MILAGRES POR ENCOMENDA
Fabrício Carpinejar

Milagres não podem ser encomendados no futebol.
Conclusão que chegamos com atraso. Não era possível tele-entrega de milagre no Beira-Rio.
- Ei Jesus, pode entregar três a zero sem susto na Padre Cacique? Não demora muito, tá? Tem cinqüenta mil crianças famintas aqui. Se possível, em trinta minutos...
Não dava, né?
Milagres surgem dentro do jogo, por obra e mérito do jogo, pela reação incontrolável do ataque. Não existe modo de ser premeditado, planejado pela direção. A desvantagem da primeira partida exige uma atitude controlada e menos precipitação (recordemos da afobação nas finais de 1987 e 1988, no Campeonato Brasileiro/Copa União, contra o Flamengo e o Bahia, e o mesmo fracasso da segunda partida diante do placar desfavorável da primeira).
O que atrapalhou o Inter nesta quarta (1º/7) contra o Corinthians foi o milagre. Teve mais fé do que futebol.
O milagre tensionou a equipe antes do tempo. Atletas desesperados antes de começar. Monopolizaram todas as tabelas pelo meio, privilegiando o toque ao invés de acessar os laterais. Com a marcação cerrada do Timão, Taison e D'Alessandro desapareceram. Bolívar e Kléber apanharam atrás e não conseguiram apoiar na frente.
A pressa do milagre apagou o Inter. A bola escapava com rapidez, a posse logo era cedida para o adversário. Faltou liderança dentro e fora de campo. Faltou sangue-frio.
A equipe mostrou-se profusa e desordenada à semelhança dos torcedores aflitos, ao invés de tranquilizar os torcedores com a segurança das investidas. Parecia que os paulistas atuavam em casa.
As chances de Nilmar no primeiro tempo foram de qualquer jeito.
Quando um jogador precisa passar por meia frota inimiga para recuar alguma coisa está terrivelmente errada. Era o que acontecia. Guiñazu limpava um, dois, para voltar e começar de novo.
Corinthians fez o que o Inter deveria fazer em 45 minutos: dois gols, de Jorge Henrique e André Santos. Corinthians fez o que o Inter deveria fazer: abrir pelas pontas, buscar o contra-ataque, mudar de lado, esperar o bote.
O Inter deveria ter esquecido o resultado anterior (derrota pela diferença de dois gols no Pacaembu) para se concentrar no momento. Pensou nos juros da dívida e não em modos de quitá-la.
Desespero está longe de representar determinação.
Corinthians do discreto Ronaldo e do regente Jorge Henrique mereceu o título da Copa do Brasil. Compacto, orgânico e equilibrado. Mano Menezes montou uma equipe sem arestas, sem avalanche, sem destempero.
Alecsandro, que empatou a partida com dois gols, e Andrezinho aparecerem como os melhores do colorado, justo porque estavam na reserva. Não participaram da histeria molecular, da inconseqüência hormonal do início.
Inter apareceu como adolescente diante de um pai de família responsável. Briguento, maníaco de razões, estourado como mostrou D' Alessandro (expulso) e Bolívar (cartão amarelo).
Perdeu para a ansiedade. Confiou no destino e abandonou sua inspiração.
INTER E CORINTHIANS:
VINGANÇA ACUMULADA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Futebol é vingança.
Um jogo nunca termina, resposta de um escore anterior. De uma derrota amarga. De um erro de arbitragem. Da influência da cartolagem. De uma intervenção divina.
Rivalidade é vingança acumulada: os dois times têm um recalque para superar.
O apito final é um mero detalhe, uma formalidade para enganar a aflição e prevenir ataques cardíacos.
A seleção brasileira entrará infinitamente no estádio Sarriá para enfrentar a Itália. E se recuperar do 3 a 2 que eliminou a esquadra maravilhosa de Zico, Sócrates e Falcão da Copa de 1982. Até cansar de ganhar. Assim como a azzurra se vingou da goleada de 4 a 1 na decisão de 1970.
O carma pode durar meio século. O Brasil não se recuperou do Maracanaço, o naufrágio de 1950 diante do Uruguai com mais de 200 mil torcedores esperançosos de uma ultrapassagem simples.
Inter e Corinthians são duas equipes altamente rançosas, enérgicas, populares. Não é a Copa do Brasil que será arrebatada na noite dessa quarta (1º/7), às 21h50. É outra coisa. Funda e pantanosa, acima do inferno e longe do céu.
É a confirmação de caráter. É a procura da palavra derradeira, da lição de moral, da flauta militar, do silêncio súbito, da devolução do troco da história dos confrontos.
Inter estará se vingando do tapetão do Brasileiro de 2005, quando a suspensão de jogos garantiu o título ao Corinthians, da penalidade não marcada em Tinga no embate entre os dois times, na saideira daquele confuso campeonato.
Corinthians estará se vingando dos gols de Dario e Valdomiro, na conquista do bicampeonato colorado do Brasileiro, em 1976, do placar de 2 a 0 conduzido pelo exército de Minelli.
Transcorreram mais de trinta anos, mas a vingança é sempre agora, é sempre hoje, não importa o tempo. Muitos corintianos ainda pensam como que não entrou o chute de Ruço, que pipocou na trave.
Inter e Corinthians talvez sejam as formações mais vingativas e mais desesperadas do país.
Vingança é retroativa, nada fica para trás, nada fica em aberto. A estratégia é criar um trauma no outro para esquecer o próprio trauma. Repassar o trauma adiante. Livrar-se momentaneamente da sensação de luto imperdoável.
O Inter quer se redimir da vantagem de 2 a 0 do primeiro duelo no Pacaembu. Da falta cobrada com a bola em movimento de Elias que deu uma barbada a Ronaldo. Terá que aplicar três estufadas num sufoco interminável, sendo que o Mano Menezes não perdeu nenhum jogo por mais de dois gols.
Se não houvesse vingança, seria impossível.
Não é cruzamento para empate e retranca. Tudo ou tudo dos dois lados. Inter retorna com time completo, com Nilmar, Taison e D' Alessandro no ataque, Bolívar e Kléber nas laterais, Giñazu, Magrão e Andrezinho no meio. Não há desculpa, Tite armado de sua constelação de fuzis.
O Inter não está se vingando apenas do Corinthians, mas de si mesmo. Por Taffarel, um de nossos melhores goleiros que não ganhou nenhum título aqui. Por Tesourinha, impedido de participar da Copa de 1950. Por Oreco, comprado em troca da construção de um muro. Por todas as partidas que Escurinho ficou na reserva esperando entrar. Pelos dois pés destros e machucados de Carlitos. Pelos dedos tortos e quebrados de Manga.
Não se joga pelo futuro, e sim em nome dos ancestrais. Futebol é tribal e tendencioso. Um coliseu em que leões matam leões - homens são presas muito lentas e fáceis.
As goleiras do Beira-Rio serão esquinas de macumbas.
Compreenda, não é uma partida, é uma vingança. As veias latejam na ponta das chuteiras. Galinhas e galos entram no sacrifício ao longo da noite. velas crepitam, mandinga, quero-quero acendendo o inverno. A torcida pesa as arquibancadas para baixo.
A eternidade tem noventa minutos. Vermelha como o sangue.
SER SUPERIOR NÃO É SER O MELHOR
Fabrício Carpinejar

