O INTER DOS SONHOS DE VERISSIMO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Se o Internacional fosse reduzido a um só torcedor ele seria o cronista e ficcionista Luis Fernando Verissimo, autor de personagens clássicos do humor como Ed Mort, Velhinha de Tabauté e Analista de Bagé.
Como seria impossível chegar a um acordo sobre os critérios que definiriam o maior torcedor de todos os tempos, o júri lhe entregaria o troféu sem perguntar a ninguém. Caso de desenrolar o tapetão vermelho para o tímido saxofonista (Sex Pistols com o teclado do computador).

Oreco: professor Verissimo lembrou de mim!

Manga: ele me viu jogar!

Tesourinha: coloquei Valdomiro na reserva!
Verissimo é um torcedor quase centenário, menino privilegiado que testemunhou o Rolo Compressor, adolescente embevecido com o tricampeonato brasileiro e adulto orgulhoso dos feitos continentais. O mais completo olheiro dos talentos do passado e um observador apurado do presente. A pedido do blog, o escritor veste o jaleco de treinador e escala sua formação ideal do colorado de todos os tempos.
1 - Manga
2 - Paulinho
3 - Figueroa
4 - Nena
5 - Oreco
6 - Ávila
7 - Tesourinha
8 - Salvador
9 - Claudiomiro
10 - Falcão
11 - Chinesinho
Técnico: Rubens Minelli
MORDIDAS DO CENTAURO DO PAMPA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

O Inter é atualmente o melhor time do Brasil. Santos, Corinthians, Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, Atlético e São Paulo estão no páreo, mas não correndo tanto com e sem a bola.
O campeonato gaúcho foi um treino do que virá no Brasileiro.
Aniquilar o Caxias por 8 a 1 numa final de campeonato é épico (repetindo o título anterior em cima do Juventude pelo mesmo escore superlativo).
Fazer sete gols em 45 minutos é épico. Alguém viu algo similar numa decisão? Magrão (2), Nilmar (2), Taison, Guinãzu e D' Alessandro. Com o intervalo, não havia mais nada a desejar. Uma compaixão surrealista dominava o batimento, quase pedindo desculpa pelo exagero hormonal. A cabeçada de Álvaro completando a goleada já era arrogância.
A comemoração do título acabou tímida nas ruas em função da explosão absurda e abusiva durante a partida. Consumiu a garganta. O fio afiado da rede arrebentou a jugular. Um dos raros casos em que a alegria cansou. Não apenas os oponentes grenás do Caxias se renderam, e sim a torcida colorada ao gritar gol a cada sete minutos. A ressaca veio antecipada, no meio da partida.
Toda a campanha do bicampeonato regional é épica: 90,5% de aproveitamento, 67 gols em 21 jogos, média mais de 3 gols por partida, 18 vitórias, nenhum derrota, três empates, goleador do campeonato (Taison com 15 estufadas). A última vez em que isso aconteceu no certame estadual (com tantos jogos corridos) repousa no longínquo 1974 com a esquadra de Falcão, Manga e Figueroa (18 jogos, 18 vitórias). Não é pouco.
O treinador Tite é épico, reedita a invencibilidade de Rubens Minelli e é o único a ganhar o Gauchão com três clubes diferentes (Grêmio e Caxias).
O mais grave e inédito é que o Internacional mudou de postura e caráter. Os torcedores velhos não se reconhecem na nova organização. Não reconhecem o Inter vencedor de 70, ou o campeão da Taça Libertadores e do mundo, muito menos o Inter perdedor de 80, caracterizados pelas formações recuadas, com o meio campo como ponto de equilíbrio e defesas quase impecáveis. Times sólidos atrás que iam para frente cavando as brechas deixadas pelo inimigo.
Inter conquistou tudo até então como uma armação arisca do contragolpe. Uma montagem dissimulada. Dando o bote como uma cobra, tal a saída espiralada de Iarley e a conclusão de Gabiru no Barcelona na final do Mundial. Sempre sobraram meio campistas, volantes e zagueiros. Rareavam centroavantes. Tínhamos composições pesadas com dois ou três jogadores leves de velocidade no ataque ou no meio de campo. Sintomático que o Beira-Rio, nos últimos tempos, forjou uma constelação de grandes zagueiros e goleiros, muito mais exigidos do que as demais posições: Gamarra, Lúcio, Aloísio, Célio Silva, Fabiano Eller e Taffarel, Clémer e Renan.
Fundamentados na defesa segura e no controle do meio campo, não queremos dizer que simbolizavam esquemas retranqueiros. Havia uma coluna vertebral sólida na zaga. Os laterais agiam como desarmadores, apenas se aventuravam como ponteiros no funcionamento integral da marcação. O ataque funcionava como uma sobremesa opcional, que nem sempre aparecia.
Esse novo Inter tem seu pilar no ataque. Um manjar de sorvete e chocolate (o prato salgado é o derradeiro a ser servido). Não se esconde à espera da falha adversária, prontifica-se desde o início para a agressão. Avisa a invasão e realmente invade.
Atua para a frente, corteja a irresponsabilidade ofensiva, é um futebol alegre, beligerante, obcecado pelo gol. Ao contrário da tradição, vicejam atacantes. Nascem e desabrocham predadores com vocação para a mordida. É um carrossel holandês na área adversária (ainda que um pedalinho na defesa), um girar incessante de bola, acessando alternadamente Bolívar na direita e Kléber na esquerda.
Contra o Caxias, o time permaneceu três minutos sem perder a posse. Toques curtos, precisos, elétricos, tabelinhas encantadoras entre Taison, Nilmar, Magrão e D'Alessandro. Uma tonteira geral, dribles funcionais para abrir o lance, mediunidade de posicionamento, euforia na pressão, garra na recuperação da bola, entendimento da colocação do conjunto em campo.
Exuberante como o Santos de Robinho e Diego, inconseqüente como o São Caetano de Jair Pirceni, mortífero como o Rolo Compressor dos anos 40, malicioso como São Paulo de Müller e Silas. Feito para grandes massacres e quedas.
8 a 1, 7 a 0, 4 a 1 e 4 a 0 nos mais diferentes confrontos (Caxias, Brasil, Grêmio e Ulbra). Guloso, ganancioso, trata a diferença de dois gols como empate. Uma aberração para a saúde vocal dos locutores.
Antes se saía um grande jogador, o Inter desmoronava. Como o observado nas vendas de Fernandão, Tinga, Rafael Sóbis, Fernandão. O Brasileirão começava com demoradas convalescenças. Agora não, Alex saiu, Taison brilhou. Existe um time reserva com igual entrosamento. Múltiplas possibilidades na boca do túnel (Giuliano, Andrezinho, Alecsandro, Walter, entre tantos).
Por isso, mais do que time, o Inter é o melhor plantel do Brasil.
|
|
|||
![]() | |||
|
|||