor seu sincero interesse por um amigo preparam um origami. É a sua maneira de rezar, no papel realizam a demonstração prática do amor. Nós não sabemos fazer origami, então dobramos algumas palavras em nome de Sócrates, ex-capitão da Seleção Brasileira, que morreu às 4h30 deste domingo (4/12), aos 57 anos, em decorrência de um choque séptico.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira exibia na certidão um nome longo e pomposo, uma graça de rei. Mas foi o contrário: um democrata, humano, corajoso.
Rompeu com a aristocracia, com a cartolagem, com o que se espera de um jogador.
Quando encontramos com ele, no ano passado, no Cartão Verde, programa que ele atuava na TV Cultura, ele sintetizou sua trajetória de exceção:
- Nunca parei para pensar, posso fazer isso jogando.
E rimos da iluminação trivial.
Sócrates deve ter sido um dos raros atletas a completar curso superior enquanto atuava. E para humilhar, fez Medicina. E não reclamava da falta de tempo. Mesmo estudando, tornou-se artilheiro do Campeonato Paulista de 1976 e levou o Botafogo de Ribeirão Preto ao título do primeiro turno de 1977.
Deve ter sido um dos poucos jogadores a ter uma dimensão política, sabia falar e discutir qualquer assunto, do cinema de Costa-Gravas ao novo CD de Chico Buarque. Durante a ditadura, criou uma trégua intelectual, uma paralisação inacreditável de vestiário, somente comparável em ousadia à greve do ABC capitaneada por Lula.
Sócrates ombreou o presidente do time, Vicente Matheus, e liderou a Democracia Corintiana, em que os jogadores decidiam os rumos da equipe. Entre outras revoluções, o movimento aboliu a concentração na véspera dos jogos.
Deve ter sido um dos mais honestos ídolos, não se importava em envelhecer e ostentar fios grisalhos na barba; bebia e fumava nos bares, e nem por isso cabulava os horários dos treinos. Ele mostrou que o homem tem direito a viver quantas vidas quiser num único dia. Prazer e responsabilidade andavam juntos, entrelaçados.
- Sou torcedor de mim - ele nos avisou.
Deve ter sido um dos boleiros mais carismáticos que apareceu por aqui. Criou uma identidade indiscutível com o Parque São Jorge. Mostrou-se leal a um clube, torcendo dentro e fora das partidas. Não existe como vestir branco sem pensar antes no Doutor dos gramados.
Ainda que não tenha obtido grandes títulos - pelo Timão, ganhou três campeonatos paulistas, em 1979, 1982 e 1983 - assumiu uma condição de lenda por aliar o caráter combativo (garra) e habilidade (arte).
Pode-se lamentar que ele não tenha alcançado o título mundial pela seleção memorável de 1982 (ao lado de Zico, Falcão, Éder, Júnior) ou a glória em 1986, no México. Mas Sócrates inventou um novo atacante: o solidário.
Extinguiu o fominha, aquele que não passa, o malabarista, que realiza tudo sozinho. Primeiro, o trabalho coletivo, em seguida, os voos individuais. Aperfeiçou os ensinamentos do palmeirense Ademir da Guia e transformou a lentidão numa arma letal de precisão.
É o antiGarrincha. O antifirula.

Sócrates é a reforma de bases do futebol. A passeata dos cem mil. A revolução cubana. A educação de Paulo Freire. A arquitetura de Oscar Niemeyer. A antropologia de Darcy Ribeiro. Ele preferia deixar um companheiro livre do que seguir acumulando créditos.
Armava!, mais do que simplesmente passar a bola adiante. Imprevisível, culto, seus ataques vinham de lado, um tesoureiro das triangulações.
O craque ensinou que a fraqueza é a força. O calcanhar de Aquiles, sinônimo mítico de vulnerabilidade, converteu-se em calcanhar de Sócrates, tradução de passes exatos, força e gols inesquecíveis.
Antes de Sócrates, o calcanhar era mero apoio. Depois dele, o calcanhar é uma marca registrada de inteligência.
Com 1,90m e um giro de corpo devagar em comparação aos colegas mais baixos, Sócrates começou a empregar o calcanhar para ganhar velocidade e surpreender os adversários. O defeito cresceu em virtude. A falha amadureceu em vantagem.
O domínio desconcertava a marcação. Sócrates elaborava longos cruzamentos de calcanhar ou encobria o goleiro em momentos improváveis. Não tinha pressa, ânsia de resolver. Dava corpo ao ritmo, densidade estratégica para equipe, calculava aproximações.
Filósofo, passeava pelos gramados, sempre com as costas eretas, um farol da objetividade, clarão de lucidez.
Sócrates não precisava olhar para a bola. Não tinha costas como um anjo, como um regente.
Não houve na história do esporte alguém igual a ele. Dobrou o Brasil em origami.
FUTEBOL-ARTE
Fabrício Carpinejar

O sobrenatural vem da simplicidade. Da situação mais normal, mais corriqueira.
É de um lance comum que surge o gênio. O predestinado. O mito.