Corinthians teve o resultado ideal na final da Copa do Brasil no Pacaembu na noite dessa quarta (17/6): 2 a 0 sobre o Inter.
Não levou gol que dobra fora de casa. Manteve um escore folgado, duro de ser alcançado, e pode ainda correr de alma livre e sem culpa para arriscar seus ataques fulminantes de Ronaldo, Elias e Dentinho.
O Inter somente será campeão se conseguir a noite perfeita no jogo de volta no Beira-Rio, dia 1º/7: gol no início, o que significa acertar as finalizações e furar a retranca que será braba de Mano Menezes, e Lauro não poderá vazar de jeito nenhum, senão impõe a necessidade de uma goleada. E a perfeição pode ocorrer duas ou três vezes ao ano para um time muito bom. Não é caso de milagre, e sim de atuação impecável. Milagre é para time ruim.
A dialética do futebol vingou nos primeiros noventa minutos da decisão. Ser ou não ser, é e não é.
Porque o Inter foi superior ao Corinthians, mas o Corinthians foi melhor do que o Inter. Como isso?
Ser superior não é o mesmo que ganhar o jogo. Ser melhor não é o mesmo que dominar a partida.
A superioridade do Inter esteve exposta no conjunto, no volume, na macroestrutura. O detalhe é que faz o outro ser melhor. A superioridade é a capacidade de encaminhar resoluções, de propor situações de perigo; o detalhe é a capacidade de resolver. O Inter foi talentoso; Corinthians foi competente.
O timão criou dois ataques letais no princípio de cada tempo: Jorge Henrique aos 26 do 1º e Ronaldo destroncando Índio numa corrida desenfreada aos 8 do 2º. Dois incêndios nos momentos certos. Um time melhor trabalha o que precisa ser feito. Um time superior trabalha mais do que deveria ter feito.
Natural o clube derrotado culpar o juiz. Alegar erros imperdoáveis de Roberto Lopes, dizer que Elias bateu a falta em movimento que resultou no segundo gol, pegando a zaga colorada desprevenida, e de que Alecsandro sofreu penalidade explícita. Bom para catarse, não é o que formou o placar.
O Inter ficou no quase toda partida: ficou no paredão do goleiro Felipe. Taison tornou-se a encarnação da superioridade inofensiva, driblou como Garrincha, puxou uma tripa de paulistas para roda de samba, e vacilava na hora de concluir. Se ele tivesse limpado Felipe, se ele tivesse chutado antes quando furou a zaga, se ele... Talvez sentiu saudade de Nilmar. Taison cumpriu formidavelmente Taison, não poderia ser Nilmar. Taison gosta do drible mais do que do gol. Nilmar gosta do gol mais do que do drible.
Na ponta oposta, Ronaldo assumiu o modelo da eficiência. Apareceu três vezes com força, cumpriu uma delas. Paga seu cachê com uma simples arrancada.
Há duas escolhas para a torcida colorada: aceitar a instabilidade da emoção, aguardando reforços de D' Alessandro, Kléber e Nilmar, ou se desesperar diante da racionalidade da vantagem.
O heroísmo depende de tudo o que se perdeu antes.
CATIMBA E CERA
OU A ESCOLA DE CULPA BAIANA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Viáfara, goleiro do Vitória: tiro de meta em câmera lenta. Cera no estágio mais avançado.
"A arte e a técnica da catimba ao alcance de todos" é um livro anônimo. Ninguém conhece ao certo quem o escreveu, mas os estudiosos confirmam que veio da Argentina e foi aperfeiçoado no Uruguai. O manual apresenta as principais estratégias para vencer uma partida no cansaço.
Mas vamos às distinções de boteco, que cerveja nunca é igual.
Catimba é uma coisa; cera é outra bem diferente. Catimba acontece quando o jogo está ganho e a equipe deseja manter o placar favorável até o final. Muito empregada em finais de campeonato ou no mata-mata.

Argentina: catimbeiros originais
É segurar o jogo de propósito, com talento do blefe. Espécie de drible feito pela equipe inteira: manter a bola na frente, na linha do escanteio do adversário, ora cavando faltas, ora imprimindo ações repetidas à exaustão. A catimba produz ainda "olé" na torcida. Há garra, movimentação, entrosamento, chutão para a arquibancada para abafar contra-ataques. Em suma, ação, apesar de controlada.

Iarley: sua catimba ajudou o Inter na conquista do Mundial contra o Barcelona
Por sua vez, a cera somente cria bocejo. É a arte de vencer sem fazer gols. Ou melhor, empatar de qualquer jeito. Os adeptos da cera jogam para os outros não jogarem. Concentrados em dispersar a triangulação, desagregar o grupo, repelir tabelas. Uma disposição cavalariça para a deserção. WO que acontece durante a partida. Os jogadores depilam unicamente o gramado. Limpam os entulhos, aparam a grama.
Ao torcedor, significa pagar o ingresso para assistir ao jardineiro cortar o gramado. Não será um espetáculo, convenhamos. Xadrez teria mais emoção.
Prepare-se para tomar uma geladíssima... sopa de tartaruga. Exercícios de Tai-chi-chuan e meditação ajudam a se concentrar para a nulidade futebolística. O observador pensará que é medicação psiquiátrica e retardo mental, mas não, é treino e mais treino de cobrança de lateral; cera é o domínio da resistência ao futebol.
Trata-se de uma moleza filosófica, produto da técnica alemã e dinarmaquês do desespero, embebida das lições de "quanto pior melhor" de Arthur Schopenhauer e Søren Kierkegaard
Catimba é de técnico retranqueiro. A cera é executada pelo técnico medroso.
A catimba é uma ciência de conservação do resultado positivo, com passos muito claros, em que a briga e a pancadaria são calculadas. A cera é um aglomerado de desmandos e improvisos emergenciais. Mais do que isso, representa um estado de espírito da inutilidade. Nada pode acontecer. Nada pode dar certo. Você tem que acreditar, ser possuído pela lerdeza, maximizar cada movimento, enfim, não é para todos. Vai doer cada arremesso, o atleta será tomado de amnésia na saída da zaga(Onde estou? Quem sou eu?), esquecerá os fundamentos básicos do passe e do drible.
Os segredos e meandros da cera foram fartamente demonstrados no empate sem gols entre Internacional e Vitória neste domingo (14/6), no Beira-Rio.
Nunca cogitamos que a equipe da Bahia comandada por Capergiani teria a capacidade de aplicar um antijogo perfeitamente insuportável. Nem podemos chamar de suicídio, é um deicídio: Deus esteve morto durante noventa minutos. Onde se aguardava um trio elétrico, encontramos a escola germânica da culpa. Já no início do embate, o goleiro Viáfara (o nome parece de personagem tuberculoso de Thomas Mann) demorava a desferir o tiro de meta. Penteava o cabelo, coçava as costas, amarrava as chuteiras antes de tocar a bola. Faltou unicamente telefonar para sua mãe.
Adiamento é pouco. O mausoléu nordestino permanecia atrás. Uma preguiça de lápide e musgo. Um ócio nada criativo. Tanto que o juiz concedeu um minuto a mais dentro dos três dos acréscimos. Duas substituições surgiram para esmorecer a pressão do Inter. O zagueiro Bolívar empurrou Roger do Vitória para sair de campo. Os atacantes colorados ajudavam os gandulas na reposição da bola.
Os baianos não caminhavam, engatinhavam. A bola era um chocalho. Nenhuma criança teve sequer ânimo para chorar na rede.
Apague o confronto do Inter e Vitória da tabela do Brasileirão. Por amor à maternidade esportiva.
SÍNDROME DO TATU
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Na pequena área: todos têm razão na maior falta de razão. Lauro e Kléber mostraram o modelo moderno de suas chuteiras.
Homem crê que seu carro é uma ilha deserta. Que ninguém o enxerga.
Confia que é sua casa e os vizinhos estão longe. Confunde as quatro portas com as quatro paredes. Não percebe que está num aquário. As qualidades do vidro são mal assimiladas, sente a frieza e a solidez como de um azulejo e pensa num banheiro.
Tomado da impunidade, exercita o pior de sua solidão: mexer no nariz.
E não percebe que os ônibus passam, que as vans passam, que os outros motoristas reparam sua movimentação olfativa pelo retrovisor, que existem sinaleiras e engarrafamentos ideais para a espiadinha ao lado.
O homem não bota na cabeça que o automóvel não é um banheiro com rodas. Quem já não enxergou uma porrada de gente metendo a mão nas fossas nasais. Sem pudor. Colocando o cotovelo para dentro do desvio de septo. Desentupindo os poços. Partindo um cabide e entortando o gancho para uma prospecção mais profunda.
Não é coragem, é descaramento. Livre dos condicionamentos sociais, age com a tirania primitiva, selvagem. Se o nariz incomoda, coça com o indicador. Dança uma valsa de debutante com o indicador. Depois examina atentamente a caça, a consistência e o tamanho, antes de se livrar do efêmero troféu.
Acredita que está no último refúgio onde as câmeras do Grande Irmão não penetram. Deleita-se com a invisibilidade. Embora consiga ver a cor do batom que a mulher do carro ao lado passa nos lábios, mas não se dá conta que pode ser visto em delito. Estranha esquizofrenia automobilística.
No futebol, a pequena área é o carro dos jogadores. Partem da ideia de que o juiz e bandeirinha não estão enxergando, especialmente nas cobranças de escanteio.
Cotovelaços, empurrões, safanões, tapas, mão na bunda, dedo no olho, cusparada na cara, não há limites para os zagueiros e centroavantes. São tantas faltas num único lance que o árbitro não marca nenhum. Quem nunca esteve numa área durante um escanteio não tem a noção exata da palavra vilania.
Todas as regras podem ser aplicadas para o resto do campo, menos para a pequena área. Território do vale-tudo. É onde o jogador mexe o dedo no nariz. Do outro. E costuma sangrar.
Os goleiros são a parte mais sensibilizada, afinal acontece na casa deles, a pequena área é íntima como uma quarto de casal. Sofrem como uma dona de casa com visitas mal educadas, de pés sujos. Não dá para expulsá-los a vassouradas.
Neste domingo (7/6), no empate entre Inter e Cruzeiro no Mineirão, a síndrome do tatu arrebanhou mais uma vítima, o goleiro colorado Lauro. Sempre calmo e tranqüilo, pisou propositalmente no pé do atacante Kléber.
Kléber provocou o arqueiro com uma bicada de chuteira e Lauro revidou com uma agressão bem mais imponente. Os dois foram expulsos.

