PELAS BARBAS DO PROFETA
Fabrício Carpinejar

Montagem a partir de arte de Andy Warhol

Onde estão os homens de barba no futebol?

Fui esquadrinhar a escalação do Inter, do Grêmio, do São Paulo, do Palmeiras: nenhum Papai Noel, Che Guevara, Fidel Castro. Não há mais atleta barbudo, o que considero uma heresia, um despropósito, uma desigualdade estética.

Parece que barba é crime. Será uma proibição contratual? Uma exigência dos técnicos?

Penso saudosamente em Sócrates, no zagueiro campeão do mundo Hugo de León, do ponta Mário Sérgio, do atacante Kita. Coitados, órfão do futuro, sem sucessores.

Barba é uma fase malvada e eremita essencial ao craque. Craque sem usar barba sequer uma vez não enfrentou a barra da solidão, da mudança de personalidade. Não experimentou a força do olhar arisco e pétreo em campo. Não desafiou a torcida. Não testou seu potencial agreste. Ainda não pisou na maturidade. Maradona já teve barba. Júnior já teve barba. Representa uma sincera trégua da imagem, um retiro do comum, férias da rotina.

Os jogadores estão com medo de envelhecer. Deve ser isso. Desejam prolongar a aparência de guris; conservar a sensação permanente de auge criativo e técnico, e não desestimular o interesse dos clubes estrangeiros. Não ousam arriscar ares desgrenhados e selvagens. Ficam, portanto, com a cara limpa, comportados e depilados. Saltam do vestiário como nadadores do vento.

E não incluo cavanhaque, suíça ou a barbicha, todos efeitos postiços. Minha nostalgia é pela barba judaica, cristã, de uma quinzena, de um mês, de um ano. Barba de náufrago, de ilha perdida. Uma barba que poderia ser puxada numa falta com a facilidade de uma gola de camisa.

Não é para ser resultado de um dia como David Beckham gosta de fazer, exercendo seu desleixo planejado, midiático, aparado em excesso, destinado no fundo a vender produtos de beleza. 

Peço barba com a boca na marca de pênalti. Completa. De unir os cabelos. Pelo menos o bigode de Toninho Cerezo.

Barba com urgência porque unicamente vislumbro efebos, rapazes, jovens brincando de tiro ao gol. Ou será que o futebol virou um colégio militar?

Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, não precisa de confiança para retomar o bom futebol no Milan, e sim de barba. Um momento a sós com a rudeza dos traços: aproximar-se de São Francisco por uma temporada, descobrir que a barba é um drible do rosto.

Pinças e barbeadores são saqueadores da diversidade. O grande negócio no mundo da bola é ser adolescente. O jeito lícito de fraudar a identidade é recusar a barbicha.

Barba transmite a honestidade do cansaço, a intelectualidade preocupada de uma noite em claro, a responsabilidade familiar. Mas jogador teme a fofoca. A barba é a fofoca crespa no queixo, alardeando o tempo de carreira e os problemas em casa.

Na minha infância, a emancipação masculina vinha com a barba. Com a penugem crescendo, já se podia namorar, sair, pensar bobagem. Atualmente a barba é uma ameaça da terceira idade. Um sinal de aposentadoria. É dar chance para o aparecimento de fios grisalhos - muito perigoso para as transações. 

Eu acredito no retorno de Jesus Cristo. Barba não esconde, mostra.

ENCONTRO DA LEBRE COM A RAPOSA

Fabrício Carpinejar

É centenário do Inter.

O que se observou no primeiro Gre-Nal de 2009 - número 374 da história - foi uma superação carmim e vermelha. Mais do que a estréia despojada do novo uniforme colorado (sem as estrelas, para esnobar os últimos anos).

As velas começam a ser dentadas (soprar é pouco).

No clássico em Erechim, com metade do estádio para cada torcida, bonito de se enxergar novamente, não deu nem para arrumar a sela de São Jorge. Gol aos dois minutos a partir de falta cobrada por D'Alessandro. William Magrão desviou do próprio goleiro Vitor.

Grêmio veio para cima batendo e chutando cilindro e carne. Campeonato Gaúcho é para sair de campo acreditando que se é o Gladiador, Ben-Hur, Spartacus. Jogadores usam bigas, e não chuteiras. O Colosso da Lagoa poderia ser rebatizado depois da partida de Coliseu da Lagoa. Tamanha as entradas duras, os carrinhos, os puxões de camisetas. Quem não conhece o Gauchão supõe que o árbitro Carlos Simon foi tolerante ao não expulsar ninguém, em especial os gremistas que levaram quatro amarelinhos. Mas ou ele expulsa todos ou ninguém - é o dilema sulista que enfrenta sempre o juiz nas nossas várzeas.

O Grêmio forçou os zagueiros, fez pressão, não cansou de exigir defesas exímias no alto de Lauro. No segundo tempo, Índio não viu o ladrão, mosqueou, perdeu a bola na área para o cabeção Rui e o empate veio nos pés de Jonas. Mas isso não é narração. 

Eu até pensei que o Inter sofreria a irritante e engasgada virada. A maior posse de bola era do Grêmio, o estrategista Tite enlouqueceu e tirou os ases D' Alessandro e Alex, colocou Kleber e Andrezinho. Panela de pressão na certa. Equipe recuada, marcando por zona, deixando Souza jogar.

 

Mas isso não é narração. Delirei ao enxergar o encontro da corrida da lebre com a raposa. Duas rapidezes, duas velocidades descalabrosas. Dois dínamos animais e reluzentes. Lebre avança a 55 km/h, raposa atinge 72 km/h.

Estou falando de Taison e Nilmar. Dois guris.

Taison atravessou o campo com suas passadas largas, requebrou três gremistas de seu raio de ação. Só com câmera lenta é possível acompanhá-lo. A temporada de caça estava aberta e nenhum tiro senão o da bola num passe diagonal que botou Nilmar no início da grande área. O centroavante disputou corrida com Adilson e chutou. Nem dominou, realizou o que tinha que fazer - uma raposa! - guardou sua força para um único torpedo, o derradeiro lance, a sagração do verão, um canhão naval no ângulo de Victor. 2x1 aos 37 do segundo tempo.

O Grêmio volta de ônibus na sexta posição de seu grupo. O Inter retorna de avião de Erechim com o melhor ataque, dezesseis pontos, líder isolado, defesa menos vazada, cinco vitórias e um empate.

De avião. Natural: Nilmar e Taison voaram em campo. É apenas mais uma escala. 

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