ESCOLA GAÚCHA DE GOLEIROS

Fabrício Carpinejar

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A decisão da Copa do Brasil teve um herói: o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras. Nenhum palmeirense sentiu saudade do santo Marcos. Ele foi guerreiro, insubordinável, raçudo, responsável por três grandes defesas nos dois jogos da decisão e ainda marcou o gol da vitória nas penalidades em cima do Santos. O arqueiro de 37 anos transformou a proximidade da aposentadoria em redenção. Quem pensava que tinha atingido o auge da carreira em 2011, quando foi campeão da Copa do Brasil pelo Vasco e cotado para a seleção brasileira, acabou por se enganar. 

Prass é mais um goleiro de safra gaudéria. O que chama atenção é a escola de goleiros do RS. Uma universidade a campo aberto. Talvez porque o goleiro no estado tenha o dobro de importância e seja obrigado a disputar a titularidade com unhas e dentes. Não é apenas um goleiro, mas um mártir, um salvador, um catalisador da rivalidade: Manga, Benitez, Gilmar, Taffarel e Clemer no Inter ou Lara, Leão, Mazaropi, Danrlei e Victor no Grêmio. São os puxadores de torcida, os anjos endemoniados, os paredões no sufoco, os pegadores de pênaltis. Eles não têm um papel passivo, são capitães morais da equipe. Não se encolhem nos 16,5 metros da grande área, jogam com os pés como se fossem o último zagueiro, puxam contra-ataque, e sempre vão para a área adversária a fim de cabecear no desespero. 

Curioso é que os melhores goleiros em atividade no país são gaúchos. Fernando foi revelado pelo Grêmio, à sombra do ídolo Danrlei. Além dele, temos Cássio, goleiro campeão mundial e brasileiro pelo Corinthians, natural de Veranópolis, também formado pelas categorias de base gremistas. Afora os titulares da dupla Gre-Nal, Marcelo Grohe e Alisson, brigando por uma vaga na Seleção Brasileira de Dunga.

UM DIA FOI TRI-LEGAL

Fabricio Carpinejar 


Tinha sete anos. Era 23 de dezembro de 1979. Foi a última vez em que comemorei um título do Campeonato Brasileiro. Estava na primeira série. Não pedi presente de Natal - não precisava de mais nada. O Beira-Rio colocou mais de cinquenta mil para assistir o passeio colorado em cima do Vasco. Campeonato invicto, única equipe até hoje a ostentar campanha perfeita. 

Desde o gol do Falcão aos treze minutos do segundo tempo, o Inter não comemora mais nenhum campeonato nacional (excetuando a Copa Brasil de 1991, outro torneio). São 36 anos. Eu me formei em jornalismo, e o Inter não ganhando mais. Eu tive dois filhos e o Inter não ganhando mais. Eu publiquei meu primeiro livro e o Inter não ganhando mais. Eu me pós-graduei em Letras e o Inter continuou não ganhando mais. Casei, descasei, casei de novo e o Inter não ganhando mais. Lancei trinta e três livros e o Inter não ganhando mais. Segue não ganhando, não há como achar normal. Naquela época, o Inter era tricampeão e o Corinthians nada. Hoje o Corinthians é hexacampeão e o Inter permanece tri. 

O Brasileiro tornou-se apenas disputa por vaga na Libertadores. Deixou de ser título para nós há quatro décadas. Somos figurantes, não mais protagonistas. Somos secundários, não mais líderes de ponta a ponta. 

O Inter, assim como o Grêmio, sofre da síndrome de flanelinha. Não persegue a glória, mas somente querer assegurar burocraticamente a vaga. É uma ausência de ambição que não pode ser coincidência. Reduzimos o nosso horizonte para o quarto lugar. 

Só interessa o G-4, ou só se consegue o  G-4? Eis a pergunta que se cala sozinha.

Em todo o início de campeonato, somos apontados como os favoritos. Em toda final de campeonato, somos o desencanto dos profetas. Temos sempre o plantel mais competitivo, e sempre somos atropelados na competição. Guardamos vários vices ao longo dessa abstinência (1987, 1988, 2005, 2006 e 2009), mas vice só lembra que alguém ganhou. 

Vigora um desinteresse do Brasileiro que mascara a pura incompetência e a falta de planejamento, ainda mais numa era de pontos corridos. Ele jamais é prioridade, como se houvesse alguma urgência mais gritante para o Inter. 

O Brasileiro existe e existirá todo ano e parece que é uma novidade, parece que é lembrado pela direção no segundo semestre, quando é tarde demais. 

Como o Inter pode ganhar um Mundial, duas Libertadores, um Recopa, uma Sul-Americana e não procurar a superioridade no seu país? Qual a coerência? Como deixar passar tanto tempo?  Quantas gerações necessitam envelhecer, como a minha, para o colorado recuperar a hegemonia da década de 70? 

Não é culpa do calendário. Não é culpa das lesões. Não é culpa do juiz, porque Rubens Minelli afirmava que time bom enfrenta doze (onze do adversário mais o árbitro). 

O Inter reproduz um futebol vadio, indigente, previsível. Esquece a sua grandeza ao depender de escores paralelos no estertor da competição, simplesmente porque não construiu os seus próprios resultados. O Inter apresenta um saldo negativo, coisa impensável para uma esquadra comandada por D'Alessandro, prova inegável de seu raquitismo ofensivo. O Inter não põe a mão na taça pois ainda não aprendeu a conciliar Libertadores e Brasileiro, não é capaz de formar dois times, quiçá um. O Inter não renova o seu elenco pelo costume de repatriar ídolos (Alex, Nilmar, Sóbis...), numa fórmula preguiçosa de repetir o que um dia deu certo. O Inter confunde grupo de qualidade com Instituto de Caridade, não dispensa atletas que não demonstram rendimento para fazer um falso número de opções  (quantos do time atual merecem um adeus? Uma listinha breve de condolências: Réver, Anderson, Lisandro López, Juan, Dida, Nico Freitas). O Inter não realiza uma preparação física adequada para um campeonato longo, costuma ser surpreendido com lesões rotineiramente. O Inter raramente ganha fora de casa, contabilizando meras três vitórias em turno e retorno de 2015, desempenho de clube mediano e caseiro. 

