COMPLEXA BRASILIDADE DO GAÚCHO
(ou o motivo de poucos jogos da seleção em Porto Alegre)
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Pô, tchê, não vai se mexer e comemorar o nosso gol?
No futebol, como em tantos outros campos, os gaúchos nem sempre se sentem brasileiros. Às vezes a brasilidade nos fica apertada como uma roupa emprestada. E não há como nos sentirmos gaúchos não sendo brasileiros. É um dilema. A rivalidade clubística não é amenizada pela paixão nacional, talvez somente costurada pela unanimidade regional.
Quando a seleção gaúcha enfrentou a seleção brasileira em junho de 1972, num empate em 3 a 3, adivinha para quem cem mil torcedores gritaram gol? Para Carbone e Claudiomiro. Jairzinho e Rivelinho, astros canarinhos tricampeões do mundo no México, enfrentaram um silêncio obsequioso na hora de levantar os braços. O presidente Médici acabou vaiado. Enfim, traumático e revelador. Por isso nunca mais houve jogos desse combinado: desestabiliza a república.
Inter e Grêmio só serão secundados na conversa quando é necessário defender o Rio Grande do Sul. Repare que o hino rio-grandense será entoado por cada um dos torcedores que vão assistir a Brasil e Peru nesta quarta (1º/4), às 22h10, no estádio Beira-Rio. Sabemos metade do hino brasileiro e todo o hino rio-grandense. Por isso nosso hino é tão curto - para não precisar fingir em nenhum momento. Mas é estranho pensar que o hino é cantado em todos os jogos realizados em Porto Alegre. Do Gauchão ao Campeonato Brasileiro. De cor e salteado. Sem empurrão do alto-falante.
Amar o Rio Grande é um alistamento obrigatório perto da condicional de servir à pátria. Não conseguimos superar o trauma do separatismo. A verdade é que nos amamos e nos odiamos com tanto fervor para não se preocupar com o país.
Foram poucos os momentos em que a decisão da nação passou por aqui. Por exemplo, nunca houve uma comoção política tão imensa quanto à Legalidade, em 1961, com as ruas tomadas pela vigília dos porto-alegrenses. A locução do governador Leonel Brizola (defendendo o retorno de Jango de viagem ao exterior após a renúncia de Jânio) foi a narração ao vivo de uma decisão trepidante, direta dos porões do Piratini. Uma das poucas vezes que o bairrismo gaúcho alçou um patamar presidencial. Mesmo que Getúlio vargas tenha provocado todas as reviravoltas em sua fazenda em São Borja, o estado nem sempre se preocupou em ser brasileiro.
A dupla Gre-Nal venceu três Libertadores e dois mundiais com a alma guerreira castelhana. Assim é que os locutores caracterizaram os feitos. Não se elogia nossa técnica, nossa habilidade, nosso maneirismo, mas a garra, a coragem e a tenacidade. Logo os traços dos hermanos. Nosso futebol não é samba embora não chegue a ser tango. Estamos, como na geografia, no meio do caminho, síntese gaudéria particular.
Se perguntar aos gaúchos, eles dirão que temos um combinado para ganhar Copa do Mundo: Ronaldinho Gaúcho, Lúcio, Pato, Anderson, Tinga, Victor, Nilmar, Taison, Emerson, Tcheco, contando os jogadores que nasceram aqui ou que se naturalizaram pela prática do chimarrão. Felipão é que treinaria a equipe. Guiñazu pediria a dupla nacionalidade (ou nem dependeria disso, já que gaúcho e argentino são vistos como parte da mesma loucura).
Toda suposições de boicote fundamentam a paranóia: por que Falcão não foi convocado para a Copa de 78? Por que Renato ficou de fora da Copa de 82 ou barrado em 86, no México? Injustiças imperdoáveis para um povo que se imagina sendo passado para trás. E tentar convencê-lo do contrário é inútil: pensará que está sendo enganado de novo com outros argumentos.
O Brasil receberá o apoio incondicional de Porto Alegre para abandonar a quarta colocação das Eliminatórias e assumir a vice-liderança. Mas se o técnico não fosse gaúcho e não houvesse gaúchos dentro de campo, não colocaríamos nossas mãos no fogo. Ainda estão queimadas da Guerra dos Farrapos.
PELEÍSMO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Pelé: Rei-Sol, nosso monarca futebolístico
Há um entrevero político no futebol brasileiro: uma confusão entre realeza e Pelé.
