DOR DE COTOVELO DE FERNANDÃO

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A mão de Maradona é de Deus, mas seus pés são do demônio.

O cotovelo de Fernandão é do Inter. Continua sendo.

O cotovelo o traiu em sua estreia no Goiás, contra seu time de coração, que o consagrou como capitão do Mundial e da Libertadores.

Fernandão não suportou jogar contra a enxurrada vermelha de trinta mil torcedores. É a única explicação.

Restou uma confusão amorosa, um desentendimento entre ele e o diretor Fernando Carvalho, que não teria feito uma proposta e o deixou livre para voltar à Goiânia.

O ídolo não tocou na bola, sequer matou saudade da grama do Beira-Rio, sequer se envergonhou de seus toques rápidos.

Foi expulso aos dez minutos de jogo por um cotovelaço em Magrão. Um cotovelaço inexplicável em seu antigo colega. Uma desonra para quem sempre demonstrou disposição e nunca violência. Podia sair do jogo brigando com o juiz, não com um antigo companheiro, numa entrada desleal e peçonhenta. Não combina com seu perfil aglutinador e diplomático. 

Fernandão explodiu, com um homem explode quando se vê traído por uma mulher. Como explode ao ser despedido de casa.

Devia ouvir Elis Regina em seu headphone cardíaco enquanto a torcida cantava paródia de Mamonas Assassinas:

"Beber pra esquecer é teimosia
Hoje muito whisky, muita alegria,
Amanhã ressaca, saco de gelo
O bar não é doutor que cure a dor de cotovelo

A dor pra curar não tem receita
É corcunda que se deita
Sem achar a posição
E sentir saudade não faz mal
Não é no fundo do copo
Que você vai encontrar sua moral

Beber pra esquecer..."
 
Uma passionalidade que a tiara não conseguiu segurar. Ao subir para cabecear, desceu o braço. O cotovelo. Seu calcanhar de aquiles é o cotovelo.

Seu cotovelaço mostrou sua dor de cotovelo. Escancarou uma dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues. Soltou os cabelos como um chicote. Uma dor de cotovelo que o lembrou outra dor, a de corno. A infidelidade do Inter teve seu troco involuntário, desembaraçou sua raiva no ar.

Não percebeu que prejudicou seriamente o Goiás, goleado implacavelmente por 4 a 0. Inter assume a terceira colocação e encosta na liderança com um jogo a menos (37 pontos, quatro a menos do que o Palmeiras). Só um clube jogou em campo. Só o Inter. Se Bolaños fosse Alecsandro (machucado) teria sido sete ou oito tranquilamente.

Fernandão não falou com os jornalistas, não tinha voz para justificar sua ira.

Saiu calado para embaçar a televisão e testemunhar Guiñazu matando Harlei e dizendo simbolicamente que o capitão agora era ele. Para acompanhar o meteoro Marquinhos, garoto que assumiu a condição provisória de titular e desencantou, confundiu os olheiros espanhóis, ingleses e italianos sempre camuflados nos camarotes, embaralhou inclusive o Google: Quem é ele? Quem é ele? Fez um golaço com requinte de crueldade, alçando com carinho a bola sobre o goleiro após destroncar zagueiro, tabelou com Guiñazu no segundo gol, iniciou a jogada do terceiro.

Fernandão não conseguiu desligar o massacre. Babou Giuliano, o regente. Além do oportunismo do terceiro gol, movimentou-se entre a zaga e o ataque com ambição e regeu os contra-ataques com sua batuta destra.

E era uma noite de gala para Magrão, Kléber, Fabiano Eller, Índio.... Todos atuando de fraque, num baile de debutantes. O olé substituído ao final pelo "Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky.

Tãn Tãn Tãn Tãn Tãn

Menos para Fernandão. Além de ser traído, acompanhou seu clube jogando muito melhor sem ele.

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