Não vem me dizer que está tudo tri. Tri-legal estava em 1979 quando eu tinha sete anos. Já é gíria de velho. 

GARRINCHA PORTEÑO

Fabricio Carpinejar

É tudo com você, D'Alessandro. Sem Valdívia, sem Sasha, sem Nilton, sem Wellington, é com você, meu capitão. É só com você. 

Atuou poucas partidas no Brasileirão devido à hérnia de disco, mas os quatro jogos que restam justificam o campeonato. É o seu campeonato a partir de agora. É a sua decisão. Nunca o colorado precisou tanto de seus escanteios, de suas cobranças de falta, de seus lançamentos precisos, de suas arrancadas furiosas, de seus disparos envenenados no ângulo. 

Nas adversidades, você não joga, você se apresenta, tangueiro das laterais. Acostumado a misturar lágrimas e suor, o mesmo sal platino. 

O ano não acabou para você, D'Alessandro. Enquanto todos terminam, você começa. Enquanto todos morrem, você ressuscita. 

Você é um armador de exceção durante a paz, mas San Martín na guerra. 

Estamos em guerra, D'Alessandro. Chame os seus soldados para combater pelo manto vermelho, El Cabezón. Serão doze pontos de uma nova cicatriz no rosto. 

Você que finta pisando na bola, pisa na bola para provar quem manda, você que tem duas pernas canhotas, você que é o nosso garrincha porteño. 

Você que cria uma cancha de salão na área adversária, dilata o espaço, transforma a pelota em elástico, transforma o esférico em cadarço da chuteira. 

Nenhum time se apequena com uma liderança. Nenhum time se apequena com um regente. Nenhum time se apequena com um general. Nenhum time se acovarda tendo você na trincheira, guerreando junto, multicampeão pelo Inter, com uma Libertadores, um Recopa e uma Sul-americana nas costas. 

É só com você, D'Alessandro, anjo vingador do Gre-Nal, com oito gols nos clássicos. 

Ê só com você, meu capitão, que domina o impossível no peito e chuta o improvável para as redes. 


CADA UM É ONZE

Fabricio Carpinejar 

D'Alessandro afirmou que o saldo do ano do Inter é positivo, com o título do Gauchão e o terceiro lugar na Libertadores. O que me impressiona, além da resignação do craque e capitão, é a incoerência de seu depoimento. O ano nem acabou! Não é hora de desamarrar as chuteiras. Não é o momento de realizar balanço, não entramos em recesso de férias, o Brasileirão não está encerrado. Só deve ser feito o levantamento das contas com o fim da tabela, não antes. Antes soa como desistência. Antes soa como desculpa para não fazer mais nada. 

O julgamento de 2015 do Inter, se será animador ou negativo, depende das próximas cinco rodadas, deflagradas a partir desse sábado contra a Ponte Preta, com três jogos em casa e dois fora. Será positivo com a entrada do time no G4 ou G5 (se Santos ganhar a Copa do Brasil e se mantiver em quarto no Brasileiro). Será positivo se devolver o vexame do último Gre-Nal - superar o Grêmio em casa significa uma questão de honra, reparação do orgulho ferido, missão inadiável que requer clima de decisão. Deixou de ser um confronto de três pontos para configurar em uma final à parte. O manto vermelho pede um bordado reforçado na história com o seu rival. 

Não é uma tarefa fácil que emerge na finaleira da competição, porém não impossível levando em conta o nível do plantel: é necessário vencer quatro dos cinco adversários pela frente e torcer para tropeço do São Paulo com três pontos à frente do Inter. 

O campeonato começa agora, não se recomenda baixar a cabeça ou corpo mole. É juntar as forças e redobrar o sangue nos olhos, é não culpar a sorte ou azar pela ausência de resultados. 

Dois objetivos precisam frequentar a mente de Argel: entender que o apagão não é sobrenatural ou um cochilo circunstancial, mas crise de preparação física, cansaço mesmo, já que o time começa bem e toma virada, e aceitar que as ausências consecutivas de Sasha e D'Alessandro (hoje ele joga) e a queda de rendimento de Alex (coadjuvante de luxo) comprometem a produção ofensiva. O saldo negativo do ataque (o pior desde 2003) não é problema do ataque, ou de Vitinho ou de Lisandro López, e sim da armação que não vem servindo os seus artilheiros - Valdivia é uma exceção já que busca o jogo e executa ao mesmo tempo. 

Que cada um seja onze em campo, que cada um seja os doze pontos que faltam para a Libertadores de 2016.


EUSÉBIO RONALDO

Fabrício Carpinejar e Mário Corso


 

Morreu Eusébio no último domingo (5/1/2013) por parada cardiorrespiratória. O gênio se despediu aos 71 anos para se fundir ao bronze da memória. 

Quem viu Pantera Negra jogar, ficava impressionado com sua truculência artística. Era um tanque que estacionava na pequena área como um Smart. Era um gauro que voava como um beija-flor. Letal na cabeçada e nas duas pernas. Destroncava os zagueiros com suas corridas em ziguezague. Batia falta com violência e curva. Cobrava pênaltis com rigor e semblante monástico. 

Não ria à toa. Não brincava no gramado. Seu talento significava responsabilidade, concentração, vocação. Não atuava por egoísmo, mas representando uma multidão. A torcida estava dentro de sua cabeça. 

O moçambicano não teve tempo de molecagem, esteve focado em cuidar exclusivamente do trono e de seu papel coletivo. Foi o maior artilheiro da história do Benfica (638 gols em 614 partidas) e sua principal referência durante as 15 temporadas. Ganhou onze títulos nacionais e uma Liga dos Campeões. Derrotou a seleção bicampeã de Pelé de 1966, e levou Portugal a um surpreendente terceiro lugar, a melhor posição até hoje da esquadra na história das Copas. Tornou-se o goleador da competição de Londres, com nove gols. 