Renan não queria bater: estava somente se espreguiçando ou procurando apoio.
A mesma doença da infabilidade atingiu o goleiro do Inter do ano passado, Renan (hoje no Valência), no Gre-Nal de 370. Numa saída simples, Renan esticou a perna para chutar Rodrigo Mendes, do tricolor. Para quê? Pênalti mais do que gratuito, que garantiu o empate ao adversário. O arqueiro alegou que se protegia e buscava o equilíbrio. Ou que se espreguiçava durante o vôo e necessitava de mais espaço para as pernas.
Faz favor... O mais grave da violência é a justificativa furada do agressor.
O que Lauro imaginou?
Como seu antecessor nas traves do Inter, que não seria visto. Inventou de cair no chão para fingir uma contusão - não colou. Talvez intuiu que escaparia do castigo pela confusão, pelo acúmulo de atletas numa jogada, pela multidão agitada. Mas e as câmeras de tevê?
Foi ingênuo. O ingênuo é aquele que não conseguiu ser malandro secretamente. Fracassou ao esconder sua maldade. Pois o que mantém a maldade invisível é elogiado. O que bate e não é pego recebe a adesão do estádio. Termina considerado um líder, um guerreiro, Spartacus da Lei de Gérson.
Lauro não foi criticado por ter mexido no nariz, mas por ser flagrado.
Algo está seriamente gripado no futebol. Congestionando o cheiro do gol.
Ou se coloca vidro fumê na pequena área ou se dá carona ao juiz.
O ANIMAL TORCEDOR
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Fotografia de Mirian Fichtner
Torcedor não se mistura - que digam as torcidas organizadas! Há charangas em cada setor do estádio e fora dele. É mudar de portão que mudamos de jogo. Experimenta sentar na Geral e sofrerá um abalo sísmico digno do México. Não dá para cruzar as pernas. É vivenciar um dia no corpo de Ivete Sangalo.
O torcedor vem se transformando drasticamente, não é mais a "lagartixa profissional" denominada por Nelson Rodrigues, aquele que subia pelas paredes. São outros bichos que tratamos de catalogar, seguindo as resoluções do último Congresso de Psicanálise do Esporte (Estocolmo 2007).
Corvo (torcedor depressivo)

Gato (torcedor bipolar)
Odeia multidão. Foi traído pela mulher e lustra seus cornos como medalhas do exército. Aproxima-se do time quando queima no inferno. Curte uma segunda divisão. Realmente sofre com o rebaixamento e derrotas no final de semana. Identifica-se plenamente com a má fase. Quando o clube se recupera, tende a se afastar, alardear que a bonança é passageira, que não estamos tão bem assim. Recorda-se sem parar dos dias das derrotas, dos jogadores machucados, das bolas nas traves, dos gols não marcados, dos títulos perdidos. O quase gol é narrado como se fosse o verdadeiro gol.
É avarento, compra a camisa do time em liquidações de camelô.

Ele está todo enrolado, ronronando, gostando da carícia. E do nada, dá uma unhada. Pois assim é o torcedor bipolar. Ama seu time, acha que é o melhor time do mundo, agradece aos céus por ter um avó desse time, um pai desse time e freqüentar a confluência de gerações no amor pelo time glorioso, maravilhoso, invencível, no rumo certo a Tóquio. No domingo seguinte, após uma derrota, diz que seu time é uma merda, que a culpa é do seu pai, que ele é um fracassado e ensinou a amar um time fracassado, que está caindo para segunda divisão de uma forma inapelável. O torcedor bipolar não lembra na semana seguinte o que falou na anterior.
Leão de zoológico (torcedor hipocondríaco)

Esse torcedor anda de médico em médico até achar um cardiologista (mas pode ser um dermatologista) que lhe proíba de assistir os jogos do seu time. Não pode nem na TV, nem no rádio, campo então nem pensar. Ele alega que seu coração não agüenta e vai morrer torcendo. Tenta em vão convencer os médicos do seu estado terminal, mas eles têm a mania de se basear em exames, e os exames não acusam nada. “Claro que estão bons – diz o hipocondríaco - "eu não estava assistindo a um jogo durante o exame...”
Não gosta de futebol e não tem como largar perante os amigos. Por uma questão de hombridade, finge que não pode adoecer com as partidas, pois tem filhos para criar. Costuma morrer vendo o Faustão.
Hiena (torcedor paranóico)

Seu time tem um elenco irretocável, mas não ganha por culpa da imprensa, que é dominada pelo rival, fica só falando das falhas e das derrotas e puxando seu ego para baixo. Os jornalistas não mencionam seu time senão quando é impossível não lembrar, e num espaço simbólico.
Seu time é um diamante bruto, mas está debaixo da lama por culpa da diretoria que é dominada por uns burocratas vampiros que roubam o patrimônio e o torcedor.
Seu time empatou ou perdeu por culpa dos árbitros. De outros estados, perseguem seus jogadores, deixam os craques serem caçados e destruídos em campo e marcam qualquer faltinha boba de sua equipe. São todos uns fias das...
Ele só reclama, não tem tempo de formar a própria opinião. Usa sabonete líquido para evitar pêlos estranhos. Olha mais para trás do que para frente. Perde a maioria dos gols observando os gândulas.
Caramujo (torcedor fóbico)

Torcedor reprimido, que não deixou o criado-mudo, quiçá o armário. É um caso difícil. Ele tem medo de ser reconhecido pelos colegas do trabalho, pela própria mulher e pelos vira-latas dos viadutos. Torce em silêncio, disfarça o seu time, mente que não está nem aí para futebol. Escuta o jogo num radinho de pilha fechado no banheiro. Quando perde, tranca o choro. Quando ganha, mostra um sorriso, mas procura não se exaltar, é absurdamente contido.
Arca com uma prisão de ventre, que pode durar três rodadas.
Todos os quadros de patologia do torcedor incluem o item superstição, mas o fóbico atinge o ápice da extravagância. Cada cueca, cada camisa, cada camisinha tem uma planilha de possibilidades dependendo dos últimos jogos. Leva uma hora para botar a roupa nas decisões.
Macaco (torcedor de dupla personalidade)

Não acompanhou nenhuma rodada, nenhum lance, não é capaz de sussurrar o nome de um jogador vivo e, de repente, descobre que seu time é campeão e festeja com a arrogância de seu aniversário.
As carpideiras eram mulheres contratadas para fazer número e chorar em velórios pouco freqüentados. O macaco é o cabo-eleitoral de aluguel. Nunca foi oposição. Surge para buzinar e soltar foguetes sem ter participado da batalha. Funciona por lobby, para dividir o status e levantar a taça. Egresso de uma longa trajetória em cargos de confiança. É o puxa-saco governista.
Hamster (torcedor melancólico)

Gira e gira e permanece no mesmo lugar. O bom time já foi, e os melhores dias não virão mais. Conhece de cor a escalação de vinte anos atrás e não consegue citar três posições do plantel de hoje. Não dá bola para a realidade, sua realidade está cravada num passado suntuoso. Recorda da época fugidia, fantasmagórica, quando tinha colhão e vontade de transar mesmo com um empate fora de casa.
Embora veja os jogos de costas, é o último torcedor a sair do estádio. Encolhido miseravelmente na arquibancada, enrolado numa bandeira gasta, relíquia da Guerra do Paraguai.
Lambari (torcedor Alzheimer)