Ser rei não é tão complicado. O que é inviável é ser Pelé.
Já tivemos outros reis: Didi, Garrincha, Nilton Santos, Domingos da Guia. Cada um com seu jeito de governar a bola e mobilizar multidões. Garrincha era o único rei que caçoava do trono, casou com a rainha Elza Soares e vivia desmandando em campo. Tostão não foi rei, mas o melhor primeiro ministro que passou pelos gramados, um mentor telepático, um tutor do drible. Talvez seja o único atacante que driblava com as sobrancelhas. Zico encontrou a perfeição dentro de um clube, o Flamengo, assim como Sócrates (Corinthians) e Falcão (Inter). Careceu de uma Copa do Mundo para se consagrar e receber o cetro. Visto como um príncipe herdeiro, que não chegou ao trono por detalhe (ou por falta de veneno). Um príncipe Charles de travas.
Experimentamos vários presidentes na entressafra das fases monárquicas. Romário conseguiu dobrar seus mandatos. Língua enrolada e longevidade semelhante a um Lula do palanque do gol. Ronaldo é Getúlio Vargas, o mais apaixonado dos centroavantes, de carisma implacável, reformista, ditador e salvador ao mesmo tempo, com uma adoração entre os torcedores e nutrindo igual ardor de seus detratores. Deu golpe de estado, fechou o congresso, foi eleito, ressurgiu várias vezes para sempre se consolidar. Joga há 15 anos, o tempo da Era Vargas (1930-1945).
Pelé foi o nosso Rei-Sol, o similar nacional de Louis XIV, o maior monarca absolutista da França, que reinou de 1643 a 1715. Parece que saiu de sua boca a frase: "L'État c'est moi" (O Estado sou eu).
Afinal, Pelé nos induz a pensar que "O reino é ele". Criou o peleísmo, a procura periódica, - de cinco em cinco anos - de um herdeiro. É ele quem indica, quem aponta, quem avaliza um pupilo para renovar a mística de sua camisa 10.
É hilário que não se cogite um rei surgindo no Arruda, estádio do Santa Cruz. Ou um herdeiro branquela e narigudo saindo dos grotões de Vacaria. Terá que sair da Vila Belmiro, desfrutar exatamente de 17 anos (idade do início de Pelé), ser talentoso e franzino. O problema não é o surgimento de um novo rei, trata-se da obsessão de Pelé em forjar um sósia com as mesmas características sociais e biótipo de sua precoce genialidade. Por quê?
Simples, para lembrá-lo, avivar sua marca insuperável de gols e malabarismos sobrenaturais.
Por que não Taison do Inter? Ou o relâmpago Alexandre Pato? Por que não se comparou a Ronaldinho quando surgiu no Grêmio e assombrou na seleção brasileira com gols de placa?
Novamente simples, eles diminuem as possibilidades de aproximação. Os ângulos do espelho.

Pelé oferece fama em troca de poder
Ao nomear Neymar como o herdeiro do momento, Pelé quer continuar Pelé. Espertamente, ela faz a comparação para manter a hegemonia e aumentar a cobrança por resultados imediatos da brilhante promessa santista da temporada. Não ousem cogitar que é generosidade ou preocupação com o futuro do esporte. Executou uma das precisas manobras do cardeal Mazarin, autor do Breviário dos Políticos: "Deixa a outros a glória da fama. Interessa-te apenas pela realidade do poder”.
Foi divulgada foto de Neymar segurando Pelé no colo. Ali está a síntese de tudo. Quem está no colo de quem? Neymar segura Pelé no colo para não mostrar a verdade: que é ele que recebe um colo para se projetar e ter força para brevemente servir de suporte para o rei.
Essa é a grande questão: Pelé empresta a fama para não entregar o poder. A fama acaba; o poder permanece. É possível tirar e pôr fama, poder vem da influência de determinar quem merece a visibilidade. Neymar é um modo de dizer que Robinho não é mais o herdeiro. Porque Robinho não é mais um súdito manso do rei. Alcançou independência, autonomia e goza da agitação do campeonato inglês, vestindo a camiseta do Manchester City. Não beija a mão, não lava os pés de Pelé. Não são acidentais todas as insinuações maldosas e infundadas de Pelé - ainda que desmentindo depois - do envolvimento em drogas de Robinho. Ele deseja aproximar o artilheiro de Maradona, suserano absoluto da Argentina, e afirmar que Robinho é menos brasileiro. Menos Ele. Vejam só as sutilezas.
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