Para o povo português, seu enterro é o equivalente ao que seria para os brasileiros a morte de Pelé. Uma comoção inigualável pelas ruas de Lisboa. 

Ainda mais que Eusébio revela um hábito de Portugal de depender infinitamente de um craque. 

Portugal não é um time, é um reinado. Sempre um jogador carrega o piano. Antes Eusébio, hoje Cristiano Ronaldo. 

A Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, nunca terminou de fato. Prepondera na alma lusitana um sebastianismo feroz. Como se fosse um exército onde existem somente general e soldados, nenhuma posição intermediária.  

Se Eusébio marcou quatro gols nas quartas-de-final do Mundial de 66, contra a Coréia, contribuindo decisivamente para a vitória de  5 a 3, de virada, Cristiano Ronaldo recentemente anotou os três gols do triunfo de Portugal contra a Suécia, na repescagem para a Copa no Brasil.

Ambos se parecem pela extraordinária explosão.  Calmos em campo, de repente despertam elétricos e indomáveis em direção ao gol. 

Ambos se parecem pela dupla personalidade: sangue frio para decidir e drama para comemorar; blindados no desafio, passionais no apelo à garra. 

Ambos chamam a responsabilidade para si. Suas chuteiras equilibram um cetro invisível, uma autorização coletiva de resolver - sozinhos - o inferno.  

Simbolicamente, no futebol, Portugal ainda é uma monarquia, não entrou para a democracia. 

O país precisa de uma lenda para justificar a nostalgia do passado mítico (de nação mais poderosa do mundo nos séculos XV e XVI, ao lado da Espanha). 

O Rei está morto. Longa vida ao Rei!


O MAIOR PAPA COLORADO

Fabrício Carpinejar

Estou consternado com a renúncia do Papa Bento XVI. Engarrafei minhas lágrimas na manhã dessa segunda-feira (11/2) e coloquei o rótulo de Fonte Ijuí.

Não esperava sua decisão de abandonar o Vaticano, mas entendo sua desistência. Ele é um milagreiro, o Laçador de São Pedro, o Teixeirinha alemão.

Nunca um papa fez tanto pelo Rio Grande do Sul.

Meu desejo infantil é gritar na sacada para a Praça Tamandaré: Ratzinger é gaúcho!

Largou o pontificado por cansaço espiritual.

O Inter de Porto Alegre realmente exigiu demais, forçou além da conta. Nem a Guerra Fria cobrou o mesmo empenho estratégico. Nem o doutorado em Teologia sobre Santo Agostinho pediu igual habilidade religiosa.

Bento XVI consagrou-se como o maior papa colorado. Desde que sucedeu João Paulo II,  em 2005, o Internacional ganhou o Mundial Interclubes, duas Libertadores, duas Recopas Sul-Americana e a Sul-Americana. Transformou o time das margens do Guaíba numa potência mundial, superando as façanhas do rival tricolor. Em sua gestão, atendeu as preces de milhares de torcedores insatisfeitos com as sucessivas e melancólicas derrotas na Libertadores (em especial, as emblemáticas de 1980, vice-campeonato com Falcão e tudo, e 1989, quando caiu para o Olímpia em casa na semifinal).

Antes dele, o máximo que o Rolo Compressor conquistou no exterior foi torneios de menor expressão na Espanha, Escócia e Japão.

No comunicado oficial, Bento XVI afirmou que "não tem mais forças" para exercer o cargo. Ele completará 86 anos em abril.

Temo o que possa acontecer durante a 'sede vacante'. 

DESABAFO DE CORSO: A MATEMÁTICA DOS MAIAS

Mário Corso

Segundo os Maias, os nossos dias estão contados. Embora os detalhes do apocalipse não sejam revelados, dia 12 de dezembro acaba tudo. Embora essas previsões nunca dêem certo, dessa vez a torcida do Internacional tem algo para esperar: depois da reeleição do Luigi o fim do mundo não seria uma má ideia. Afinal, faz meses que assistimos ao brasileirão sem emoção, quer dizer, a única emoção é não perder feio, só um fim do mundo poderia mexer com nossos nervos.

Mais dois anos dessa direção ninguém merece, que venha o fim do mundo! Ou esse é o fim do mundo em drágeas e não percebemos? Errar todos erram, faz parte da vida, mas errar tanto é outra coisa. E mais: existem erros perdoáveis e erros imperdoáveis. Improvisar um técnico no Internacional não se perdoa. Comprar jogador errado entende-se, sempre é uma aposta, mas colocar Falcão e Fernandão no comando da equipe é um absurdo. Técnicos custam caro pois são raros, improvisar com isso é o caminho do desastre. Podemos improvisar um zagueiro, um atacante, até um goleiro, mas nunca um técnico.

Antes da partida com a Ponte Preta nossos jogadores disseram que jogariam pela honra. Uma excelente ocasião para ficar com a boca fechada, pois revelou-se que a honra (que aliás já imaginávamos) era de segunda divisão.  Dizer que o time é mercenário é desmerecer os mercenários; é mais do que isso. Com uma chance de chegar a Libertadores aquele coletivo (chamar de time ofende os outros times) não engrenava, que dirá jogando por laranja. Com a Portuguesa não foi outra coisa, um time sem ideia, sem esquema, sem pensamento.

Nosso time é a cara do seu presidente. Tudo é demorado, hesitante, sem rumo, sem esperança, sem coragem. O mistério é saber o que os conselheiros que o elegeram viram nele que nós não vimos. Arriscamos um palpite: esses conselheiros pensam com cimento e ferro na cabeça, pensam que um time é seu estádio. Nada mais errado, o estádio é a roupa de um grande time, nunca um objetivo. Vendemos nossa alma por um novo estádio. Invertemos as prioridades. Teremos uma grande roupa para festa nenhuma.

O torcedor colorado só se pergunta em que esquina de 2012 o seu time perdeu o rumo. Faz tempo que o Internacional é uma equipe zumbi, joga porque tem que jogar, não existe gana, não existe objetivo, é um time sem sede. Nada o motiva. A falta de vocação para a vitória paralisa a criatividade e se abre para o espectro do jogo burocrático, chato, sem genialidade. Jogamos porque mandam jogar, melhor se ficássemos em casa.