Ele tem um time, só não lembro o nome, mas já está vinda na cabeça, é um que tem duas cores, ou são três? Que tinha um jogador que foi para a seleção na copa de... que jogava na... é o mesmo time do... que depois foi para o... foi campeão!
Pediu para família bordar o distintivo do clube em todas as camisas, só às vezes ele não lembra bem o que é aquilo.
Pitbull (torcedor psicopata)

O time é uma excelente razão para encher de porrada os adversários ou de quem lhe atravessar na frente. Em caso de derrota, puxa briga para desafogar as mágoas. Em caso de vitória, puxa briga para afirmar sua superioridade. Em caso de empate, oferece cascudos e cicatrizes. Afinal, empate é uma droga, não é mesmo?
Não usa coleira. Vive em torcida organizada para aproveitar a bagunça e morder e babar à vontade.
Ornitorrinco (torcedor esquizofrênico)

Torcedor indefinido por natureza. Tem pé e bico de pato e é um mamífero. Pode ser final de Mundial e vai trabalhar normalmente. Há meninos que vestem, escondidos, a roupa da mãe. Aqui o problema é maior: ele pegava a roupa da avó durante a infância.
Deixa a mulher assistir a todos os programas no domingo. Nem utiliza o controle remoto.
Nos tipos mais trágicos (por sorte, raríssimos), é o torcedor que muda de time. Os doutores são taxativos, e não dão nem as falsas esperanças. Isso não tem cura. Pode internar e jogar a chave fora.
SOBRENATURAL DE ALMEIDA FILHO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Pelé em cabeçada mortal, na Copa de 70: Gordon Banks defende e aponta existência de Sobrenatural de Almeida
O futebol é místico. Os homens chegam perto da santidade e da abnegação. Tudo o que o torcedor não rezou para sua mãe é capaz de fazer pelo time. Há gente que atravessa o campo de joelhos ou caminha descalço cem quilômetros para agradecer a promessa de uma taça.
O Espírito Santo, portanto, recrutou um atacante secreto para gerar mais emoção aos jogos. O vidente Nelson Rodrigues foi um dos raros escritores a identificar sua presença inaudita. Deu até nome ao falso ponteiro. Caraterizava lances inexplicáveis como obra de Sobrenatural de Almeida. Um frango impossível, uma trovoada na pequena área, uma mudança de rota da bola seriam ações dessa entidade que não se fardava por detalhe, mas sempre entrava no gramado e revolucionava o escore.
Sobrenatural de Almeida é o verdadeiro Atleta de Cristo. O legítimo. Com certeza, já deve tê-lo farejado e pressentido. Marcou suas apresentações na maioria das partidas inesquecíveis. Na Copa do Mundo de 82, ficou do lado da Itália e de Paolo Rossi, ao enterrar o assombroso espetáculo da seleção canarinho de Zico, Socrátes, Falcão, Éder,Júnior. Ou aquela bobeada de Cerezo tem alguma explicação objetiva? Claro que não.
O que não tem explicação é responsabilidade de Sobrenatural de Almeida.

Paolo Rossi: discreto centroavante a escandaloso goleador do Mundial de 1982. Como?
O gol do juiz José de Assis Aragão ao 47 do segundo tempo representou uma das maiores molecagens de Sobrenatural de Almeida. Santos vencia o Palmeiras por 2 a 1 na final do Campeonato Paulista de 1983. Mal colocado junto às traves, o árbitro intercepta um cruzamento de Jorginho e garante o empate do verdão.
Sobrenatural de Almeida fez grandes tabelinhas com Pelé, Garrincha e Tostão. A seleção de 70 teve dedicação quase exclusiva dele. Nelinho do Cruzeiro e Valdomiro do Inter batiam faltas para a cabeçada do vento (ou melhor, de Sobrenatural de Almeida). O chute em curva, com efeito envenenado, desnorteava os goleiros. Folha Seca do Didi é invenção do Sobrenatural. A bola bate em seu corpo invisível localizado na barreira e entra por cima. Devido à tamanha parceria, não duvidamos que o botafoguense Didi não tenha sido pai de Sobrenatural de Almeida.
José de Assis Aragão, o juiz goleador: "Não tive culpa, foi Sobrenatural de Almeida..."
O Inter contou com seu auxílio luxuoso para escapar da segunda divisão. O canhão de testa do Dunga nos minutos finais do embate com Palmeiras em 1999 não tem defensoria pública. Um gol do veterano Dunga já soava inacreditável, de cabeça simbolizava uma proeza mediúnica. Põe na conta Dele.
Cenas antológicas do esporte que desesperaram a torcida de alívio ou de tristeza são façanhas desse inacreditável artilheiro, que às vezes volta para ajuda a defesa e imunizar os goleiros.
Equipe para ser campeã depende de sorte. Sem sorte, não consegue, ainda que com talento, supremacia tática e craques. O tricolor de 1995 de Jardel e Paulo Nunes enfileirava adversários nos acréscimos, nos impossíveis descontos. Tanto que ganhou a Libertadores aos mágicos trancos e apagões. Há gente que credita a glória à Luiz Felipe Scolari. Errado: é façanha de Sobrenatural de Almeida, que converte times medianos em agremiações vitoriosas e esquadras imbatíveis em fatalidades e escolas de morcegos.

Galatto defende pênalti do Náutico. Sobrenatural de Almeida sucumbiu na Batalha dos Aflitos. Exagerou nos milagres em cinco minutos. Ninguém acredita até hoje.
Macumba não resolve, nem sapo enterrado. Alho tampouco assusta esposa. Psicólogo não aplaca os traumas. Nada é melhor do que Sobrenatural de Almeida. Pena que ele morreu por excesso de trabalho. Seu falecimento ocorreu em pleno exercício da função, numa sobrecarga dramática e insalubre. No jogo entre Grêmio e Náutico conhecido como Batalha dos Aflitos, em 1995. Ele exagerou nos efeitos messiânicos. Momentos derradeiros do duelo: Náutico vai cobrar pênalti para definir a classificação para a Série A, Grêmio tem sete jogadores em campo. De repente, Galatto defende a penalidade (a segunda na partida) e Anderson limpa a zaga inteira de Recife e embala a rede. Grêmio de volta à primeira divisão num resultado incompreensível. Sobrenatural de Almeida só podia morrer mesmo.
O consolo é que deixou um herdeiro, Sobrenatural de Almeida Filho, que assumiu o negócio familiar de empresariar acidentes e prodígios da bola. E com igual competência misteriosa.
Desejoso de vingança pela morte paterna no confronto do Grêmio, protege o Inter no Campeonato Brasileiro (100% de aproveitamento com três vitórias e nenhum gol sofrido) e na Copa do Brasil (semifinalista). O Gigante da Beira-Rio anda enamorado de seus serviços. Uma sucessão de aparentes milagres justifica sua aparição e fama imediata. O gol de placar de Nilmar no Corinthians, a bucha de Andrezinho em cima do Flamengo no instante súbito e agora a defesa de Lauro em jogada do Goiás na rodada de sábado (23/5), no Serra Dourada. O que foi aquilo? Lauro estava inerte quando a bola bate nas canelas do volante colorado Sandro e segue forte para dormir no canto oposto. Não é um atacante adversário que completa o cruzamento, e sim um defensor do próprio time, em desvio altamente inesperado.
Lauro mergulha num reflexo e espirra a bola com a mão esticada. Uma cusparada de luvas. Questão de vida ou morte decidida em segundos. Mais impressionante do que isso somente o salto do inglês Gordon Banks (muralha mitológica da Inglaterra), numa cambalhota ao contrário, em cabeçada para o chão de Pelé, acintosamente letal, no Mundial do México.

