SOBRENATURAL DE ALMEIDA FILHO
Fabrício Carpinejar e Mário Corso


Pelé em cabeçada mortal, na Copa de 70: Gordon Banks defende e aponta existência de Sobrenatural de Almeida
O futebol é místico. Os homens chegam perto da santidade e da abnegação. Tudo o que o torcedor não rezou para sua mãe é capaz de fazer pelo time. Há gente que atravessa o campo de joelhos ou caminha descalço cem quilômetros para agradecer a promessa de uma taça.
O Espírito Santo, portanto, recrutou um atacante secreto para gerar mais emoção aos jogos. O vidente Nelson Rodrigues foi um dos raros escritores a identificar sua presença inaudita. Deu até nome ao falso ponteiro. Caraterizava lances inexplicáveis como obra de Sobrenatural de Almeida. Um frango impossível, uma trovoada na pequena área, uma mudança de rota da bola seriam ações dessa entidade que não se fardava por detalhe, mas sempre entrava no gramado e revolucionava o escore.
Sobrenatural de Almeida é o verdadeiro Atleta de Cristo. O legítimo. Com certeza, já deve tê-lo farejado e pressentido. Marcou suas apresentações na maioria das partidas inesquecíveis. Na Copa do Mundo de 82, ficou do lado da Itália e de Paolo Rossi, ao enterrar o assombroso espetáculo da seleção canarinho de Zico, Socrátes, Falcão, Éder,Júnior. Ou aquela bobeada de Cerezo tem alguma explicação objetiva? Claro que não.
O que não tem explicação é responsabilidade de Sobrenatural de Almeida.

Paolo Rossi: discreto centroavante a escandaloso goleador do Mundial de 1982. Como?
O gol do juiz José de Assis Aragão ao 47 do segundo tempo representou uma das maiores molecagens de Sobrenatural de Almeida. Santos vencia o Palmeiras por 2 a 1 na final do Campeonato Paulista de 1983. Mal colocado junto às traves, o árbitro intercepta um cruzamento de Jorginho e garante o empate do verdão.
Sobrenatural de Almeida fez grandes tabelinhas com Pelé, Garrincha e Tostão. A seleção de 70 teve dedicação quase exclusiva dele. Nelinho do Cruzeiro e Valdomiro do Inter batiam faltas para a cabeçada do vento (ou melhor, de Sobrenatural de Almeida). O chute em curva, com efeito envenenado, desnorteava os goleiros. Folha Seca do Didi é invenção do Sobrenatural. A bola bate em seu corpo invisível localizado na barreira e entra por cima. Devido à tamanha parceria, não duvidamos que o botafoguense Didi não tenha sido pai de Sobrenatural de Almeida.
José de Assis Aragão, o juiz goleador: "Não tive culpa, foi Sobrenatural de Almeida..."
O Inter contou com seu auxílio luxuoso para escapar da segunda divisão. O canhão de testa do Dunga nos minutos finais do embate com Palmeiras em 1999 não tem defensoria pública. Um gol do veterano Dunga já soava inacreditável, de cabeça simbolizava uma proeza mediúnica. Põe na conta Dele.
Cenas antológicas do esporte que desesperaram a torcida de alívio ou de tristeza são façanhas desse inacreditável artilheiro, que às vezes volta para ajuda a defesa e imunizar os goleiros.
Equipe para ser campeã depende de sorte. Sem sorte, não consegue, ainda que com talento, supremacia tática e craques. O tricolor de 1995 de Jardel e Paulo Nunes enfileirava adversários nos acréscimos, nos impossíveis descontos. Tanto que ganhou a Libertadores aos mágicos trancos e apagões. Há gente que credita a glória à Luiz Felipe Scolari. Errado: é façanha de Sobrenatural de Almeida, que converte times medianos em agremiações vitoriosas e esquadras imbatíveis em fatalidades e escolas de morcegos.