Agora chega o Gre-Nal, poucas vezes um clássico tem um resultado previsível tão claro. Já  sabemos o resultado: o Grêmio ganha, só não sabemos de quanto. Vamos apenas perder ou ser humilhados? Essa é a dúvida que arrastaremos essa semana. Nosso palpite é que uma goleada histórica se desenha.

Os próximos passos são de desmontar o time que não deu certo e esperar outro técnico provisório. Nada que estimule um torcedor. Mas não desanime, dois anos passam depressa, e não existe possibilidade (ainda) de três mandatos.

Qual será o planejamento dessa gestão que se inicia? Nesse ano já nos tiraram da libertadores, o que nos tirarão ano que vem? A Sul-Americana? E no próximo, sairemos da primeira divisão? Aguardem.

CAMPEÃO DO EMPATE

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Arte de Francis Bacon

É uma pena que a CBF não preveja prêmio para o campeão do empate, o título seria do Internacional.

O campeão da covardia. O campeão da neutralidade. O campeão da falta de iniciativa. O campeão da retranca. O campeão do anti-futebol, afinal merecia um destaque à parte e uma plaquinha no troféu da CBF.

No sábado (6/10), o Inter empatou novamente com o Santos. É seu décimo segundo empate. Naquele mesmo esquema, sai perdendo e corre atrás da desvantagem. É uma valentia do desespero após o atraso ou a bobeira da zaga. É uma reação para se livrar da derrota, nunca para alcançar a folga.

Adversário grande ou pequeno, em grande frase ou com péssimo retrospectivo, a armada de Fernandão joga sempre igual. Uma monotonia apesar da troca permanente de peças e da alternância do plantel. 

Preferível o ganha-perde do Dorival Júnior, que garantiu a participação na Libertadores de 2011, do que a estabilidade bovina em vigor, que arrancará uma Sul-Americana no máximo.

Não resta emoção ao torcedor do Beira-Rio. O colorado nem luta na cena debaixo, muito menos briga pela ponta (oito pontos de diferença do 4º lugar Vasco). É um desempenho fantasmagórico, de completo figurante. 

O último caneco foi em 1979, o que explica que seu desempenho ainda está calcado no tempo em que vitória valia dois pontos e empate não pesava como mau resultado.

No Brasileirão, o time parece que não se atualiza e traduz a moeda. Guarda a pontuação no colchão. Não converte os cruzeiros em real.

Antes, nas décadas de 70 e 80, empate fora de casa correspondia a um triunfo. Hoje significa dois pontos perdidos, vacilo e estagnação na tabela.

Caso o Inter estivesse em 1979, com seu desempenho de 2012 e pontuação antiga, estaria entre os quatro primeiros da zona de classificação da Libertadores. A diferença no momento de 20 pontos para o Fluminense cairia para 12 pontos.

O que revela que o clube não privilegia uma postura agressiva, de domínio e controle, de superioridade técnica, de "vamos vencer o campeonato do início ao fim". Ainda se prende aos velhos padrões de cautela e defesa, da escola da sorte e do contra-ataque.

Com o modelo de pontos corridos, nenhum clube com empates chega a lugar algum, só patina e atola. Não existe mais o valor moral de não perder. Evitar a derrota é também fracassar.

TATU-BOLA OU JEQUICE-TATU?

Mário Corso


Imagine que você seja um publicitário e precisa criar uma marca. Seu cliente dispõe de um cardápio rico, mas escolhe como símbolo algo que: entre o dia e a noite prefere a noite; entre o céu e a terra escolhe o subsolo; entre as cores vivas opta por um monocromático pastel; ao invés de um barulho vivaz escolhe o silêncio. Não é uma marca para uma funerária e sim para uma festa com convidados do mundo inteiro. Você pensa que isso não pode acontecer? Pois acabou de acontecer.

Não acreditei quando soube que o futuro mascote da copa será o tatu-bola. Conferi o site, pensei estar no Sensacionalista. De onde partiu semelhante idéia? Animais ctônicos como ele, habitantes da intimidade da terra, simbolicamente trazem conotação negativa, vide a cobra, o lagarto, a minhoca, a toupeira. O tatu nos lembra buraco, esconder-se, é um animal defensivo, que foge da briga, ou seja, animicamente um covarde. Seus dotes físicos tampouco ajudam, é sem graça e cor de terra, possui uma armadura escamosa sem charme, uns poucos pelos espetados e desgrenhados por baixo. De hábitos noturnos, só sai à noite para conversar com a coruja. Quanto aos nomes do tatu, não podemos reclamar, afinal, embora ainda não escolhido entre: Fuleco, Zuzeco ou Amijubi, as opções, são tão esdrúxulos como a escolha do animal, portanto, há uma coerência interna. Nessa lógica, é claro, apaga-se o único ponto forte do candidato: a sonoridade fácil de seu nome e que contém a palavra bola. Se não há escolha deixem tatu-bola, ainda que seja uma bola (o tatu enrolado sobre si) que não rola, e não se possa nem se deva chutar.

Um animal terrestre já representou o Brasil: a cobra fumando, símbolo da FEB. Mas o contexto era diferente, simbolizava a adesão à guerra. Como miticamente a terra está conectada à morte, um signo que lembra-se isso era perfeito. A escolha se deve à famosa frase, em que se dizia ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra, e a cobra fumou. Outras frases e metáforas foram usadas para dizer o mesmo, mas essa pegou por que representava o Brasil e seu momento. O exército brasileiro era pequeno e mal preparado, só a matreirice e oportunismo poderiam fazer dele fatal, por isso um ofídio. Pequena, mas mortal. O Brasil com os perigos traiçoeiros da selva eram assim evocados.

