AS MÃOS E OS PÉS
Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Arte de Leonardo da Vinci
Sempre que um goleiro comete uma falha é capaz de defender um pênalti na mesma partida. Não entendemos a lógica, é o que costuma acontecer. Basta recordar de Marcos no clássico Palmeiras e Atlético no Mineirão na última quarta (12/8), que garantiu o empate de um a um e embaralhou os líderes na virada do primeiro turno do Brasileirão.
Talvez seja a lei da compensação, talvez o goleiro seja o Cristo do futebol. Precisa morrer e voltar à vida para ser valorizado. E a maioria das torcidas pratica o ateísmo e não acredita nele. Fé no futebol é confiar no goleiro. O resto é realismo.
O torcedor jura que toda bola é fácil para o goleiro. Toda bola é simples. Toda bola é acessível. Goleiro tem que fazer milagre para chamar atenção. Se largar, é inseguro. Se tapear, é imaturo. Se errar o tempo da saída, é preguiçoso.
Para ganhar a credibilidade de um atacante, deve defender de costas, mudar o rumo do corpo, subir três andares.
No fundo, o goleiro é tratado como um privilegiado. Um favorecido. Um filhinho de papai. Questionado eternamente pelo uso das mãos. Como se estivesse roubando. Tanto que é obrigado a ficar debaixo das traves nos noventa minutos. A goleira é uma cela especial.
No imaginário popular, o goleiro representa uma infração legal. Nunca se teve a certeza se ele é considerado um jogador ou o melhor amigo dos jogadores. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.
Não foi perdoado pela diferença. Muito menos por depender das luvas. É o único jogador que tem escudos no gramado. Os demais atletas estão desarmados.
Por que a intolerância?
O futebol é o reverso do mundo produtivo, o ócio alegre, a diversão intuitiva. No dia-a-dia quem governa são as mãos, símbolo do trabalho. Não dizemos: mão-de-obra, dar uma mãozinha, botar a mão na graxa? A mão é a nobreza, é ela que escreve, que opera máquinas, que aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes. Os pés estão a serviço das mãos.
Ora, no mundo do avesso, da brincadeira, são os pés se revoltaram contra suas limitações e comandam o espetáculo: dançam e jogam bola. No campo de futebol a mão não vale, não entra em campo. Pudessem tirá-la os jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia na corrida, mais nada. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante das cobranças (você já ouviu falar num grande cobrador de lateral?).
No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento, podem mostrar sua força e sua perícia, sua pontaria e destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés partilha treinos secretos. Mão é cultura, pé é natureza. Podemos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia.

O pé como parte mais baixa do corpo, mais ligada ao chão, mais bruta recebe seus encantos pela sua condição animal, pela sua força indomável. O pé é fetiche para as mulheres, vejam quantos sapatos elas possuem. Mas o pé feminino é um pé passivo, para ser visto e admirado. Os pés para os homens são ativos, não são para olhar, ninho de unhas encravadas e penugem primata; são para chutar, para correr, para driblar, para cavar o ar quando o natural é levantar a terra.
Os pés do futebol realizam o impossível, desenham o vento, pintam o invisível, criam janelas, balõezinhos, meia-lua, corta-luz. Uma gramática da fugacidade.
As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, contratuais, selam pactos e acordos, casamentos e bruxarias. São elas que deslizam pelo corpo da amada e acenam nas despedidas. Os pés querem sua parte, sua inteligência motora. Ganharam os gramados de domingo para integrar o corpo.
O futebol é a alma que inventamos enquanto a eternidade não chega.
|
|
|||
![]() | |||
|
|||