Sorte colorada pode ser vingança de Sobrenatural de Almeida Filho pela morte do pai em jogo do Grêmio.
O Sobrenatural e o futebol não constituem capítulo à parte, é mais um lugar para nos assombrar. Não tem preferência por posições, às vezes revela seus caprichos a favor dos goleiros. Alguém ainda duvida que Lauro acabou “espiritado”?
Nenhum demérito em atribuir certas defesas ao Sobrenatural. É um elogio, já que ele não se afeiçoa a personalidades pequenas, acabrunhadas, toscas. Sobrenatural de Almeida Filho antecipa grandes destinos.
Senhores, ele não está preocupado se acreditamos nele. Existe e pronto. Não tem pretensões de convencer os céticos - apenas acontece. Fará justiça com as próprias mãos e injustiça com os pés.
Completou o milésimo gol no anonimato. Não alimenta vaidade, não procura os câmeras da Globo, bem acontece na frente delas e em mesa de bilhar num bar fuleiro de Cachoeirinha para dois espectadores.
Solto pelo mundo, dispersivo pela linha de fundo. Tal Saci (mascote do Inter) que surge quando quer e some num redemoinho de poeira. Beija quando excitado e larga a beldade nos primeiros sinais de tédio. O Sobrenatural pode ter simpatias, mas não um contrato, muito rarefeito para ser preso. Não casa, é um amante temperamental, fica enquanto lhe convém, enquanto ama e é cortejado. Prefere os amores doidos que se instalam na vida dos outros sem fundamentar o motivo e saem porta afora sem decretar o fim. O Sobrenatural muda de time na mesma partida, muda de lado no mesmo campeonato, volúvel conspirador do destino e amigo das intrigas.
Ao pensarmos que dominamos o futebol, ele aparece para confundir os olhos e criar novas dúvidas.
Coloque na súmula, por favor. O 23º jogador em campo é o Sobrenatural de Almeida Filho.
RESERVA TITULAR E MARADONA DOPADO
Fabrício Carpinejar

Hoje nem tudo é futebol para a torcida do Flamengo.
Hoje tudo é futebol para a torcida do Inter.
Isso para quem sobreviveu ao infarto na noite desta quarta-feira (20/5).
O colorado saiu vencedor aos 44 minutos do segundo tempo, em 2 a 1 eletrizante, e passa às semifinais da Copa do Brasil para enfrentar o Coritiba de Renê Simões. Foi uma decisão antecipada. O Flamengo mostrou-se destemido, com meio-campo compacto, boas assistências de Ibson, insistências barulhentas de Toró e um toque de bola rápido e objetivo entre Kleberson, Leo Moura, Juan e Zé Roberto.
Clássico nervoso, tenso, típico da série de mata-mata e da administração de resultados. Copa do Brasil é militar: para grandes estrategistas. Campeonato Brasileiro é civil: para os melhores técnicos.
O justo seria um empate. Um empate histérico que só existe na Copa do Brasil, quando gol fora vale dois e beneficiaria a Gávea.
Mas igualdade não rende boa ficção.
Sortilégio para a massa vermelha, fatalidade para a avalanche rubro-negra. O destino quis ironicamente que um jogador formado pelo Flamengo, Andrezinho, batesse a última cobrança de falta do jogo no ângulo do goleiro Bruno. Indefensável. O destino quis que Andrezinho selasse a vitória apertada, sem chance para reação, logo ele que estava apenas há quatro minutos em campo. O destino tem caprichos de romancista. Quem deveria cobrar era D' Alessandro, chutador oficial daquela e de outras distâncias. Mas Andrezinho se impôs, pediu a bola e fez. Avisou aos seus colegas: “jogador tem que ter personalidade”. Esbanjou temperamento, com aquela inconseqüência e talento trágico que formam os heróis. Se D' Alessandro errasse, não seria vaiado, assim como desperdiçou duas outras chances parecidas. Mas se Andrezinho turvasse a pontaria seria crucificado. Todos diriam que era exclusividade do D'Alessandro e ele roubou a derradeira oportunidade. O destino quis a soberba do subtexto.
Andrezinho renova a lenda de Escurinho (que entrava para definir o resultado na década de 70). É o reserva mais titular do colorado.
O destino quis que Nilmar ciscasse passe de Juan e disparasse, sinuoso, para servir graciosamente Taison na área. Lance absolutamente rápido - todo replay é insuficiente. Um a zero. Nilmar tem um jeito avoado entre os zagueiros, sugere que não está prestando atenção e de repente liga o motor e desaparece pelas pontas. É o falso distraído.
Com uma formação ofensiva constituída por Nilmar, Taison e D'Alessandro, todo ataque será um contra-ataque.
O destino quis que o Inter pagasse o valor exato da classificação e Lauro perdesse a invencibilidade de 639 minutos sem levar gol quando Emerson completou cruzamento na pequena área.
O destino quis que Guiñazu fosse o melhor na partida (o Rolo Compressor está virando o blog do Guiñazu). Deflagro uma campanha para a naturalização do argentino, que é o Dunga que Dunga nunca conseguiu ser. Ele corre e marca como um Maradona dopado. Não é somente a garra, é sua mobilidade feroz, acrobática, visionária dos desarmes. O volante mais completo que apareceu às margens do Guaíba.
O destino quis que Fernandão e Rafael Sobis (campeões da Libertadores) assistissem da arquibancada ao novo Inter, mordendo os lábios de nostalgia. Será que teriam lugar no time?
O destino quis, quem vai contestar a perfeição dos detalhes?
FORTALEZA INCANSÁVEL
(Lauro e Benitez)
Fabrício Carpinejar

Lauro não é um centroavante frustrado
Naquelas premonições de início de campeonato (edição de maio), a Revista Playboy apontou que o goleiro Lauro é o ponto fraco do Inter.
No empate emocionante de zero a zero entre o colorado e o Flamengo nesta quarta (13/5), pelas quartas de final da Copa do Brasil, o arqueiro superou tanto as falsas como as verdadeiras expectativas. Fechou o gol e ainda desfrutou da superstição da trave. Goleiro que não conta com amizade da trave nunca ganhará o respeito dos seus zagueiros.
Além da sorte, pegou um tiro à queima-uniforme de Ronaldo Angelim. Cintilância e elasticidade, força no punho e reflexo para garantir a igualdade e decidir a vaga no Beira-Rio. Não foi defesa de susto, de quem estava confortavelmente na direção da bola, e sim golpe procurado, obstinado, apanhando o urubu pela perna, em pleno vôo. Só não foi melhor do que o rubro-negro Bruno, que fez três milagres no finalzinho do segundo tempo.
Todos comentam o poderio ofensivo do Inter neste ano: 83 gols em 23 jogos. Com o Flamengo, o Inter mostrou seu outro lado, a fortaleza incansável de sua zaga. O quanto consegue atuar recuado, o quanto protege o resultado, o quanto suporta a pressão do adversário, o quanto não se arrebenta com a retranca. O Inter agiu desarmando nos noventa minutos. Afinal, o Flamengo superou a marca de 60% de posse de bola.

Guiñazu ressucita o mitológico Cérbero, guardião do inferno
Gravura de Gustavo Doré
Guiñazu sulcava o Maracanã. Nunca vi um volante tão dedicado, tão intenso, tão febril. O único defensor que ainda sabe manejar um punhal enquanto os demais usam espadas e floretes. Falo punhal para caracterizar sua marcação próxima, arrodeada, hostil e incessante. Um aço que morde. É capitão pelo exemplo de entrega. Não finge falta, não tem tempo de enrolar, não se desperdiça com encenações (Obina é o contrário: um canastrão de atacante, empurra e engravata quando perde o domínio da bola). Guiñazu é cão de guarda do inferno, um Cérbero ressuscitado, três cabeças vigiando passado, presente e futuro da jogada. Sua onipresença contagiou Sandro, promessa que deixou de vez a adolescência para latir autoridade e partir com elegância ao ataque.