Quando Disney criou uma personagem para o Brasil escolheu um papagaio: Zé Carioca. A idéia do malandro nem era dele, nós é que nos vendíamos assim. Faz pouco, o filme Rio fez sucesso com uma Arara Azul que ficou associada ao Brasil e ao Rio de Janeiro. Essas aves colaram nos representando porque são animais do dia, solares e coloridos como é nosso país. Essas aves não só "falam" como o falam alto, fazem barulho, são associadas à alegria e ao bom humor. Elas têm tradição nesse quesito, por que desperdiçar esse gancho?

Os argumento pelo escolha são frágeis. O tatu é um animal em extinção, é verdade, mas ele e quantos mais? Ele representa o cerrado e a caatinga, ok, mas essas regiões não espelham o Brasil no imaginário mundial. Para fora, nosso país é selva e mar. O que aliás é ótimo, com eles estamos em um território de diversidade, imensidão, força e magia. Ou seja, temos uma natureza rica, uma fauna incrível, se queremos abrir nossas portas, especialmente ao turismo, não seria mais fácil pegar algo já registrado na cabeça de todos como um valor positivo?

Faça uma experiência simples: lembre ou pergunte a alguém quais são os animais que estão impressos nas notas que manuseamos todos os dias. Os acertos serão maiores para a onça, na nota de 50, para a arara na de 10, e o mico na de 20. Quanto às outras, a maioria vai ter que meter a mão no bolso e olhar. Enxergamos melhor o que já é conhecido, e esse é um princípio básico quando quer se fazer um novo símbolo que pegue. Esses são os momentos onde é o óbvio que conta pontos, a boa propaganda dá roupa nova a velhos arquétipos. Não somos condenados a sermos representados eternamente pelos mesmos símbolos, o novo pode e deve advir, mas nesse caso não estamos criando material para currículo de escola, um projeto para o país, o que conta é a eficácia de uma imagem que divulgue a copa e traga o maior número de pessoas possível, que passe uma imagem de um pais acolhedor, exuberante e aprazível. E se fosse mesmo para fazer um corte com a representação tradicional do Brasil, sempre ligada a um elemento da natureza, que escolhessem um símbolo cultural, por que não um duende como o Curupira? Seria um toque de magia indígena, autóctone.

A tentação para um psicanalista é interpretar esse tatu com um ato falho. A COL escolheu um animal fabril (sim, para isso ele serve, ele constrói buracos, intervém na natureza) pois nada está pronto para copa e conviria chamar mais um operário. Um especialista em terra ajudaria nos túneis e estradas que ainda não saíram do projeto. Ou então o que retorna seria a personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato, símbolo do Brasil provinciano, inculto, doente e pobre. O país cresceu, livramo-nos do Jeca e ficamos com o Tatu. Seria ele o que restou da nossa jequice?

É a segunda bola fora no quesito imagem e propaganda. O símbolo da copa, aquelas mãos em verde e amarelo tampouco estão à altura do que podemos fazer. O design e a propaganda no Brasil fazem coisas muito melhores.

Que fique bem claro minha adesão ao projeto da copa no Brasil. Sou um entusiasta, creio que o Brasil tem condições de fazer uma copa como qualquer outro país. Tampouco acredito que esse dinheiro gasto em infra-estrutura seria melhor investido em escola, hospital, esse argumento tolo das prioridades. Essa conversa soa como deixar de fazer o Natal para economizar e trocar a geladeira, cancelar as férias para pagar um plano de saúde melhor. Quem realmente faz isso? É incrível como tem quem dá conselhos que não segue.

A questão que me preocupa é outra: se a inteligência que vamos usar para fazer a copa pode ser medida por decisões como essas, começamos com um gol contra.

Publicado no Jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
Sábado, 29/09/2012 N° 17207

VELHAS DESCULPAS DO CAMPEONATO BRASILEIRO:

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Começo do Brasileirão:

A meta é ser campeão depois de tantos anos, esse time pode chegar lá. É o plantel dos sonhos.

Vigésima rodada:

Ser campeão é difícil, mas não impossível, as lesões e as convocações atrapalham. O culpado é o calendário.

Trigésima rodada:

Três vitórias consecutivas despertam a esperança. Três derrotas seguidas devolvem a melancolia. Ser campeão é impossível, mas a meta agora é a Libertadores. Troca-se técnico, arruma-se um ídolo para disfarçar a desorganização tática.

Trigésima terceira rodada:

A vaga para a Libertadores está cada vez mais inacessível, mas a vaga da Sul-Americana é a meta. Afinal, a competição significa o melhor atalho para a Libertadores. A direção jura que prefere a Sul-Americana do que a Libertadores, por uma estratégia competitiva. "É mais fácil", diz o presidente. 

Trigésima quinta rodada:

Complicou a colocação para a Sul-Americana, porém o time não desiste. A desculpa muda de natureza. Não mais as lesões, as convocações e a falta de entrosamento. O vilão pelos pontos perdidos em casa é o árbitro. O campeonato foi comprado.

Trigésima sétima rodada:

É tarde para trocar de técnico de novo. Até porque é necessário apostar num nome, defendê-lo das críticas e garantir sequência de partidas. A disposição passa a ser outra: fugir da zona do rebaixamento e escapar do quarteto da morte.

Última rodada:

Foi difícil, mas o time se superou com o apoio da torcida. Com raça, a equipe pegou junto, esteve unida e superou as adversidades. Conseguiu seguir na primeira divisão. Manter-se na elite do futebol nacional é um troféu moral, quase o mesmo que ser campeão brasileiro.

D`ALESSANDRO TREINADOR

Fabrício Carpinejar

O cargo do Fernandão estava ameaçado e quem se ferrou foi Dorival Júnior, de novo.

Já é costume o Dorival decepcionar no Beira-Rio e ser despachado pelo seu antigo diretor técnico.

Tornou-se piada interna.

Flamengo ajudou a recuperação do clube gaúcho. É uma colmeia em fuga. O único brilho vem de um Vágner Love isolado e renitente.

A goleada de 4 a 1 em cima do Mengo na tarde de domingo (2/9), em Porto Alegre, foi uma miragem.

Não pense que houve a retomada natural de gols do colorado, que ele desencalhou (leia texto abaixo).

