RESERVA TITULAR E MARADONA DOPADO
Fabrício Carpinejar

Hoje nem tudo é futebol para a torcida do Flamengo.
Hoje tudo é futebol para a torcida do Inter.
Isso para quem sobreviveu ao infarto na noite desta quarta-feira (20/5).
O colorado saiu vencedor aos 44 minutos do segundo tempo, em 2 a 1 eletrizante, e passa às semifinais da Copa do Brasil para enfrentar o Coritiba de Renê Simões. Foi uma decisão antecipada. O Flamengo mostrou-se destemido, com meio-campo compacto, boas assistências de Ibson, insistências barulhentas de Toró e um toque de bola rápido e objetivo entre Kleberson, Leo Moura, Juan e Zé Roberto.
Clássico nervoso, tenso, típico da série de mata-mata e da administração de resultados. Copa do Brasil é militar: para grandes estrategistas. Campeonato Brasileiro é civil: para os melhores técnicos.
O justo seria um empate. Um empate histérico que só existe na Copa do Brasil, quando gol fora vale dois e beneficiaria a Gávea.
Mas igualdade não rende boa ficção.
Sortilégio para a massa vermelha, fatalidade para a avalanche rubro-negra. O destino quis ironicamente que um jogador formado pelo Flamengo, Andrezinho, batesse a última cobrança de falta do jogo no ângulo do goleiro Bruno. Indefensável. O destino quis que Andrezinho selasse a vitória apertada, sem chance para reação, logo ele que estava apenas há quatro minutos em campo. O destino tem caprichos de romancista. Quem deveria cobrar era D' Alessandro, chutador oficial daquela e de outras distâncias. Mas Andrezinho se impôs, pediu a bola e fez. Avisou aos seus colegas: “jogador tem que ter personalidade”. Esbanjou temperamento, com aquela inconseqüência e talento trágico que formam os heróis. Se D' Alessandro errasse, não seria vaiado, assim como desperdiçou duas outras chances parecidas. Mas se Andrezinho turvasse a pontaria seria crucificado. Todos diriam que era exclusividade do D'Alessandro e ele roubou a derradeira oportunidade. O destino quis a soberba do subtexto.
Andrezinho renova a lenda de Escurinho (que entrava para definir o resultado na década de 70). É o reserva mais titular do colorado.
O destino quis que Nilmar ciscasse passe de Juan e disparasse, sinuoso, para servir graciosamente Taison na área. Lance absolutamente rápido - todo replay é insuficiente. Um a zero. Nilmar tem um jeito avoado entre os zagueiros, sugere que não está prestando atenção e de repente liga o motor e desaparece pelas pontas. É o falso distraído.
Com uma formação ofensiva constituída por Nilmar, Taison e D'Alessandro, todo ataque será um contra-ataque.
O destino quis que o Inter pagasse o valor exato da classificação e Lauro perdesse a invencibilidade de 639 minutos sem levar gol quando Emerson completou cruzamento na pequena área.
O destino quis que Guiñazu fosse o melhor na partida (o Rolo Compressor está virando o blog do Guiñazu). Deflagro uma campanha para a naturalização do argentino, que é o Dunga que Dunga nunca conseguiu ser. Ele corre e marca como um Maradona dopado. Não é somente a garra, é sua mobilidade feroz, acrobática, visionária dos desarmes. O volante mais completo que apareceu às margens do Guaíba.
O destino quis que Fernandão e Rafael Sobis (campeões da Libertadores) assistissem da arquibancada ao novo Inter, mordendo os lábios de nostalgia. Será que teriam lugar no time?
O destino quis, quem vai contestar a perfeição dos detalhes?
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