FORTALEZA INCANSÁVEL
(Lauro e Benitez)
Fabrício Carpinejar

Lauro não é um centroavante frustrado
Naquelas premonições de início de campeonato (edição de maio), a Revista Playboy apontou que o goleiro Lauro é o ponto fraco do Inter.
No empate emocionante de zero a zero entre o colorado e o Flamengo nesta quarta (13/5), pelas quartas de final da Copa do Brasil, o arqueiro superou tanto as falsas como as verdadeiras expectativas. Fechou o gol e ainda desfrutou da superstição da trave. Goleiro que não conta com amizade da trave nunca ganhará o respeito dos seus zagueiros.
Além da sorte, pegou um tiro à queima-uniforme de Ronaldo Angelim. Cintilância e elasticidade, força no punho e reflexo para garantir a igualdade e decidir a vaga no Beira-Rio. Não foi defesa de susto, de quem estava confortavelmente na direção da bola, e sim golpe procurado, obstinado, apanhando o urubu pela perna, em pleno vôo. Só não foi melhor do que o rubro-negro Bruno, que fez três milagres no finalzinho do segundo tempo.
Todos comentam o poderio ofensivo do Inter neste ano: 83 gols em 23 jogos. Com o Flamengo, o Inter mostrou seu outro lado, a fortaleza incansável de sua zaga. O quanto consegue atuar recuado, o quanto protege o resultado, o quanto suporta a pressão do adversário, o quanto não se arrebenta com a retranca. O Inter agiu desarmando nos noventa minutos. Afinal, o Flamengo superou a marca de 60% de posse de bola.

Guiñazu ressucita o mitológico Cérbero, guardião do inferno
Gravura de Gustavo Doré
Guiñazu sulcava o Maracanã. Nunca vi um volante tão dedicado, tão intenso, tão febril. O único defensor que ainda sabe manejar um punhal enquanto os demais usam espadas e floretes. Falo punhal para caracterizar sua marcação próxima, arrodeada, hostil e incessante. Um aço que morde. É capitão pelo exemplo de entrega. Não finge falta, não tem tempo de enrolar, não se desperdiça com encenações (Obina é o contrário: um canastrão de atacante, empurra e engravata quando perde o domínio da bola). Guiñazu é cão de guarda do inferno, um Cérbero ressuscitado, três cabeças vigiando passado, presente e futuro da jogada. Sua onipresença contagiou Sandro, promessa que deixou de vez a adolescência para latir autoridade e partir com elegância ao ataque.

Benitez: não brincava em serviço
Lauro não é vulnerável, mas desinteressado em produzir propaganda de torcida. Nem dá para chamá-lo de bebe-quieto, talvez sóbrio-quieto, uma redundância de retidão. Contrário ao marketing, traz uma condição cordata e de paz, própria de um seminarista. Falta apenas o colarinho preto. É pacato, não inseguro. Não cria careta de malvado ou se atira à toa. Suja a roupa quando é realmente necessário. Lembra o paraguaio Benitez da campanha invicta de 1979 e do tricampeonato brasileiro. A mesma discrição, o mesmo poder inacreditável de reação. Suas defesas são como exorcismos. Não parecem vir dele, daquela tranquilidade de pesca. É um tormenta inesperada em dia de sol.
Nada próximo do jeito arrojado e louco de Taffarel (o goleiro certo no momento errado do Inter - nunca teve um time à sua altura), nada vizinho do temperamento suicida de Manga, nada similar ao carisma guerreiro de Clemer. Ele não compra briga, é comedido na entrevista e dentro do campo. Sua virtude repousa no posicionamento. Não sofre da síndrome de Higuita, não banca a estrela. Raro tomá-lo adiantado.
Goleiro quando não é lembrado é que está bem.
UMA GOLEADA DE UM SÓ GOL
(Inter 1 X 0 Corinthians)
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Nijinski e Nilmar: o balé do futebol
O Brasil pediu, mas não levou. O país queria ver as promessas dos campeões regionais invictos e favoritos ao brasileirão num tira-teima. O Corinthians roeu as pretensões e escalou seis reservas (economizou, inclusive, Ronaldo Nazário). Medo de perder e saber seu real tamanho? Alegaram poupar jogadores por ter quartas-de-final na Copa do Brasil no meio da semana. Ora, nós também temos uma partida decisiva com o Flamengo! Qual é?
O que redimiu a tarde foi o gol de placa de Nilmar. Mais que um gol. Por ter passado pela metade do plantel do Corinthians significou também uma bofetada moral, uma vingança amorosa. Com a fúria intacta e sagrada de um desabafo. Sabe aquela namorada que esnobamos e que agora virou modelo e ganha nas passarelas num dia o que nós ganhamos num mês? Temos que aturá-la na capa de revista enquanto pegamos ônibus e ninguém acredita que já estivemos juntos. É mais ou menos isso, o corinthiano pensa: ele era nosso e deixamos passar. Agora nos visita e humilha. Deve ser o que sente em Horizontina (RS) o ex-namoradinho de Gisele Bündchen.
O Taison desperdiçou uma oportunidade fácil, de cara com a goleira, por vergonha. Índio não concretizou o gol de cabeça por respeito. Depois do golaço do Nilmar não dá para fazer um gol normal, ordinário, burocrático. O certo é retirar as redes das traves, fechar o Pacaembu, fazer um busto da bola. Alguém ousaria levantar os braços para comemorar um segundo gol? Como? Com que autoridade?
O jogo terminou aos oito minutos, convenhamos. Oito minutos e nada poderia ser mais feito para suplantar a coreografia de quem desmanchou seis defensores, antes de escolher mortalmente o canto e desesperar o goleiro Felipe.
Todo gol é tímido depois de um que cruza solitário por meio time e meio campo. Nilmar consumiu uma goleada num único gol. Aquilo não abriu o placar, fechou o placar. Uma aula de aerodinâmica, uma apresentação de pista de gelo na grama.
Nilmar deslizante, delirante.
Maradona cumpria gols assim, mas era mais pesado, na fieira que armava sempre derrubava pelo menos um defensor. Deslocava o oponente da jogada com sua estatura bélica, troncuda. Nilmar é mais leve, mais saci, menos carne e mais vento, uma asa-delta, vai driblando e quase caindo, saindo das faltas, numa costura imprevisível no rumo de achar a única fresta possível para o chute. Ele pisa em degraus imaginários para seguir adiante, corre mais rápido entre os obstáculos do que em linha reta. Nilmar é um bailarino. A fragilidade de Vaslav Nijinski combinada à tração viril do futebol.
O Timão sacrificou sua invencibilidade de 26 jogos no Pacaembu. O Inter quebrou a sina de não ganhar na estréia do Brasileirão.
Na verdade, a equipe do Corinthians não jogou ainda com o Inter, jogou apenas contra Nilmar e perdeu.
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