O time não mudou, a grande diferença de vitalidade não se deve ao esquema tático armado pelo Fernandão, mas ao retorno do fabuloso D`Alessandro.

O febril argentino bombeou o sangue do elenco, foi uma transfusão de equilíbrio e consistência. Terminou a anemia do meio-campo.

Ele ressuscitou Forlán e Damião com passes exatos e triangulações inteligentes.

Forlán ganhou duas barbadas e não perdoou.

Damião agiu como pivô, servindo seus colegas de área, e também guardou o seu em corajoso peixinho.

Hoje a torcida descobriu que D`Alessandro é o verdadeiro treinador colorado (o declínio de Dorival coincidiu com sua lesão).

Enquanto estiver em campo e disposto, o campeonato está a salvo.

FERNANDÃO PRECISA DE SORTE?

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Nos últimos quatro jogos no Campeonato Brasileiro, o Inter fez um ponto de doze possíveis, perdeu três (Corinthians, Grêmio e Coritiba) e empatou uma (Portuguesa). Em 360 minutos, alcançou apenas um gol. E de um zagueiro, Juan, de cabeça.

O ataque deixou de existir no comando de Fernandão, logo ele um cabeceador nato e da estirpe matadora das horas decisivas.

Leandro Damião - conhecido pelo seu letal oportunismo - não vem encaixando o chute.

O astro uruguaio Diego Forlán - famoso pela sua pontaria - vem errando lances inacreditáveis na cara do goleiro. Contra o Coritiba e o Grêmio, foram de uma displicência infantil.

O time não se fala, não se comunica, não se ajuda, não tem posicionamento.

Todos os centroavantes que deixam o Beira-Rio por amargar a reserva voltam a encontrar a artilharia em outros escudos: Andrezinho (Botafogo), Alecsandro (Vasco) e Jó (Atlético). Será que é puro acaso?

Ao longo das coletivas, Fernandão vem culpando o azar: a bola não entra. Só faltaria a bola entrar e tudo mudaria.

A bola não é filha da casualidade. Mas da técnica e do talento.

Como um treinador, que encarna a figura da ciência do campo e do conhecimento aplicado, pode alegar que o time só perde em função da sorte?

É negar seu papel, é cuspir em seu salário, é anular sua função.

Se futebol é sorte, o Inter deveria chamar um macumbeiro, um cartomante, um bonequeiro de vodu, um xamã, enfim um especialista na área, para comandar o elenco.

Em desmoronamento de edifício, o engenheiro responsável pela obra não terá a ousadia de explicar que foi o vento.

Não é que a bola não entra, não há esquema vitorioso, não há jogada ensaiada, não há tranquilidade para estufar as redes.

A falta de gol não representa um detalhe, é a essência do drama colorado.

É uma farsa a frase "jogamos bem, mas infelizmente não marcamos". Jogar bem é fazer gols, equação simples, sem firulas.

A pressa e ansiedade são sintomas do desentrosamento. O passe errado e o desespero são consequências do despreparo. 

O plantel desaprendeu a amar o futebol.  Ele atua noventa minutos como se fossem os descontos de uma derrota: chuveirinho na área e chutão pra frente.

A bola não entra, Fernandão, por carência de treino.

LIÇÕES DO GRE-NAL

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Não é tão difícil entender a contratação do Fernandão como técnico. Ele entra no vácuo da melancolia: Dorival. O Roth, pelo menos, inspirava uma ojeriza difusa, uma vontade de xingá-lo. Dorival transparecia a modorra feito gente. A grama onde pisava murchava, dando um trabalho extra aos jardineiros.

Fernandão significou a aposta para exorcizar a depressão, a falta de ânimo, um nome para retomar a virilidade que Dorival esqueceu nem sabe aonde, mas que nunca chegou à Porto Alegre. Além disso era a única chance da direção fazer um erro duplo, isso não passa todo dia na frente: improvisar um técnico e queimar um gerente de futebol. Dois coelhos com uma só caixa-d'água, como diria o saudoso Vicente Mateus.

A direção caiu no senso comum do brasileiro, acha que técnico qualquer um pode ser. O engano vai ser visto ao longo do segundo semestre e já começou. Claro que o problema era anímico, que faltava comando fora e dentro de campo. Mas precisávamos prioritariamente dum estrategista não de um motivador de vendas. O Internacional gasta fortunas trazendo os melhores soldados e economiza para pagar o general. Seguramente é o melhor plantel do país, mas que ninguém consegue fazer disso um time. Pior, trazemos alguém de dentro, comprometido emocionalmente – no melhor sentido, são amigos – com atletas que talvez tenham que ir cuidar dos netos. São legendas queridas, que ajudaram muito, mas que é hora de uma mão firme de fora dizer que basta.

A gestão Luigi será conhecida futuramente como o tempo do Banco Imobiliário. Vence quem mais compra e vende. Aliás, é uma direção marcada pelos negócios. A infindável novela da reforma do estádio, agora a briga contra a interdição do estádio, as grandes aquisições internacionais como Diego Fórlan. Se o campeonato brasileiro não fosse de pontos corridos e sim de saldo entre compra e venda estaríamos em primeiro. Janela de contratações existe para os outros clubes, aqui é porta. Jajá é contratado e logo é vendido. Oscar teve larga defesa em tribunal para ser negociado secretamente com Chelsea.

Inter foi escola de futebol até 2010. Hoje é MBA de gestão empresarial. Ocupa mais o caderno de economia do que do esporte.

O torcedor vê o Inter na vitrine mas nunca em campo. É como presente de aniversário onde a caixa gigantesca guarda uma lembrança simbólica.

Fernandão é um capitão improvisado de treinador, um atacante defendendo pênalti. Seu treino é secreto porque não existe treino. Há uma carência de liga emocional entre os jogadores, de entrosamento mínimo, de saída coletiva, de jogada ensaiada.  Seus comandados jogam cada um por si, sem antevisão do posicionamento do colega. O colorado é uma cabra-cega pastando no Beira Rio.