Benitez: não brincava em serviço
Lauro não é vulnerável, mas desinteressado em produzir propaganda de torcida. Nem dá para chamá-lo de bebe-quieto, talvez sóbrio-quieto, uma redundância de retidão. Contrário ao marketing, traz uma condição cordata e de paz, própria de um seminarista. Falta apenas o colarinho preto. É pacato, não inseguro. Não cria careta de malvado ou se atira à toa. Suja a roupa quando é realmente necessário. Lembra o paraguaio Benitez da campanha invicta de 1979 e do tricampeonato brasileiro. A mesma discrição, o mesmo poder inacreditável de reação. Suas defesas são como exorcismos. Não parecem vir dele, daquela tranquilidade de pesca. É um tormenta inesperada em dia de sol.
Nada próximo do jeito arrojado e louco de Taffarel (o goleiro certo no momento errado do Inter - nunca teve um time à sua altura), nada vizinho do temperamento suicida de Manga, nada similar ao carisma guerreiro de Clemer. Ele não compra briga, é comedido na entrevista e dentro do campo. Sua virtude repousa no posicionamento. Não sofre da síndrome de Higuita, não banca a estrela. Raro tomá-lo adiantado.
Goleiro quando não é lembrado é que está bem.
UMA GOLEADA DE UM SÓ GOL
(Inter 1 X 0 Corinthians)
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Nijinski e Nilmar: o balé do futebol
O Brasil pediu, mas não levou. O país queria ver as promessas dos campeões regionais invictos e favoritos ao brasileirão num tira-teima. O Corinthians roeu as pretensões e escalou seis reservas (economizou, inclusive, Ronaldo Nazário). Medo de perder e saber seu real tamanho? Alegaram poupar jogadores por ter quartas-de-final na Copa do Brasil no meio da semana. Ora, nós também temos uma partida decisiva com o Flamengo! Qual é?
O que redimiu a tarde foi o gol de placa de Nilmar. Mais que um gol. Por ter passado pela metade do plantel do Corinthians significou também uma bofetada moral, uma vingança amorosa. Com a fúria intacta e sagrada de um desabafo. Sabe aquela namorada que esnobamos e que agora virou modelo e ganha nas passarelas num dia o que nós ganhamos num mês? Temos que aturá-la na capa de revista enquanto pegamos ônibus e ninguém acredita que já estivemos juntos. É mais ou menos isso, o corinthiano pensa: ele era nosso e deixamos passar. Agora nos visita e humilha. Deve ser o que sente em Horizontina (RS) o ex-namoradinho de Gisele Bündchen.
O Taison desperdiçou uma oportunidade fácil, de cara com a goleira, por vergonha. Índio não concretizou o gol de cabeça por respeito. Depois do golaço do Nilmar não dá para fazer um gol normal, ordinário, burocrático. O certo é retirar as redes das traves, fechar o Pacaembu, fazer um busto da bola. Alguém ousaria levantar os braços para comemorar um segundo gol? Como? Com que autoridade?
O jogo terminou aos oito minutos, convenhamos. Oito minutos e nada poderia ser mais feito para suplantar a coreografia de quem desmanchou seis defensores, antes de escolher mortalmente o canto e desesperar o goleiro Felipe.
Todo gol é tímido depois de um que cruza solitário por meio time e meio campo. Nilmar consumiu uma goleada num único gol. Aquilo não abriu o placar, fechou o placar. Uma aula de aerodinâmica, uma apresentação de pista de gelo na grama.
Nilmar deslizante, delirante.
Maradona cumpria gols assim, mas era mais pesado, na fieira que armava sempre derrubava pelo menos um defensor. Deslocava o oponente da jogada com sua estatura bélica, troncuda. Nilmar é mais leve, mais saci, menos carne e mais vento, uma asa-delta, vai driblando e quase caindo, saindo das faltas, numa costura imprevisível no rumo de achar a única fresta possível para o chute. Ele pisa em degraus imaginários para seguir adiante, corre mais rápido entre os obstáculos do que em linha reta. Nilmar é um bailarino. A fragilidade de Vaslav Nijinski combinada à tração viril do futebol.
O Timão sacrificou sua invencibilidade de 26 jogos no Pacaembu. O Inter quebrou a sina de não ganhar na estréia do Brasileirão.
Na verdade, a equipe do Corinthians não jogou ainda com o Inter, jogou apenas contra Nilmar e perdeu.
O INTER DOS SONHOS DE VERISSIMO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Se o Internacional fosse reduzido a um só torcedor ele seria o cronista e ficcionista Luis Fernando Verissimo, autor de personagens clássicos do humor como Ed Mort, Velhinha de Tabauté e Analista de Bagé.
Como seria impossível chegar a um acordo sobre os critérios que definiriam o maior torcedor de todos os tempos, o júri lhe entregaria o troféu sem perguntar a ninguém. Caso de desenrolar o tapetão vermelho para o tímido saxofonista (Sex Pistols com o teclado do computador).

Oreco: professor Verissimo lembrou de mim!

Manga: ele me viu jogar!

Tesourinha: coloquei Valdomiro na reserva!
Verissimo é um torcedor quase centenário, menino privilegiado que testemunhou o Rolo Compressor, adolescente embevecido com o tricampeonato brasileiro e adulto orgulhoso dos feitos continentais. O mais completo olheiro dos talentos do passado e um observador apurado do presente. A pedido do blog, o escritor veste o jaleco de treinador e escala sua formação ideal do colorado de todos os tempos.
1 - Manga
2 - Paulinho
3 - Figueroa
4 - Nena
5 - Oreco
6 - Ávila
7 - Tesourinha
8 - Salvador
9 - Claudiomiro
10 - Falcão
11 - Chinesinho
Técnico: Rubens Minelli
MORDIDAS DO CENTAURO DO PAMPA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

O Inter é atualmente o melhor time do Brasil. Santos, Corinthians, Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, Atlético e São Paulo estão no páreo, mas não correndo tanto com e sem a bola.
O campeonato gaúcho foi um treino do que virá no Brasileiro.
Aniquilar o Caxias por 8 a 1 numa final de campeonato é épico (repetindo o título anterior em cima do Juventude pelo mesmo escore superlativo).
Fazer sete gols em 45 minutos é épico. Alguém viu algo similar numa decisão? Magrão (2), Nilmar (2), Taison, Guinãzu e D' Alessandro. Com o intervalo, não havia mais nada a desejar. Uma compaixão surrealista dominava o batimento, quase pedindo desculpa pelo exagero hormonal. A cabeçada de Álvaro completando a goleada já era arrogância.
A comemoração do título acabou tímida nas ruas em função da explosão absurda e abusiva durante a partida. Consumiu a garganta. O fio afiado da rede arrebentou a jugular. Um dos raros casos em que a alegria cansou. Não apenas os oponentes grenás do Caxias se renderam, e sim a torcida colorada ao gritar gol a cada sete minutos. A ressaca veio antecipada, no meio da partida.
Toda a campanha do bicampeonato regional é épica: 90,5% de aproveitamento, 67 gols em 21 jogos, média mais de 3 gols por partida, 18 vitórias, nenhum derrota, três empates, goleador do campeonato (Taison com 15 estufadas). A última vez em que isso aconteceu no certame estadual (com tantos jogos corridos) repousa no longínquo 1974 com a esquadra de Falcão, Manga e Figueroa (18 jogos, 18 vitórias). Não é pouco.
O treinador Tite é épico, reedita a invencibilidade de Rubens Minelli e é o único a ganhar o Gauchão com três clubes diferentes (Grêmio e Caxias).
O mais grave e inédito é que o Internacional mudou de postura e caráter. Os torcedores velhos não se reconhecem na nova organização. Não reconhecem o Inter vencedor de 70, ou o campeão da Taça Libertadores e do mundo, muito menos o Inter perdedor de 80, caracterizados pelas formações recuadas, com o meio campo como ponto de equilíbrio e defesas quase impecáveis. Times sólidos atrás que iam para frente cavando as brechas deixadas pelo inimigo.
Inter conquistou tudo até então como uma armação arisca do contragolpe. Uma montagem dissimulada. Dando o bote como uma cobra, tal a saída espiralada de Iarley e a conclusão de Gabiru no Barcelona na final do Mundial. Sempre sobraram meio campistas, volantes e zagueiros. Rareavam centroavantes. Tínhamos composições pesadas com dois ou três jogadores leves de velocidade no ataque ou no meio de campo. Sintomático que o Beira-Rio, nos últimos tempos, forjou uma constelação de grandes zagueiros e goleiros, muito mais exigidos do que as demais posições: Gamarra, Lúcio, Aloísio, Célio Silva, Fabiano Eller e Taffarel, Clémer e Renan.
Fundamentados na defesa segura e no controle do meio campo, não queremos dizer que simbolizavam esquemas retranqueiros. Havia uma coluna vertebral sólida na zaga. Os laterais agiam como desarmadores, apenas se aventuravam como ponteiros no funcionamento integral da marcação. O ataque funcionava como uma sobremesa opcional, que nem sempre aparecia.
Esse novo Inter tem seu pilar no ataque. Um manjar de sorvete e chocolate (o prato salgado é o derradeiro a ser servido). Não se esconde à espera da falha adversária, prontifica-se desde o início para a agressão. Avisa a invasão e realmente invade.
Atua para a frente, corteja a irresponsabilidade ofensiva, é um futebol alegre, beligerante, obcecado pelo gol. Ao contrário da tradição, vicejam atacantes. Nascem e desabrocham predadores com vocação para a mordida. É um carrossel holandês na área adversária (ainda que um pedalinho na defesa), um girar incessante de bola, acessando alternadamente Bolívar na direita e Kléber na esquerda.
Contra o Caxias, o time permaneceu três minutos sem perder a posse. Toques curtos, precisos, elétricos, tabelinhas encantadoras entre Taison, Nilmar, Magrão e D'Alessandro. Uma tonteira geral, dribles funcionais para abrir o lance, mediunidade de posicionamento, euforia na pressão, garra na recuperação da bola, entendimento da colocação do conjunto em campo.
Exuberante como o Santos de Robinho e Diego, inconseqüente como o São Caetano de Jair Pirceni, mortífero como o Rolo Compressor dos anos 40, malicioso como São Paulo de Müller e Silas. Feito para grandes massacres e quedas.
8 a 1, 7 a 0, 4 a 1 e 4 a 0 nos mais diferentes confrontos (Caxias, Brasil, Grêmio e Ulbra). Guloso, ganancioso, trata a diferença de dois gols como empate. Uma aberração para a saúde vocal dos locutores.
Antes se saía um grande jogador, o Inter desmoronava. Como o observado nas vendas de Fernandão, Tinga, Rafael Sóbis, Fernandão. O Brasileirão começava com demoradas convalescenças. Agora não, Alex saiu, Taison brilhou. Existe um time reserva com igual entrosamento. Múltiplas possibilidades na boca do túnel (Giuliano, Andrezinho, Alecsandro, Walter, entre tantos).
Por isso, mais do que time, o Inter é o melhor plantel do Brasil.
O RELOJOEIRO DO SÉCULO
Fabrício Carpinejar