É de um lance bobo que tudo faz sentido. Não podia acontecer, e acontece.
Quando ninguém espera, quando nenhum torcedor observa direito, a chuteira estala a grama de modo preciso e o som corre fulminante das traves para arquibancada.
Futebol-arte é um milagre. É quando todo o time desemboca num único jogador, e ele passa a ser todo o time. Não que os outros não existam, os outros são ele e mais ele e mais ele e mais ele...
Ele: aquele que não corre, aparece; não chuta, coloca.
Futebol-arte é a superação das expectativas: quando testemunhamos algo que não vai se repetir.
É uma cena que não foi ensaiada, e é perfeita, incompreensível. Por mais que a gente conte como foi, nunca será entediante, nunca esgotaremos seu mistério.
Não esquecemos porque não cansamos de lembrar.
Futebol-arte não traz alegria, traz pânico. Todo gol é um susto, uma assombração, um terror.
Os olhos doem pelo excesso de beleza.
Futebol-arte nasce da descrença, do não acredito, do não é possível.
Futebol-arte não rende exclamações, e sim uma longa interrogação: como ele fez isso?
Futebol arte é quando nos estragamos de exigências.
E começamos a reclamar que não existe futebol como o do nosso tempo.
Futebol-arte é quando parece que o torcedor já viveu muito numa única partida e está encabulado. Tenso. Parece que não merece tanto, pagou por um jogo e recebeu um espetáculo.
É quando um gol já é uma goleada. Quando um drible já é um gol.
Futebol-arte é quando a saudade é maior do que a memória.
É desejar gritar um gol e ser ataque cardíaco. É nossa capacidade de morrer e continuar vivendo.
O artista dos pés sabe vira o mundo pelo avesso: sabe que o impossível é o caminho mais rápido para a vitória, o inacreditável é um atalho para a glória.
Ele não quer o mais fácil, mas contrariar as estatísticas. Não se acovarda diante das dificuldades.
É Pelé, sem nenhum companheiro livre, usando os pés dos adversários como parte dos seus e tabelando com as pernas do invisível.
É Didi cobrando falta e aquela bola longe da trave de repente caindo no ângulo: folha seca.
É Garrincha dançando tango com as bandeirinhas do escanteio.
É Tostão cavando ângulos sem ângulo, transformando goleiras em polígonos.
É Leônidas criando a bicicleta, é Ronaldinho criando o elástico.
Futebol-arte é quando a bola só aceita beijo na boca. Não admite amadores, pede delicadeza maliciosa. Futebol-arte é quando a bola só responde pelo apelido. Feita para ser asa mais do que pata, ser pluma mais do que couro. É preciso bater sem machucar, tocar embaixo para subi-la, sussurrar em seus ouvidos como um amante desinibido.
Convencer a bola que é um balão, uma janela, uma meia-lua, um chuveirinho.
A bola nos pés de um artista é um pássaro durante o chute, um peixe dentro do gol.
SEGUNDO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
FRED E O CARISMA DA CARÊNCIA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Futebol é proteger a exceção. Não há como banalizar o craque.
Dilemas dificultam o acesso dos boleiros ao estrelato. Uma deles é se o jogador é imprescindível no clube e na seleção. Cumprir os dois requisitos formam o gênio. Messi é paranormal no Barcelona, mas não atingiu nem metade de suas habilidades na Argentina. Ainda é sombra adolescente de Maradona - esse sim, um mito nos times e no selecionado (levou o pequeno Napoli a arrebatar o scudeto italiano e carregou a Argentina ao mundial praticamente sozinho). Ronaldinho também padeceu do mal nacional, não repetiu as atuações convincentes do Campeonato Espanhol durante a Copa de 2006. Os ídolos unânimes não atalharam, obtiveram sucesso em ambas as esferas: Garrincha, Puskás, Cruyff, Beckenbauer, Tostão, Dino Zoff, Sepp Maier.
Outro questionamento restritivo é se o atleta é bom durante um momento do time ou se ele já pertence a todos os momentos da história do time por aquilo que produziu em campo.
Centroavantes costumam pertencer a períodos. Túlio Maravilha é uma época do Botafogo, mas não entraria na seleção da estrela solitária. Não ficaria nem no banco de reservas. Nilson ou Geraldão foram atacantes excelentes nos anos 80 e 90 do Inter, cumpriram sua parte, só que é um exagero escalá-los como mitos. O mesmo aplica-se à Viola, que ajudou o Corinthians, nada mais do que isso.
A imortalidade é avarenta. Assim como a história costuma ser um técnico ranzinza. Renato Gaúcho não entraria nos melhores do Flamengo, porém teria a 7 cativa no Grêmio.
Obedecendo a essa linha de raciocínio, considerávamos Fred do Fluminense um matador datado, de iluminações provisórias e fama limitada. Seria lembrado com modéstia pelas passagens vitoriosas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e pelas atuações operárias na seleção.