E a situação deve se agravar. Se Fernandão não firmava o time com ralas opções, não acertará de modo nenhum com o excesso de ofertas. No Gre-Nal, por pouco não colocou vinte e dois jogadores na partida. Tentou reverter o resultado desfavorável sacando do banco Dagoberto, Dátolo, Rafael Moura...

Quando voltar D`Alessandro do departamento médico, o que ele fará? 

Ele não resolverá complexidades pois se complica todo em questões simples. A zaga, por exemplo. Precisava valorizar o sangue novo, como Rodrigo Moledo e Juan, mas insiste em compor a dupla com Bolívar e Índio.  

Como provavelmente o Internacional não vai mudar de técnico, nossa previsão para o torcedor no segundo semestre:

- Você se aproximará da esposa como nunca antes e assistirá comédias românticas no final de semana.
- Não perderá nenhum tema de seus filhos.
- Reencontrará amigos do colégio.
- Conversará mais com a sogra.
- Cogitará se tornar síndico.

Porque da poltrona da TV ou do estádio, o fanático desejará distância. Bom, para não alardear que somos pessimistas, acho que uma vaga para a Copa Sul-Americana sai.

ATIRADOR DE ELITE

Fabrício Carpinejar

Nelinho, do Cruzeiro: sai da frente!

Um time campeão pede um cobrador de falta. Corinthians tem Alex, papou a Libertadores e o Brasileiro. Palmeiras tem Marcus Assunção, ganhou a Copa do Brasil.

O cobrador de falta é o segundo capitão. O xerife do ataque. A possibilidade de salvar o jogo quando nada funciona.

É um gerador de luz nos apagões do talento. Quando a bola não quer entrar, ele surge com força ou jeitinho para impor a vantagem. Assegura tranquilidade no nervosismo das prorrogações.

É o suspiro de esperança quando não resta sopro, é o que mantém o torcedor na arquibancada durante os acréscimos. 

O cobrador corresponde a um atirador de elite, aquele que fica no telhado com a mira do rifle esperando a mínima movimentação do goleiro para surpreender as redes. 

Os melhores plantéis sempre forjaram um cobrador em suas fornalhas. Não necessitava ser um craque, desde que não comprometesse a partida.

O Atlético Mineiro dos anos 80 contou com o canhotaço de Éder. Cruzeiro dos anos 70 se valeu da potência de Dirceu Lopes e Nelinho (sua força estrondosa está exemplificada no Guiness Book, conseguir chutar uma bola para fora do estádio do Mineirão). Flamengo brilhou com Zico, Tita e Júnior. Vasco reluziu com Roberto Dinamite. O Inter esbanjou títulos com Valdomiro e Jair em sua década vitoriosa no Brasileirão. São Paulo chegou ao tri da América e Mundial com Rogério Ceni e Raí. O timão nunca desprezou a essência desse personagem predestinado: Zenon, Neto, Marcelino Carioca.

Não há título mundial brasileiro que não requisitou de um matador de falta em suas trincheiras. Em 58 e 62, Didi e Garrincha desfilaram sabedoria e malandragem. Em 94, Branco fez a diferença. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos revezaram os tiros de misericórdia.  A seleção brasileira de 70 alcançou a proeza de juntar cinco grandes finalizadores a distância, um verdadeiro pelotão de fuzilamento formado por Gérson, Rivelino, Pelé, Tostão e Jairzinho.

Preparar um cobrador é cuidar da validade do extintor de incêndio e viabilizar saídas de emergência imediatas. É pensar no futuro.

Falta perto da área é quase inevitável, mesmo diante da zaga mais educada (já o pênalti é um milagre, e os juízes estão cada vez mais céticos diante das encenações constantes dos atacantes).

Equipe que se preza reivindica um batedor.  Um personagem unânime no grupo, o que treina um pouco mais com o fim do coletivo.

Acontece uma falta, e não existe confusão, protesto e briga para definir quem assumirá o lance. Está definido pelo treinador desde o início dos tempos. Ele aparece de longe e com a calma de um veterano. Transpira a exclusividade e o carisma de um líder - os demais se afastam por respeito. 

Todos sabem quem ele é, devem saber ao menos, para temer. O batedor vem com seu sangue-frio pegar a bola, ajeita a redonda na grama e dispara seu petardo ou com efeito ou com violência.

O colorado está carente de um cobrador, de um coringa. D`Alessandro não vem cumprindo a missão - é irregular e instável (poucos gols em cinco anos, mal enche as mãos). O último que apareceu no Beira-Rio foi Andrezinho (hoje no Botafogo), mas ele era um reserva de luxo e nem sempre estava em campo para chamar a responsabilidade.

O cobrador não é um acessório, mas é a alma da competitividade.

No caso do Inter, que já teve uma linhagem formidável de Mário Sérgio a Rubem Paz, não desfruta sequer de um cobrador de pênalti fixo.

Isso aponta para a ausência de liderança no vestiário e de referências em campo. É a manifestação da desordem, o aviso do caos.

Definir tarefas é a principal tarefa do técnico, e deve ser a preocupação imediata de Fernandão.

A bola parada é competência num jogo feito de sorte e azar.

A ALMA HOOLIGAN E O CREPÚSCULO DO MACHO
Mário Corso

Russos e poloneses em confronto na Eurocopa: era para ser só um jogo de futebol

Existe uma personagem oculta na Eurocopa 2012: a polícia. De uns anos para cá, ela tanto se sofisticou em prevenir os conflitos entre torcedores fanáticos que eles estão minimizados. Não foram os hooligans que perderam a força, é a repressão que os mantêm na linha. Quase todos os países europeus têm problemas com eles, mas foram trocando experiências e criando políticas coercitivas até que se chegou a um equilíbrio de controle.

O Estado os combate, mas nunca entendeu seus motivos. Creio que tampouco a intelectualidade europeia se debruçou o suficiente sobre eles para saber qual é a bússola que usam (se é que a tem), as razões da sua fúria besta, seu amor desmesurado por uma bandeira clubística e, ocasionalmente, por sua seleção. Afinal, quem são esses brigões da pequena causa? O que querem esses rebeldes de uma causa tão rebaixada? Por que jovens trabalhadores europeus, vários com empregos razoáveis, remuneração idem, preenchem sua vida com futebol, brigas e álcool? Por que essa violência gratuita e sem sentido os cativa?

