O ANIMAL TORCEDOR
 
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Fotografia de Mirian Fichtner

Torcedor não se mistura - que digam as torcidas organizadas! Há charangas em cada setor do estádio e fora dele. É mudar de portão que mudamos de jogo. Experimenta sentar na Geral e sofrerá um abalo sísmico digno do México. Não dá para cruzar as pernas. É vivenciar um dia no corpo de Ivete Sangalo.
 
O torcedor vem se transformando drasticamente, não é mais a "lagartixa profissional" denominada por Nelson Rodrigues, aquele que subia pelas paredes. São outros bichos que tratamos de catalogar, seguindo as resoluções do último Congresso de Psicanálise do Esporte (Estocolmo 2007).

Corvo (torcedor depressivo)


Odeia multidão. Foi traído pela mulher e lustra seus cornos como medalhas do exército. Aproxima-se do time quando queima no inferno. Curte uma segunda divisão. Realmente sofre com o rebaixamento e derrotas no final de semana. Identifica-se plenamente com a má fase. Quando o clube se recupera, tende a se afastar, alardear que a bonança é passageira, que não estamos tão bem assim. Recorda-se sem parar dos dias das derrotas, dos jogadores machucados, das bolas nas traves, dos gols não marcados, dos títulos perdidos. O quase gol é narrado como se fosse o verdadeiro gol.
 
É avarento, compra a camisa do time em liquidações de camelô.

Gato (torcedor bipolar)

Ele está todo enrolado, ronronando, gostando da carícia. E do nada, dá uma unhada. Pois assim é o torcedor bipolar. Ama seu time, acha que é o melhor time do mundo, agradece aos céus por ter um avó desse time, um pai desse time e freqüentar a confluência de gerações no amor pelo time glorioso, maravilhoso, invencível, no rumo certo a Tóquio. No domingo seguinte, após uma derrota, diz que seu time é uma merda, que a culpa é do seu pai, que ele é um fracassado e ensinou a amar um time fracassado, que está caindo para segunda divisão de uma forma inapelável. O torcedor bipolar não lembra na semana seguinte o que falou na anterior.

Leão de zoológico (torcedor hipocondríaco)

Esse torcedor anda de médico em médico até achar um cardiologista (mas pode ser um dermatologista) que lhe proíba de assistir os jogos do seu time. Não pode nem na TV, nem no rádio, campo então nem pensar. Ele alega que seu coração não agüenta e vai morrer torcendo. Tenta em vão convencer os médicos do seu estado terminal, mas eles têm a mania de se basear em exames, e os exames não acusam nada. “Claro que estão bons – diz o hipocondríaco - "eu não estava assistindo a um jogo durante o exame...”
 
Não gosta de futebol e não tem como largar perante os amigos. Por uma questão de hombridade, finge que não pode adoecer com as partidas, pois tem filhos para criar. Costuma morrer vendo o Faustão. 

Hiena (torcedor paranóico)

Seu time tem um elenco irretocável, mas não ganha por culpa da imprensa, que é dominada pelo rival, fica só falando das falhas e das derrotas e puxando seu ego para baixo. Os jornalistas não mencionam seu time senão quando é impossível não lembrar, e num espaço simbólico.
 
Seu time é um diamante bruto, mas está debaixo da lama por culpa da diretoria que é dominada por uns burocratas vampiros que roubam o patrimônio e o torcedor.
 
Seu time empatou ou perdeu por culpa dos árbitros. De outros estados, perseguem seus jogadores, deixam os craques serem caçados e destruídos em campo e marcam qualquer faltinha boba de sua equipe. São todos uns fias das...
 
Ele só reclama, não tem tempo de formar a própria opinião. Usa sabonete líquido para evitar pêlos estranhos. Olha mais para trás do que para frente. Perde a maioria dos gols observando os gândulas. 

Caramujo (torcedor fóbico)

Torcedor reprimido, que não deixou o criado-mudo, quiçá o armário. É um caso difícil. Ele tem medo de ser reconhecido pelos colegas do trabalho, pela própria mulher e pelos vira-latas dos viadutos. Torce em silêncio, disfarça o seu time, mente que não está nem aí para futebol. Escuta o jogo num radinho de pilha fechado no banheiro. Quando perde, tranca o choro. Quando ganha, mostra um sorriso, mas procura não se exaltar, é absurdamente contido.
 
Arca com uma prisão de ventre, que pode durar três rodadas.
 
Todos os quadros de patologia do torcedor incluem o item superstição, mas o fóbico atinge o ápice da extravagância. Cada cueca, cada camisa, cada camisinha tem uma planilha de possibilidades dependendo dos últimos jogos. Leva uma hora para botar a roupa nas decisões. 

Macaco (torcedor de dupla personalidade)

Não acompanhou nenhuma rodada, nenhum lance, não é capaz de sussurrar o nome de um jogador vivo e, de repente, descobre que seu time é campeão e festeja com a arrogância de seu aniversário.
 
As carpideiras eram mulheres contratadas para fazer número e chorar em velórios pouco freqüentados. O macaco é o cabo-eleitoral de aluguel.  Nunca foi oposição. Surge para buzinar e soltar foguetes sem ter participado da batalha. Funciona por lobby, para dividir o status e levantar a taça. Egresso de uma longa trajetória em cargos de confiança. É o puxa-saco governista. 

Hamster (torcedor melancólico)

Gira e gira e permanece no mesmo lugar. O bom time já foi, e os melhores dias não virão mais. Conhece de cor a escalação de vinte anos atrás e não consegue citar três posições do plantel de hoje. Não dá bola para a realidade, sua realidade está cravada num passado suntuoso. Recorda da época fugidia, fantasmagórica, quando tinha colhão e vontade de transar mesmo com um empate fora de casa.
 
Embora veja os jogos de costas, é o último torcedor a sair do estádio. Encolhido miseravelmente na arquibancada, enrolado numa bandeira gasta, relíquia da Guerra do Paraguai. 

Lambari (torcedor Alzheimer)

Ele tem um time, só não lembro o nome, mas já está vinda na cabeça, é um que tem duas cores, ou são três? Que tinha um jogador que foi para a seleção na copa de... que jogava na... é o mesmo time do... que depois foi para o... foi campeão!

Pediu para família bordar o distintivo do clube em todas as camisas, só às vezes ele não lembra bem o que é aquilo.

Pitbull (torcedor psicopata)

 

O time é uma excelente razão para encher de porrada os adversários ou de quem lhe atravessar na frente. Em caso de derrota, puxa briga para desafogar as mágoas. Em caso de vitória, puxa briga para afirmar sua superioridade. Em caso de empate, oferece cascudos e cicatrizes. Afinal, empate é uma droga, não é mesmo?
 
Não usa coleira. Vive em torcida organizada para aproveitar a bagunça e morder e babar à vontade. 

Ornitorrinco (torcedor esquizofrênico)


 
Torcedor indefinido por natureza. Tem pé e bico de pato e é um mamífero. Pode ser final de Mundial e vai trabalhar normalmente. Há meninos que vestem, escondidos, a roupa da mãe. Aqui o problema é maior: ele pegava a roupa da avó durante a infância. 
 
Deixa a mulher assistir a todos os programas no domingo. Nem utiliza o controle remoto.
 
Nos tipos mais trágicos (por sorte, raríssimos),  é o torcedor que muda de time. Os doutores são taxativos, e não dão nem as falsas esperanças. Isso não tem cura. Pode internar e jogar a chave fora.

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