Deve ser alguma desavença pessoal entre a direção colorada e Falcão que escurece a verdade histórica. Já ouvi o diretor de futebol Fernando Carvalho afirmar que Fernadão foi mais importante do que Falcão. Porque o primeiro assegurou o título mundial e o segundo, não. É uma redução tacanha. Ou melhor, um autoelogio, já que Carvalho era o presidente na época da conquista.
Nos cem anos do clube completados neste sábado (4/04), não houve jogador tão completo quanto Falcão. Tudo bem que Fernandão foi um timoneiro, que puxava a torcida colorada, que marcou gols fundamentais, inclusive o da Libertadores contra o São Paulo. Não é menosprezo, é justiça. Não é possível compará-lo com aquele que foi incomparável, é quase tão desproporcional quanto a propaganda de refrigerante que aproximava Biro-Biro e Maradona.
Fernandão foi humano; Falcão, um semideus. Fernandão adquiriu seu carisma de capitão pelo seu relacionamento extracampo, no vestiário, na resolução de rusgas entre plantel, técnico, presidência e torcida. A seu favor, a agressividade do marketing, o fervor da publicidade para arrecadação de sócios. Protagonizou a condição simultânea de garoto propaganda e portavoz. Por sua vez, a projeção de Falcão vem unicamente de seus feitos dentro do gramado. É líder por aquilo que cumpriu nos noventa minutos. Sua imortalidade aconteceu dentro do cronômetro.
Fernandão teve fama; Falcão, reconhecimento.
Falcão continuou maravilhando em outras equipes, como Roma (principalmente) e São Paulo. Fernandão não contou com experiência similar e vitoriosa em novo time (fugiu para o desterro financeiro da Arábia).
Anterior a Fernandão, estão na frente da fila Tesourinha, Larry, Valdomiro, Manga, Taffarel, Figueroa, Carlitos (alma do Rolo Compressor, o maior goleador do RS, jogou 15 anos ininterruptos e marcou 485 gols ao longo da sua carreira).
Falcão continua jogando mesmo sem jogar, desde que encerrou a carreira em 1986. Ao gênio, o passado não diminui com o tempo, mas aumenta. Ao gênio, o respeito converte-se em reverência. Fernandão será muito menor daqui a quinze anos. Ou encontrará a sua verdadeira estatura: fundamental, não formidável.
O oitavo rei de Roma é o único imperador da massa vermelha. O maior ídolo sem concorrentes, integrante de uma época de gigantes sem título mundial (Sócrates foi o maior ídolo do Corinthians; Zico, o maior do Flamengo).
Comandou o tricampeonato brasileiro (título invicto em 1979), a conquista de cinco estaduais e o vice da Libertadores, destacou-se num time muito longe da apatia e da normalidade. Craques como Batista, Carpeggiani e Jair não conseguiram chamar mais atenção do que ele. A sensação é que atuava com um guardanapo nos joelhos, tamanha sua elegância, e limpava os cantos da boca com discrição.

Invisível e secreto pois vinha de trás, escandaloso como um aríete no momento do chute.
Raçudo, porém preciso. Como volante, elaborava passes de efeito, elípticos. Passes que pareciam objetivos depois de feitos, inimagináveis antes de realizá-los. Aliás, seu passe tinha a dimensão de lançamento, a deixar Dario ou Bira na cara do gol. Diferente do volante moderno, que desaparece ao marcar e abusa dos passes laterais, chapados e seguros.
Por ser contido, Falcão surgia ainda mais imprevisível. Defendia com perfeição e atacava com perigo, explodia gols e desarmava. Dominava qualquer parte do gramado com igual maestria. Não olhava a bola, sequer a encarava, muitos menos suplicava que o atendesse. Não agia com mendicância. Seus pés é que enxergavam.