A surpresa é que ele mudou de categoria. Tem sido um monstro atemporal do tricolor carioca. Um Heleno de Freitas das Laranjeiras. Executou uma metamorfose lendária. Sua atitude transtornou o passado. É uma garça que virou pelicano. Não existe bola ou peixe perdido.
Caça, cata, cava.
Com uma insistência incomum, mistura-se aos feitos do Fluminense, a ponto de não imaginá-lo com brasão diferente. Ele não é um virtuose, seu dom é a garra, verticaliza o lance, aproveita o máximo de cada situação, explora exaustivamente sua mortalidade. Age como um fanático pela vitória. Não provoca o oh de espanto, o meu deus da comoção, não intriga o espectador, não gera exclamações incrédulas. Suas jogadas são explicáveis, oportunas, felizes. Sua coragem é executar o óbvio e não se extraviar em firulas.
Sem a bola, seu olhar é triste, melancólico, não brinca, não se diferencia da aparência desinteressada e profissional de quem recebe o salário em dia.
Com a bola, ele enlouquece. Retira o carisma da mais absoluta carência.
Nas três últimas partidas pelo Brasileirão, assinalou inacreditáveis oito gols (quatro contra o Grêmio, três em cima do Figueirense e um sobre o Vasco). Assumiu a vice-liderança da artilharia (21 gols) e se igualou a Washington, recordista do clube na competição. Ninguém mais duvida que seja capaz de ultrapassar Borges, do Santos (23 gols).
Diante de sua doação espartana, qualquer um esquece que ele ficou lesionado parte do certame.
Fred faz questão de pagar os juros exorbitantes da torcida. Não reclama da cobrança, devolve o tempo perdido, triplica a alegria em minutos.
Já salvou o Fluminense do rebaixamento em 2009 (na maior sequência de vitórias de Cuca), já conduziu sua equipe para o título nacional em 2010 (colaborando com o paredão de Muricy Ramalho), agora assegura uma vaga na Libertadores (apoiando o controle do vestiário de Abel Braga).
É um sujeito que dá a ideia que pode morrer no gramado, que não desistirá até o último minuto, que brigará com o juiz em nome de seus companheiros, que buscará a bola na rede em vez de renunciar valiosos minutos comemorando o gol.
Não é rei como Pelé, não é príncipe como Neymar, Fred é um cavaleiro que comanda o exército nas manobras de terra. Entende que o matador requer humildade. Todo centroavante é um mendigo na grande área, esmolando cruzamentos, pedindo passes e se posicionando para receber - a sorte unicamente acontece para aquele que está bem posicionado.
Fred superou a si mesmo. Era para ter sido apenas competente, foi extraordinário. Porque ele é profundamente apaixonado pelo Fluminense.
Vem se tornando um mártir: um santo eleito pelos homens, intruso humano e raçudo do templo, incomodando a paz dos santos indicados pelos deuses.
RAÇA
Fabrício Carpinejar

Raça é perder o jogo, o campeonato, mas não perder a torcida.
Um jogador que não desiste de ganhar sempre é perdoado. Poderá ser aplaudido no desastre, abraçado no velório, recompensado no drama.
É o que sobrevive ao fim.
A raça converte insistência em heroismo; disciplina, em obstinação.
Raçudo não é qualquer um, é lutar para não ser qualquer um. É o primeiro jogador a chegar ao treinamento, o último a deixar o vestiário.
É o que conversa com os pés antes de bater uma falta, e cobra empenho dos colegas com gestos de regente.
Nem respira, todo sopro é suspiro, toda loucura é respeito pelo sonho.
É o chato, o esperançoso, o ingênuo; o que apressa o coração do tempo, e não obedece ao placar. Só acredita na bola, em mais ninguém. Surdo a Deus, ao Diabo, aos matemáticos.
Raçudo: aquele que confunde a partida com sua vida, e ressuscita por teimosia. Por orgulho. Porque não aceita se entregar à fatalidade.
O que vai suar enquanto os demais descansam; o que vai sangrar enquanto o mundo recém acorda; o que vai morrer para mostrar que é possível estar de volta.
Leva qualquer resultado como pessoal. Uma derrota é ofender sua família. Gosta de cair para voar mais rápido. Não há como tirá-lo do campo, contundi-lo, não aceita substituição, reclama da lentidão de seu próprio anjo da guarda, não abandona o time na mais absoluta desvantagem, é o que buscará a bola dentro das traves para recomeçar a luta no meio de campo.
É mítico por se expor à fraqueza. Foi provado pelo destino e não sucumbe às adversidades. Tudo fracassou e ele corre para a glória.
Será o goleiro que falha durante os noventa minutos e se redime nas cobranças de pênaltis.
Será o atacante que erra um gol feito e exorciza as redes nos acréscimos.
Será o reserva que entra no segundo tempo, sob vaias, e nos conduz à euforia de urros.
Um jogador não se torna ídolo por ser craque, mas pela raça.
A raça é quando o jogador torce e a torcida joga. É a admiração eterna da arquibancada.
PRIMEIRO EPISÓDIO DO DOCUMENTÁRIO ENERGIA DAS TORCIDAS
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