Galatto defende pênalti do Náutico. Sobrenatural de Almeida sucumbiu na Batalha dos Aflitos. Exagerou nos milagres em cinco minutos. Ninguém acredita até hoje.
Macumba não resolve, nem sapo enterrado. Alho tampouco assusta esposa. Psicólogo não aplaca os traumas. Nada é melhor do que Sobrenatural de Almeida. Pena que ele morreu por excesso de trabalho. Seu falecimento ocorreu em pleno exercício da função, numa sobrecarga dramática e insalubre. No jogo entre Grêmio e Náutico conhecido como Batalha dos Aflitos, em 1995. Ele exagerou nos efeitos messiânicos. Momentos derradeiros do duelo: Náutico vai cobrar pênalti para definir a classificação para a Série A, Grêmio tem sete jogadores em campo. De repente, Galatto defende a penalidade (a segunda na partida) e Anderson limpa a zaga inteira de Recife e embala a rede. Grêmio de volta à primeira divisão num resultado incompreensível. Sobrenatural de Almeida só podia morrer mesmo.
O consolo é que deixou um herdeiro, Sobrenatural de Almeida Filho, que assumiu o negócio familiar de empresariar acidentes e prodígios da bola. E com igual competência misteriosa.
Desejoso de vingança pela morte paterna no confronto do Grêmio, protege o Inter no Campeonato Brasileiro (100% de aproveitamento com três vitórias e nenhum gol sofrido) e na Copa do Brasil (semifinalista). O Gigante da Beira-Rio anda enamorado de seus serviços. Uma sucessão de aparentes milagres justifica sua aparição e fama imediata. O gol de placar de Nilmar no Corinthians, a bucha de Andrezinho em cima do Flamengo no instante súbito e agora a defesa de Lauro em jogada do Goiás na rodada de sábado (23/5), no Serra Dourada. O que foi aquilo? Lauro estava inerte quando a bola bate nas canelas do volante colorado Sandro e segue forte para dormir no canto oposto. Não é um atacante adversário que completa o cruzamento, e sim um defensor do próprio time, em desvio altamente inesperado.
Lauro mergulha num reflexo e espirra a bola com a mão esticada. Uma cusparada de luvas. Questão de vida ou morte decidida em segundos. Mais impressionante do que isso somente o salto do inglês Gordon Banks (muralha mitológica da Inglaterra), numa cambalhota ao contrário, em cabeçada para o chão de Pelé, acintosamente letal, no Mundial do México.

Sorte colorada pode ser vingança de Sobrenatural de Almeida Filho pela morte do pai em jogo do Grêmio.
O Sobrenatural e o futebol não constituem capítulo à parte, é mais um lugar para nos assombrar. Não tem preferência por posições, às vezes revela seus caprichos a favor dos goleiros. Alguém ainda duvida que Lauro acabou “espiritado”?
Nenhum demérito em atribuir certas defesas ao Sobrenatural. É um elogio, já que ele não se afeiçoa a personalidades pequenas, acabrunhadas, toscas. Sobrenatural de Almeida Filho antecipa grandes destinos.
Senhores, ele não está preocupado se acreditamos nele. Existe e pronto. Não tem pretensões de convencer os céticos - apenas acontece. Fará justiça com as próprias mãos e injustiça com os pés.
Completou o milésimo gol no anonimato. Não alimenta vaidade, não procura os câmeras da Globo, bem acontece na frente delas e em mesa de bilhar num bar fuleiro de Cachoeirinha para dois espectadores.
Solto pelo mundo, dispersivo pela linha de fundo. Tal Saci (mascote do Inter) que surge quando quer e some num redemoinho de poeira. Beija quando excitado e larga a beldade nos primeiros sinais de tédio. O Sobrenatural pode ter simpatias, mas não um contrato, muito rarefeito para ser preso. Não casa, é um amante temperamental, fica enquanto lhe convém, enquanto ama e é cortejado. Prefere os amores doidos que se instalam na vida dos outros sem fundamentar o motivo e saem porta afora sem decretar o fim. O Sobrenatural muda de time na mesma partida, muda de lado no mesmo campeonato, volúvel conspirador do destino e amigo das intrigas.
Ao pensarmos que dominamos o futebol, ele aparece para confundir os olhos e criar novas dúvidas.
Coloque na súmula, por favor. O 23º jogador em campo é o Sobrenatural de Almeida Filho.
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