SER SUPERIOR NÃO É SER O MELHOR

Fabrício Carpinejar

Corinthians teve o resultado ideal na final da Copa do Brasil no Pacaembu na noite dessa quarta (17/6): 2 a 0 sobre o Inter.

Não levou gol que dobra fora de casa. Manteve um escore folgado, duro de ser alcançado, e pode ainda correr de alma livre e sem culpa para arriscar seus ataques fulminantes de Ronaldo, Elias e Dentinho.

O Inter somente será campeão se conseguir a noite perfeita no jogo de volta no Beira-Rio, dia 1º/7: gol no início, o que significa acertar as finalizações e furar a retranca que será braba de Mano Menezes, e Lauro não poderá vazar de jeito nenhum, senão impõe a necessidade de uma goleada. E a perfeição pode ocorrer duas ou três vezes ao ano para um time muito bom. Não é caso de milagre, e sim de atuação impecável. Milagre é para time ruim.

A dialética do futebol vingou nos primeiros noventa minutos da decisão. Ser ou não ser, é e não é.

Porque o Inter foi superior ao Corinthians, mas o Corinthians foi melhor do que o Inter. Como isso?

Ser superior não é o mesmo que ganhar o jogo. Ser melhor não é o mesmo que dominar a partida.

A superioridade do Inter esteve exposta no conjunto, no volume, na macroestrutura. O detalhe é que faz o outro ser melhor. A superioridade é a capacidade de encaminhar resoluções, de propor situações de perigo; o detalhe é a capacidade de resolver. O Inter foi talentoso; Corinthians foi competente.

O timão criou dois ataques letais no princípio de cada tempo: Jorge Henrique aos 26 do 1º e Ronaldo destroncando Índio numa corrida desenfreada aos 8 do 2º. Dois incêndios nos momentos certos. Um time melhor trabalha o que precisa ser feito. Um time superior trabalha mais do que deveria ter feito.

Natural o clube derrotado culpar o juiz. Alegar erros imperdoáveis de Roberto Lopes, dizer que Elias bateu a falta em movimento que resultou no segundo gol, pegando a zaga colorada desprevenida, e de que Alecsandro sofreu penalidade explícita. Bom para catarse, não é o que formou o placar.

O Inter ficou no quase toda partida: ficou no paredão do goleiro Felipe. Taison tornou-se a encarnação da superioridade inofensiva, driblou como Garrincha, puxou uma tripa de paulistas para roda de samba, e vacilava na hora de concluir. Se ele tivesse limpado Felipe, se ele tivesse chutado antes quando furou a zaga, se ele... Talvez sentiu saudade de Nilmar. Taison cumpriu formidavelmente Taison, não poderia ser Nilmar. Taison gosta do drible mais do que do gol. Nilmar gosta do gol mais do que do drible. 

Na ponta oposta, Ronaldo assumiu o modelo da eficiência. Apareceu três vezes com força, cumpriu uma delas. Paga seu cachê com uma simples arrancada. 

Há duas escolhas para a torcida colorada: aceitar a instabilidade da emoção, aguardando reforços de D' Alessandro, Kléber e Nilmar, ou se desesperar diante da racionalidade da vantagem.

O heroísmo depende de tudo o que se perdeu antes. 

CATIMBA E CERA
OU A ESCOLA DE CULPA BAIANA

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Viáfara, goleiro do Vitória: tiro de meta em câmera lenta. Cera no estágio mais avançado.

"A arte e a técnica da catimba ao alcance de todos" é um livro anônimo. Ninguém conhece ao certo quem o escreveu, mas os estudiosos confirmam que veio da Argentina e foi aperfeiçoado no Uruguai. O manual apresenta as principais estratégias para vencer uma partida no cansaço.

Mas vamos às distinções de boteco, que cerveja nunca é igual.

