O RELOJOEIRO DO SÉCULO
Fabrício Carpinejar

Deve ser alguma desavença pessoal entre a direção colorada e Falcão que escurece a verdade histórica. Já ouvi o diretor de futebol Fernando Carvalho afirmar que Fernadão foi mais importante do que Falcão. Porque o primeiro assegurou o título mundial e o segundo, não. É uma redução tacanha. Ou melhor, um autoelogio, já que Carvalho era o presidente na época da conquista.
Nos cem anos do clube completados neste sábado (4/04), não houve jogador tão completo quanto Falcão. Tudo bem que Fernandão foi um timoneiro, que puxava a torcida colorada, que marcou gols fundamentais, inclusive o da Libertadores contra o São Paulo. Não é menosprezo, é justiça. Não é possível compará-lo com aquele que foi incomparável, é quase tão desproporcional quanto a propaganda de refrigerante que aproximava Biro-Biro e Maradona.
Fernandão foi humano; Falcão, um semideus. Fernandão adquiriu seu carisma de capitão pelo seu relacionamento extracampo, no vestiário, na resolução de rusgas entre plantel, técnico, presidência e torcida. A seu favor, a agressividade do marketing, o fervor da publicidade para arrecadação de sócios. Protagonizou a condição simultânea de garoto propaganda e portavoz. Por sua vez, a projeção de Falcão vem unicamente de seus feitos dentro do gramado. É líder por aquilo que cumpriu nos noventa minutos. Sua imortalidade aconteceu dentro do cronômetro.
Fernandão teve fama; Falcão, reconhecimento.
Falcão continuou maravilhando em outras equipes, como Roma (principalmente) e São Paulo. Fernandão não contou com experiência similar e vitoriosa em novo time (fugiu para o desterro financeiro da Arábia).
Anterior a Fernandão, estão na frente da fila Tesourinha, Larry, Valdomiro, Manga, Taffarel, Figueroa, Carlitos (alma do Rolo Compressor, o maior goleador do RS, jogou 15 anos ininterruptos e marcou 485 gols ao longo da sua carreira).
Falcão continua jogando mesmo sem jogar, desde que encerrou a carreira em 1986. Ao gênio, o passado não diminui com o tempo, mas aumenta. Ao gênio, o respeito converte-se em reverência. Fernandão será muito menor daqui a quinze anos. Ou encontrará a sua verdadeira estatura: fundamental, não formidável.
O oitavo rei de Roma é o único imperador da massa vermelha. O maior ídolo sem concorrentes, integrante de uma época de gigantes sem título mundial (Sócrates foi o maior ídolo do Corinthians; Zico, o maior do Flamengo).
Comandou o tricampeonato brasileiro (título invicto em 1979), a conquista de cinco estaduais e o vice da Libertadores, destacou-se num time muito longe da apatia e da normalidade. Craques como Batista, Carpeggiani e Jair não conseguiram chamar mais atenção do que ele. A sensação é que atuava com um guardanapo nos joelhos, tamanha sua elegância, e limpava os cantos da boca com discrição.

Invisível e secreto pois vinha de trás, escandaloso como um aríete no momento do chute.
Raçudo, porém preciso. Como volante, elaborava passes de efeito, elípticos. Passes que pareciam objetivos depois de feitos, inimagináveis antes de realizá-los. Aliás, seu passe tinha a dimensão de lançamento, a deixar Dario ou Bira na cara do gol. Diferente do volante moderno, que desaparece ao marcar e abusa dos passes laterais, chapados e seguros.
Por ser contido, Falcão surgia ainda mais imprevisível. Defendia com perfeição e atacava com perigo, explodia gols e desarmava. Dominava qualquer parte do gramado com igual maestria. Não olhava a bola, sequer a encarava, muitos menos suplicava que o atendesse. Não agia com mendicância. Seus pés é que enxergavam.

Andava e corria com a cabeça erguida, dissimulado, jamais entregando para que lado vingaria o lance. Uma garça no crepúsculo do Guaíba, as pernas longas e curiosas. Quem mais jogava sem baixar o rosto? Talvez Ademir da Guia. É traço monárquico, de confiança, de domínio oracular.
Chutava de longe, colocava no ângulo, desconcertava com todo um repertório de lençol, corta-luz, janelinha. Não inventou nenhum drible como Ronaldinho, mas executou todos com uma perfeição simétrica e professoral. Foi o melhor executor de tarefas que se viu. Jogadores como ele não criam novos fundamentos, consolidam os existentes. É o único que poderia entrar em qualquer escalação do Inter, de qualquer ano e nunca ficaria na reserva. Não é possível dizer o mesmo de Fernandão.
Falcão é o maior do século de luzes. Um clarão de inteligência. Pensava a partida como um coronel, organizava a esquadra como um general e cumpria as estratégias como um soldado. Ocupava todos os papéis da hierarquia, envolvia-se integralmente no resultado. Não havia amistoso. Seus cabelos grandes, desalinhados e cacheados significam a única desordem de sua aparência. O resto respondia a uma disciplina ofensiva, repor e abrir espaço. A tabelinha de cabeça com Escurinho na semifinal do Brasileiro de 1976, matando o jogo nos últimos minutos em cima do Atlético, é a confirmação de seus rompantes técnicos, calculados. Simbolizava o antiindividualismo. Interagia com seus colegas como se estivesse num treino telepático, em brincadeira de roda.
Se retirássemos Falcão do Inter durante a década de 70, não alcançaríamos metade de nossa fortuna. Nada teria acontecido. É incrível que ele fundou um jeito gaúcho de ganhar.
Sempre se diz que o centroavante precisa estar no lugar certo na hora certa. Falcão é um relojoeiro. Como volante, fazia o lugar ficar certo e tornava a hora exata. Ninguém chegava atrasado.
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