A questão é complexa, multifacetada, mas creio que uma das chaves para entendê-los passa por pensar nos deslocamentos da identidade masculina do século 20. E, é claro, simetricamente, no novo papel da mulher. O mundo industrial já fez do trabalhador peça de uma engrenagem que o transcende. Há uma alienação básica, mas ao menos ele era homem, entre outras coisas, porque ia para rua trabalhar, cabia-lhe trazer o pão para casa. Ser homem estava ligado a esse lugar social e familiar, a mulher estava em casa nos seus afazeres domésticos e subordinada ao marido. Socialmente o homem tinha o papel principal, mesmo que algum indivíduo fosse sem valor, ele seguia superior à metade da humanidade. Por sorte, isso mudou drasticamente: a mulher conquistou um lugar no espaço público, saiu da tutela do homem e hoje ganha para seu sustento. Dentro do casamento, outrora berço da tirania masculina, ocorreu o mesmo, não existe mais a assimetria onde a mulher era submissa, não autorizada a pensar e ter opiniões. Enfim, o trabalho já não ajuda a definir o que é ser homem. Ganhar dinheiro tampouco, mandar na mulher também não, o que é ser homem então?

O século 20 foi, infelizmente, pródigo em guerras. As guerras convocam o homem para um dos arquétipos da condição masculina, o guerreiro. A I e a II Guerra, depois a Guerra Fria e as lutas anti-coloniais, apesar do cataclismo humano, forneciam um lenitivo para a identidade masculina. O varão seguia nesse ponto útil, indispensável, um peça valiosa da engrenagem bélica. A economia e os valores da modernidade esvaziavam a representação da figura clássica masculina, como provedor e mestre, mas a guerra lhe contrabalançava o prestígio como soldado. O que fazer agora que a Europa se pacificou?

Observamos no século passado o declínio de todas as formas de filiação, daquilo que nos faz pertencer a um grupo. Todas tornaram-se mais frágeis, elas já não amarram uma identificação como antes. Ser inglês, francês ou alemão numa Europa que usa a mesma moeda e tem fronteiras abertas já não define claramente alguém. A cultura de massas avançou sobre as culturas locais e tradicionais, dando vida a novas personagens de identificação para sonhar, a globalização da cultura dilui fronteiras, vários povos cultivam os mesmos heróis e vilões. Os ofícios tampouco lembram as antigas guildas e corporações, com seus códigos e costumes, além disso os homens trocam de profissão, e mesmo as diferenças entre os ofícios não são claras. O que vale é ter dinheiro e não como se o obtém. Poucas profissões ainda devolvem uma imagem que sirva como âncora identificatória.

Da parte das religiões o quadro não é diferente, o mundo desencantou, e o papel das crenças ficou secundário, pouco definidor, apenas funciona para os poucos que se tornam radicais em tentar fazer valer o mundo antigo da religiosidade perdida. Ser católico, anglicano, ou protestante tanto faz, talvez o judaísmo e o islamismo ainda costurem um sentido peculiar, que não se confunda com o establishment convencional. Os grandes partidos políticos também são uma sombra do que foram, especialmente no sentido de uma escolha política definir uma identidade que dê sentido a uma vida. Não existem mais brigas por causas, talvez a ecologia seja a exceção, mas essa é, ou deveria ser, de todos. Enfim, vivemos a falência das formas tradicionais de identificação, das ideologias e das filiações, portanto cada vez é mais difícil saber quem se é e a que grupo pertencemos.

O homem de hoje segue trabalhando, com mais exigências de desempenho, e sem as regalias antigas, ainda que ilusórias, de seu gênero. Vê a mulher seguir seus passos e muitas vezes o ultrapassar; não sabe como ser amado e admirado por elas, antes bastava ser homem, hoje ele não sabe o que elas querem. O homem está solto, avulso no plano das ideias. Sem nada em volta que lhe devolva uma imagem do que ele é como cidadão e tampouco uma consistência viril, outrora refúgio das certezas. Resta-lhe o futebol, a paixão por um time, a violência da rua, essa inequivocamente, um lugar de machos. O hooligan é o homem que não conta com uma guerra, então a inventa; não tem mais uma nação, uma causa, porém achou um clube para incondicionalmente e irracionalmente amar. O totem clubístico vem no lugar do pai decaído, da nação diluída, o time é a única tribo que consegue amar. O time não lhe pede nada e lhe diz atrás de que cores ele poderá vibrar para se sentir parte de algo.

Outro fato intrigante dessa questão é que os valores do individualismo cruzaram o século em alta e a tendência é seguir nessa direção, por que então um comportamento de massa, onde o indivíduo se funde no anonimato, consegue adeptos tão entusiastas? Talvez o hooligan seja também uma denúncia de mal-estar na individualidade, um protesto em ato. Ali alguém deixa de ser ele mesmo para pertencer a uma multidão, imerge no mar do não ser, aceita a vontade coletiva, quer estar num rebanho que economiza a reflexão.

O comportamento hooligan é a subversão das demandas por ser em nome próprio, de carregar o peso de ser original e ímpar, é a vontade de ser massa e descansar a cabeça das exigências abstratas, intangíveis, que são colocadas ao homem de hoje. Os hooligans são uma resposta fácil, barata, ingênua e bruta dirigida à esfinge que pergunta ao homem o que ele é. Ao invés de olhar para frente, ele olha para trás, junta os farrapos dos uniformes dos avós e faz uma bandeira anacrônica e sem sentido, que já não honra ninguém, uma caricatura de soldado num simulacro de guerra. Só extrai sentido social nessa cruzada patética contra a polícia e contra outros, tão perdidos como ele. Bebe a última gota de uma imagem masculina que já não se sustenta. É a imagem do ocaso do macho tradicional.

Publicado no Jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p.6 Edição 17116
Porto Alegre (RS), 30/6/2012

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