Catimba é uma coisa; cera é outra bem diferente. Catimba acontece quando o jogo está ganho e a equipe deseja manter o placar favorável até o final. Muito empregada em finais de campeonato ou no mata-mata.

Argentina: catimbeiros originais

É segurar o jogo de propósito, com talento do blefe. Espécie de drible feito pela equipe inteira: manter a bola na frente, na linha do escanteio do adversário, ora cavando faltas, ora imprimindo ações repetidas à exaustão. A catimba produz ainda "olé" na torcida. Há garra, movimentação, entrosamento, chutão para a arquibancada para abafar contra-ataques. Em suma, ação, apesar de controlada.

 

Iarley: sua catimba ajudou o Inter na conquista do Mundial contra o Barcelona

Por sua vez, a cera somente cria bocejo. É a arte de vencer sem fazer gols. Ou melhor, empatar de qualquer jeito. Os adeptos da cera jogam para os outros não jogarem. Concentrados em dispersar a triangulação, desagregar o grupo, repelir tabelas. Uma disposição cavalariça para a deserção. WO que acontece durante a partida. Os jogadores depilam unicamente o gramado. Limpam os entulhos, aparam a grama.

Ao torcedor, significa pagar o ingresso para assistir ao jardineiro cortar o gramado. Não será um espetáculo, convenhamos.  Xadrez teria mais emoção.

Prepare-se para tomar uma geladíssima... sopa de tartaruga. Exercícios de Tai-chi-chuan e meditação ajudam a se concentrar para a nulidade futebolística. O observador pensará que é medicação psiquiátrica e retardo mental, mas não, é treino e mais treino de cobrança de lateral; cera é o domínio da resistência ao futebol.

Trata-se de uma moleza filosófica, produto da técnica alemã e dinarmaquês do desespero, embebida das lições de "quanto pior melhor" de Arthur Schopenhauer e Søren Kierkegaard

Catimba é de técnico retranqueiro. A cera é executada pelo técnico medroso.

A catimba é uma ciência de conservação do resultado positivo, com passos muito claros, em que a briga e a pancadaria são calculadas. A cera é um aglomerado de desmandos e improvisos emergenciais. Mais do que isso, representa um estado de espírito da inutilidade. Nada pode acontecer. Nada pode dar certo. Você tem que acreditar, ser possuído pela lerdeza, maximizar cada movimento, enfim, não é para todos. Vai doer cada arremesso, o atleta será tomado de amnésia na saída da zaga(Onde estou? Quem sou eu?), esquecerá os fundamentos básicos do passe e do drible.

Os segredos e meandros da cera foram fartamente demonstrados no empate sem gols entre Internacional e Vitória neste domingo (14/6), no Beira-Rio.

Nunca cogitamos que a equipe da Bahia comandada por Capergiani teria a capacidade de aplicar um antijogo perfeitamente insuportável. Nem podemos chamar de suicídio, é um deicídio: Deus esteve morto durante noventa minutos. Onde se aguardava um trio elétrico, encontramos a escola germânica da culpa. Já no início do embate, o goleiro Viáfara (o nome parece de personagem tuberculoso de Thomas Mann) demorava a desferir o tiro de meta. Penteava o cabelo, coçava as costas, amarrava as chuteiras antes de tocar a bola. Faltou unicamente telefonar para sua mãe.

Adiamento é pouco. O mausoléu nordestino permanecia atrás. Uma preguiça de lápide e musgo. Um ócio nada criativo. Tanto que o juiz concedeu um minuto a mais dentro dos três dos acréscimos. Duas substituições surgiram para esmorecer a pressão do Inter. O zagueiro Bolívar empurrou Roger do Vitória para sair de campo.  Os atacantes colorados ajudavam os gandulas na reposição da bola.

Os baianos não caminhavam, engatinhavam. A bola era um chocalho. Nenhuma criança teve sequer ânimo para chorar na rede.

Apague o confronto do Inter e Vitória da tabela do Brasileirão. Por amor à maternidade esportiva.

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