Andava e corria com a cabeça erguida, dissimulado, jamais entregando para que lado vingaria o lance. Uma garça no crepúsculo do Guaíba, as pernas longas e curiosas. Quem mais jogava sem baixar o rosto? Talvez Ademir da Guia. É traço monárquico, de confiança, de domínio oracular.
Chutava de longe, colocava no ângulo, desconcertava com todo um repertório de lençol, corta-luz, janelinha. Não inventou nenhum drible como Ronaldinho, mas executou todos com uma perfeição simétrica e professoral. Foi o melhor executor de tarefas que se viu. Jogadores como ele não criam novos fundamentos, consolidam os existentes. É o único que poderia entrar em qualquer escalação do Inter, de qualquer ano e nunca ficaria na reserva. Não é possível dizer o mesmo de Fernandão.
Falcão é o maior do século de luzes. Um clarão de inteligência. Pensava a partida como um coronel, organizava a esquadra como um general e cumpria as estratégias como um soldado. Ocupava todos os papéis da hierarquia, envolvia-se integralmente no resultado. Não havia amistoso. Seus cabelos grandes, desalinhados e cacheados significam a única desordem de sua aparência. O resto respondia a uma disciplina ofensiva, repor e abrir espaço. A tabelinha de cabeça com Escurinho na semifinal do Brasileiro de 1976, matando o jogo nos últimos minutos em cima do Atlético, é a confirmação de seus rompantes técnicos, calculados. Simbolizava o antiindividualismo. Interagia com seus colegas como se estivesse num treino telepático, em brincadeira de roda.
Se retirássemos Falcão do Inter durante a década de 70, não alcançaríamos metade de nossa fortuna. Nada teria acontecido. É incrível que ele fundou um jeito gaúcho de ganhar.
Sempre se diz que o centroavante precisa estar no lugar certo na hora certa. Falcão é um relojoeiro. Como volante, fazia o lugar ficar certo e tornava a hora exata. Ninguém chegava atrasado.
COMPLEXA BRASILIDADE DO GAÚCHO
(ou o motivo de poucos jogos da seleção em Porto Alegre)
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Pô, tchê, não vai se mexer e comemorar o nosso gol?
No futebol, como em tantos outros campos, os gaúchos nem sempre se sentem brasileiros. Às vezes a brasilidade nos fica apertada como uma roupa emprestada. E não há como nos sentirmos gaúchos não sendo brasileiros. É um dilema. A rivalidade clubística não é amenizada pela paixão nacional, talvez somente costurada pela unanimidade regional.
Quando a seleção gaúcha enfrentou a seleção brasileira em junho de 1972, num empate em 3 a 3, adivinha para quem cem mil torcedores gritaram gol? Para Carbone e Claudiomiro. Jairzinho e Rivelinho, astros canarinhos tricampeões do mundo no México, enfrentaram um silêncio obsequioso na hora de levantar os braços. O presidente Médici acabou vaiado. Enfim, traumático e revelador. Por isso nunca mais houve jogos desse combinado: desestabiliza a república.
Inter e Grêmio só serão secundados na conversa quando é necessário defender o Rio Grande do Sul. Repare que o hino rio-grandense será entoado por cada um dos torcedores que vão assistir a Brasil e Peru nesta quarta (1º/4), às 22h10, no estádio Beira-Rio. Sabemos metade do hino brasileiro e todo o hino rio-grandense. Por isso nosso hino é tão curto - para não precisar fingir em nenhum momento. Mas é estranho pensar que o hino é cantado em todos os jogos realizados em Porto Alegre. Do Gauchão ao Campeonato Brasileiro. De cor e salteado. Sem empurrão do alto-falante.
Amar o Rio Grande é um alistamento obrigatório perto da condicional de servir à pátria. Não conseguimos superar o trauma do separatismo. A verdade é que nos amamos e nos odiamos com tanto fervor para não se preocupar com o país.
Foram poucos os momentos em que a decisão da nação passou por aqui. Por exemplo, nunca houve uma comoção política tão imensa quanto à Legalidade, em 1961, com as ruas tomadas pela vigília dos porto-alegrenses. A locução do governador Leonel Brizola (defendendo o retorno de Jango de viagem ao exterior após a renúncia de Jânio) foi a narração ao vivo de uma decisão trepidante, direta dos porões do Piratini. Uma das poucas vezes que o bairrismo gaúcho alçou um patamar presidencial. Mesmo que Getúlio vargas tenha provocado todas as reviravoltas em sua fazenda em São Borja, o estado nem sempre se preocupou em ser brasileiro.
A dupla Gre-Nal venceu três Libertadores e dois mundiais com a alma guerreira castelhana. Assim é que os locutores caracterizaram os feitos. Não se elogia nossa técnica, nossa habilidade, nosso maneirismo, mas a garra, a coragem e a tenacidade. Logo os traços dos hermanos. Nosso futebol não é samba embora não chegue a ser tango. Estamos, como na geografia, no meio do caminho, síntese gaudéria particular.
Se perguntar aos gaúchos, eles dirão que temos um combinado para ganhar Copa do Mundo: Ronaldinho Gaúcho, Lúcio, Pato, Anderson, Tinga, Victor, Nilmar, Taison, Emerson, Tcheco, contando os jogadores que nasceram aqui ou que se naturalizaram pela prática do chimarrão. Felipão é que treinaria a equipe. Guiñazu pediria a dupla nacionalidade (ou nem dependeria disso, já que gaúcho e argentino são vistos como parte da mesma loucura).
Toda suposições de boicote fundamentam a paranóia: por que Falcão não foi convocado para a Copa de 78? Por que Renato ficou de fora da Copa de 82 ou barrado em 86, no México? Injustiças imperdoáveis para um povo que se imagina sendo passado para trás. E tentar convencê-lo do contrário é inútil: pensará que está sendo enganado de novo com outros argumentos.
O Brasil receberá o apoio incondicional de Porto Alegre para abandonar a quarta colocação das Eliminatórias e assumir a vice-liderança. Mas se o técnico não fosse gaúcho e não houvesse gaúchos dentro de campo, não colocaríamos nossas mãos no fogo. Ainda estão queimadas da Guerra dos Farrapos.
PELEÍSMO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Pelé: Rei-Sol, nosso monarca futebolístico
Há um entrevero político no futebol brasileiro: uma confusão entre realeza e Pelé.
Ser rei não é tão complicado. O que é inviável é ser Pelé.
Já tivemos outros reis: Didi, Garrincha, Nilton Santos, Domingos da Guia. Cada um com seu jeito de governar a bola e mobilizar multidões. Garrincha era o único rei que caçoava do trono, casou com a rainha Elza Soares e vivia desmandando em campo. Tostão não foi rei, mas o melhor primeiro ministro que passou pelos gramados, um mentor telepático, um tutor do drible. Talvez seja o único atacante que driblava com as sobrancelhas. Zico encontrou a perfeição dentro de um clube, o Flamengo, assim como Sócrates (Corinthians) e Falcão (Inter). Careceu de uma Copa do Mundo para se consagrar e receber o cetro. Visto como um príncipe herdeiro, que não chegou ao trono por detalhe (ou por falta de veneno). Um príncipe Charles de travas.
Experimentamos vários presidentes na entressafra das fases monárquicas. Romário conseguiu dobrar seus mandatos. Língua enrolada e longevidade semelhante a um Lula do palanque do gol. Ronaldo é Getúlio Vargas, o mais apaixonado dos centroavantes, de carisma implacável, reformista, ditador e salvador ao mesmo tempo, com uma adoração entre os torcedores e nutrindo igual ardor de seus detratores. Deu golpe de estado, fechou o congresso, foi eleito, ressurgiu várias vezes para sempre se consolidar. Joga há 15 anos, o tempo da Era Vargas (1930-1945).
Pelé foi o nosso Rei-Sol, o similar nacional de Louis XIV, o maior monarca absolutista da França, que reinou de 1643 a 1715. Parece que saiu de sua boca a frase: "L'État c'est moi" (O Estado sou eu).
Afinal, Pelé nos induz a pensar que "O reino é ele". Criou o peleísmo, a procura periódica, - de cinco em cinco anos - de um herdeiro. É ele quem indica, quem aponta, quem avaliza um pupilo para renovar a mística de sua camisa 10.
É hilário que não se cogite um rei surgindo no Arruda, estádio do Santa Cruz. Ou um herdeiro branquela e narigudo saindo dos grotões de Vacaria. Terá que sair da Vila Belmiro, desfrutar exatamente de 17 anos (idade do início de Pelé), ser talentoso e franzino. O problema não é o surgimento de um novo rei, trata-se da obsessão de Pelé em forjar um sósia com as mesmas características sociais e biótipo de sua precoce genialidade. Por quê?
Simples, para lembrá-lo, avivar sua marca insuperável de gols e malabarismos sobrenaturais.
Por que não Taison do Inter? Ou o relâmpago Alexandre Pato? Por que não se comparou a Ronaldinho quando surgiu no Grêmio e assombrou na seleção brasileira com gols de placa?
Novamente simples, eles diminuem as possibilidades de aproximação. Os ângulos do espelho.

Pelé oferece fama em troca de poder
Ao nomear Neymar como o herdeiro do momento, Pelé quer continuar Pelé. Espertamente, ela faz a comparação para manter a hegemonia e aumentar a cobrança por resultados imediatos da brilhante promessa santista da temporada. Não ousem cogitar que é generosidade ou preocupação com o futuro do esporte. Executou uma das precisas manobras do cardeal Mazarin, autor do Breviário dos Políticos: "Deixa a outros a glória da fama. Interessa-te apenas pela realidade do poder”.
Foi divulgada foto de Neymar segurando Pelé no colo. Ali está a síntese de tudo. Quem está no colo de quem? Neymar segura Pelé no colo para não mostrar a verdade: que é ele que recebe um colo para se projetar e ter força para brevemente servir de suporte para o rei.
Essa é a grande questão: Pelé empresta a fama para não entregar o poder. A fama acaba; o poder permanece. É possível tirar e pôr fama, poder vem da influência de determinar quem merece a visibilidade. Neymar é um modo de dizer que Robinho não é mais o herdeiro. Porque Robinho não é mais um súdito manso do rei. Alcançou independência, autonomia e goza da agitação do campeonato inglês, vestindo a camiseta do Manchester City. Não beija a mão, não lava os pés de Pelé. Não são acidentais todas as insinuações maldosas e infundadas de Pelé - ainda que desmentindo depois - do envolvimento em drogas de Robinho. Ele deseja aproximar o artilheiro de Maradona, suserano absoluto da Argentina, e afirmar que Robinho é menos brasileiro. Menos Ele. Vejam só as sutilezas.
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