SÍNDROME DO TATU

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Na pequena área: todos têm razão na maior falta de razão. Lauro e Kléber mostraram o modelo moderno de suas chuteiras.

Homem crê que seu carro é uma ilha deserta. Que ninguém o enxerga.

Confia que é sua casa e os vizinhos estão longe. Confunde as quatro portas com as quatro paredes. Não percebe que está num aquário. As qualidades do vidro são mal assimiladas, sente a frieza e a solidez como de um azulejo e pensa num banheiro.

Tomado da impunidade, exercita o pior de sua solidão: mexer no nariz.

E não percebe que os ônibus passam, que as vans passam, que os outros motoristas reparam sua movimentação olfativa pelo retrovisor, que existem sinaleiras e engarrafamentos ideais para a espiadinha ao lado.

O homem não bota na cabeça que o automóvel não é um banheiro com rodas. Quem já não enxergou uma porrada de gente metendo a mão nas fossas nasais. Sem pudor. Colocando o cotovelo para dentro do desvio de septo. Desentupindo os poços. Partindo um cabide e entortando o gancho para uma prospecção mais profunda.

Não é coragem, é descaramento. Livre dos condicionamentos sociais, age com a tirania primitiva, selvagem. Se o nariz incomoda, coça com o indicador. Dança uma valsa de debutante com o indicador. Depois examina atentamente a caça, a consistência e o tamanho, antes de se livrar do efêmero troféu.

Acredita que está no último refúgio onde as câmeras do Grande Irmão não penetram. Deleita-se com a invisibilidade. Embora consiga ver a cor do batom que a mulher do carro ao lado passa nos lábios, mas não se dá conta que pode ser visto em delito. Estranha esquizofrenia automobilística.

No futebol, a pequena área é o carro dos jogadores. Partem da ideia de que o juiz e bandeirinha não estão enxergando, especialmente nas cobranças de escanteio.

Cotovelaços, empurrões, safanões, tapas, mão na bunda, dedo no olho, cusparada na cara, não há limites para os zagueiros e centroavantes. São tantas faltas num único lance que o árbitro não marca nenhum. Quem nunca esteve numa área durante um escanteio não tem a noção exata da palavra vilania.

Todas as regras podem ser aplicadas para o resto do campo, menos para a pequena área. Território do vale-tudo. É onde o jogador mexe o dedo no nariz. Do outro. E costuma sangrar.

Os goleiros são a parte mais sensibilizada, afinal acontece na casa deles, a pequena área é íntima como uma quarto de casal. Sofrem como uma dona de casa com visitas mal educadas, de pés sujos. Não dá para expulsá-los a vassouradas.

Neste domingo (7/6), no empate entre Inter e Cruzeiro no Mineirão, a síndrome do tatu arrebanhou mais uma vítima, o goleiro colorado Lauro. Sempre calmo e tranqüilo, pisou propositalmente no pé do atacante Kléber.

Kléber provocou o arqueiro com uma bicada de chuteira e Lauro revidou com uma agressão bem mais imponente. Os dois foram expulsos.

Renan não queria bater: estava somente se espreguiçando ou procurando apoio.

A mesma doença da infabilidade atingiu o goleiro do Inter do ano passado, Renan (hoje no Valência), no Gre-Nal de 370. Numa saída simples, Renan esticou a perna para chutar Rodrigo Mendes, do tricolor. Para quê? Pênalti mais do que gratuito, que garantiu o empate ao adversário. O arqueiro alegou que se protegia e buscava o equilíbrio. Ou que se espreguiçava durante o vôo e necessitava de mais espaço para as pernas.

Faz favor... O mais grave da violência é a justificativa furada do agressor.

O que Lauro imaginou?

Como seu antecessor nas traves do Inter, que não seria visto. Inventou de cair no chão para fingir uma contusão - não colou. Talvez intuiu que escaparia do castigo pela confusão, pelo acúmulo de atletas numa jogada, pela multidão agitada.  Mas e as câmeras de tevê?

Foi ingênuo. O ingênuo é aquele que não conseguiu ser malandro secretamente. Fracassou ao esconder sua maldade. Pois o que mantém a maldade invisível é elogiado. O que bate e não é pego recebe a adesão do estádio. Termina considerado um líder, um guerreiro, Spartacus da Lei de Gérson.  

Lauro não foi criticado por ter mexido no nariz, mas por ser flagrado.

Algo está seriamente gripado no futebol. Congestionando o cheiro do gol. 

Ou se coloca vidro fumê na pequena área ou se dá carona ao juiz.

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