MILAGRES POR ENCOMENDA
Fabrício Carpinejar

Milagres não podem ser encomendados no futebol.
Conclusão que chegamos com atraso. Não era possível tele-entrega de milagre no Beira-Rio.
- Ei Jesus, pode entregar três a zero sem susto na Padre Cacique? Não demora muito, tá? Tem cinqüenta mil crianças famintas aqui. Se possível, em trinta minutos...
Não dava, né?
Milagres surgem dentro do jogo, por obra e mérito do jogo, pela reação incontrolável do ataque. Não existe modo de ser premeditado, planejado pela direção. A desvantagem da primeira partida exige uma atitude controlada e menos precipitação (recordemos da afobação nas finais de 1987 e 1988, no Campeonato Brasileiro/Copa União, contra o Flamengo e o Bahia, e o mesmo fracasso da segunda partida diante do placar desfavorável da primeira).
O que atrapalhou o Inter nesta quarta (1º/7) contra o Corinthians foi o milagre. Teve mais fé do que futebol.
O milagre tensionou a equipe antes do tempo. Atletas desesperados antes de começar. Monopolizaram todas as tabelas pelo meio, privilegiando o toque ao invés de acessar os laterais. Com a marcação cerrada do Timão, Taison e D'Alessandro desapareceram. Bolívar e Kléber apanharam atrás e não conseguiram apoiar na frente.
A pressa do milagre apagou o Inter. A bola escapava com rapidez, a posse logo era cedida para o adversário. Faltou liderança dentro e fora de campo. Faltou sangue-frio.
A equipe mostrou-se profusa e desordenada à semelhança dos torcedores aflitos, ao invés de tranquilizar os torcedores com a segurança das investidas. Parecia que os paulistas atuavam em casa.
As chances de Nilmar no primeiro tempo foram de qualquer jeito.
Quando um jogador precisa passar por meia frota inimiga para recuar alguma coisa está terrivelmente errada. Era o que acontecia. Guiñazu limpava um, dois, para voltar e começar de novo.
Corinthians fez o que o Inter deveria fazer em 45 minutos: dois gols, de Jorge Henrique e André Santos. Corinthians fez o que o Inter deveria fazer: abrir pelas pontas, buscar o contra-ataque, mudar de lado, esperar o bote.
O Inter deveria ter esquecido o resultado anterior (derrota pela diferença de dois gols no Pacaembu) para se concentrar no momento. Pensou nos juros da dívida e não em modos de quitá-la.
Desespero está longe de representar determinação.
Corinthians do discreto Ronaldo e do regente Jorge Henrique mereceu o título da Copa do Brasil. Compacto, orgânico e equilibrado. Mano Menezes montou uma equipe sem arestas, sem avalanche, sem destempero.
Alecsandro, que empatou a partida com dois gols, e Andrezinho aparecerem como os melhores do colorado, justo porque estavam na reserva. Não participaram da histeria molecular, da inconseqüência hormonal do início.
Inter apareceu como adolescente diante de um pai de família responsável. Briguento, maníaco de razões, estourado como mostrou D' Alessandro (expulso) e Bolívar (cartão amarelo).
Perdeu para a ansiedade. Confiou no destino e abandonou sua inspiração.
INTER E CORINTHIANS:
VINGANÇA ACUMULADA
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Futebol é vingança.
Um jogo nunca termina, resposta de um escore anterior. De uma derrota amarga. De um erro de arbitragem. Da influência da cartolagem. De uma intervenção divina.
Rivalidade é vingança acumulada: os dois times têm um recalque para superar.
O apito final é um mero detalhe, uma formalidade para enganar a aflição e prevenir ataques cardíacos.
A seleção brasileira entrará infinitamente no estádio Sarriá para enfrentar a Itália. E se recuperar do 3 a 2 que eliminou a esquadra maravilhosa de Zico, Sócrates e Falcão da Copa de 1982. Até cansar de ganhar. Assim como a azzurra se vingou da goleada de 4 a 1 na decisão de 1970.
O carma pode durar meio século. O Brasil não se recuperou do Maracanaço, o naufrágio de 1950 diante do Uruguai com mais de 200 mil torcedores esperançosos de uma ultrapassagem simples.
Inter e Corinthians são duas equipes altamente rançosas, enérgicas, populares. Não é a Copa do Brasil que será arrebatada na noite dessa quarta (1º/7), às 21h50. É outra coisa. Funda e pantanosa, acima do inferno e longe do céu.
É a confirmação de caráter. É a procura da palavra derradeira, da lição de moral, da flauta militar, do silêncio súbito, da devolução do troco da história dos confrontos.
Inter estará se vingando do tapetão do Brasileiro de 2005, quando a suspensão de jogos garantiu o título ao Corinthians, da penalidade não marcada em Tinga no embate entre os dois times, na saideira daquele confuso campeonato.
Corinthians estará se vingando dos gols de Dario e Valdomiro, na conquista do bicampeonato colorado do Brasileiro, em 1976, do placar de 2 a 0 conduzido pelo exército de Minelli.
Transcorreram mais de trinta anos, mas a vingança é sempre agora, é sempre hoje, não importa o tempo. Muitos corintianos ainda pensam como que não entrou o chute de Ruço, que pipocou na trave.
Inter e Corinthians talvez sejam as formações mais vingativas e mais desesperadas do país.
Vingança é retroativa, nada fica para trás, nada fica em aberto. A estratégia é criar um trauma no outro para esquecer o próprio trauma. Repassar o trauma adiante. Livrar-se momentaneamente da sensação de luto imperdoável.
O Inter quer se redimir da vantagem de 2 a 0 do primeiro duelo no Pacaembu. Da falta cobrada com a bola em movimento de Elias que deu uma barbada a Ronaldo. Terá que aplicar três estufadas num sufoco interminável, sendo que o Mano Menezes não perdeu nenhum jogo por mais de dois gols.
Se não houvesse vingança, seria impossível.
Não é cruzamento para empate e retranca. Tudo ou tudo dos dois lados. Inter retorna com time completo, com Nilmar, Taison e D' Alessandro no ataque, Bolívar e Kléber nas laterais, Giñazu, Magrão e Andrezinho no meio. Não há desculpa, Tite armado de sua constelação de fuzis.
O Inter não está se vingando apenas do Corinthians, mas de si mesmo. Por Taffarel, um de nossos melhores goleiros que não ganhou nenhum título aqui. Por Tesourinha, impedido de participar da Copa de 1950. Por Oreco, comprado em troca da construção de um muro. Por todas as partidas que Escurinho ficou na reserva esperando entrar. Pelos dois pés destros e machucados de Carlitos. Pelos dedos tortos e quebrados de Manga.
Não se joga pelo futuro, e sim em nome dos ancestrais. Futebol é tribal e tendencioso. Um coliseu em que leões matam leões - homens são presas muito lentas e fáceis.
As goleiras do Beira-Rio serão esquinas de macumbas.
Compreenda, não é uma partida, é uma vingança. As veias latejam na ponta das chuteiras. Galinhas e galos entram no sacrifício ao longo da noite. velas crepitam, mandinga, quero-quero acendendo o inverno. A torcida pesa as arquibancadas para baixo.
A eternidade tem noventa minutos. Vermelha como o sangue.
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