O RETORNO DO CENTROAVANTE

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

 

Depois de dez partidas sem fazer gol, centroavante é enforcado pela torcida. Desenho de Goya.

Confira a lista dos goleadores do Brasileirão: Val Baiano (Barueri), Marcelinho Paraíba (Coritiba), Jonas (Grêmio) e Roger (Vitória), seguidos de Adriano (Flamengo), Alecsandro (Internacional) e Gilmar (Náutico).

Há algum craque? Não, alguém pode objetar e avisar que Adriano é um atleta de exceção, mas o comentário virá mais de um flamenguista do que um analista.

O que une os artilheiros do Brasileirão é uma só característica: são goleadores, o que não significa que são bons jogadores. Não se pode dizer que esbanjam habilidade, e sim que definem. Altamente funcionais. Passam uma partida inteira sem fazer nada até que - pelo posicionamento destacado e oportunismo - resolvem a parada com um ou dois lances. Não querem gol bonito, mas gol: de panturrilha, de canela, de trombada. A maioria é feita de susto mesmo. Roubam a bola, e aproveitam a falha adversária mais do que elaboram uma jogada em câmera lenta. São preparados para o desarme fatal, não para a armação plástica ou o desenho sinuoso.

Muitas vezes nem jogam bem uma partida. Natural que tenham uma atuação apagada ao mesmo tempo em que são os responsáveis pela vitória. Não duvidamos que acumulem o título de herói e pior num jogo. Amados e odiados em tremenda oscilação. Com jejum, não tem sentido e arcam o índice de rejeição de um técnico.

O futebol brasileiro está assistindo ao retorno do centroavante monotemático, monoglota, que conhece unicamente o idioma das redes e mal conversa com os demais fundamentos. Não bate falta, muito menos escanteio, somente executa pênaltis para ampliar sua contagem. Diferente do atacante completo, como Ronaldo, Nilmar e Luís Fabiano, líricos, que desembaraçam com dribles nocivos e se esmeram em cada bicada da chuteira. Esses são meias avançados. Ou Maradonas mansos.

Volta para a berlinda o centroavante durão, osso duro de roer, tipo Serginho Chulapa. O que briga com a bola até que ela ceda seus encantos. Aliás, Serginho era o único humano de uma constelação de gênios na seleção de 1982.

Nunes domando Leão e mostrando que a juba maior é a dele.

O centroavante arrisca a prosa e olhe lá. Na verdade, dita a carta, preguiçoso para escrever. Destaca-se pela dedicação na pequena área. É quase como um gandula dentro do campo. Um gandula fardado. Lança a bola para o interior do ferrolho e volta à posição original. Não vai barbarizar como Diego Souza (Palmeiras), outro atacante. É objetivo, panorâmico e direto. Não canta a bola, não decanta, arrasta a pelota para a cama da goleira. Puxando os cabelos do couro.

Um grande time depende de um brucutu penteado. Um brucutu finalizador. Nunes do Flamengo era assim, em meio a virtuoses como Zico, Júnior, Adílio. Casagrande era assim, em meio a doutores como Sócrates.

Alecsandro do Inter tem dez gols no Brasileirão e não vai virar boneco como Guiñazu. Sua missão é botar para dentro. Desafogar. Incendiar a arquibancada. É retílineo, previsível. Se atravessa uma partida em branco será questionado. Não há quase-gol como permitido a um armador, elogiado inclusive pela conclusão cinematográfica.

Com ele, é gol ou reserva. Ao errar, neca de aplausos, cobrado com rigor pela chance desperdiçada. 

"Até eu fazia" é que o torcedor não cansa de repetir ao centroavante. Com a intensidade de um "filho da p..." ao juiz. 

Interessante concluir que ele não recebe indulgência nenhuma. Bola fora é como gol sofrido de um goleiro.

Sua fama é provisória, momentânea. Depois de uma década, constará nas capas das revistas dos sebos. Centroavante não se aposenta, é enterrado vivo.

Jonas do Grêmio, então, com 11 gols, nem é titular incontestável. Demonstra ser um desengonçado artilheiro. Contra o Botafogo, conseguiu atirar duas vezes a bola na trave antes de gritar com a torcida. Insistente acima de tudo. Tinhoso, perdigueiro. Chega a dar pena, quase entramos para ajudá-lo. Não será admirado pelo dom, mas pelo esforço. Diante de tamanha dificuldade, fica-se despossuído de graça para comemorar. Sujeito que fala com dificuldade para a direita ou para a esquerda. Algo como um gago das duas pernas.

Centroavante bom mesmo é galã de indivisível papel vida afora, como Tarcísio Meira e Francisco Cuoco.

Tarcísio Meira e Casagrande: um único papel pela vida inteira.

Testemunhamos com Jeová a estranha ressurreição do centroavante. Que surgiu numa antiguidade de pontas, um pela esquerda, mais valorizado, e outro pela direita, não menos cobiçado. Sim, caro jovem leitor, existiam mesmo, não é uma lenda. Uma época de territorialistas, o gramado recortado, retalhado como um boi, cada qual tratava de morder melhor seu pedaço. O ponta resplandecia no triângulo imaginário que tem seu vértice no escanteio, por ali trabalhava, ciscava, entortava os zagueiros e laterais, e cruzava em direção ao gol, de preferência de trás, quase linha de fundo, para o companheiro encarar de frente e esmagar os zagueiros. O ponta era ponta, não visitava novas cidades, qualquer um saberia o que esperar dele. Residente, pagava o IPTU em dia, não viajava, nunca agia como turista. 

Os pontas rarearam - um observador atento pode descobrir a idade de um colorado pela intensidade do suspiro quando lembra de Valdomiro - mas os centroavantes subverteram a nova ordem. E não aceitaram a modernidade dos esquemas táticos. Essa confusão dinâmica, pandemônio de treinos fechados, onde todos jogam em qualquer lugar, salvo uns mais para frente outros mais para trás, e que contagiou certos goleiros, que gostam de sair até o meio de campo para desespero de suas torcidas e só param depois de tomar uma humilhante cobertura.

Alecsandro, do Inter: matador e gandula fardado que busca a bola na rede.

O centroavante se rebelou. Conservador, barbeia-se ainda com lâmina. Tradicional, não pisa em salão de beleza, freqüenta barbeiro. Não procura mercado, compra num armazém de secos e molhados.

Quer feijão, arroz, ovo e um pão para quebrar a gema. Adepto do prato-feito e da comida com toalhas de plástico.

Temos um dinossauro rebelde na escalação. O centroavante clássico, de função, com uma cova debaixo dos pés firmando seu lugar ao sol. Simples e comunicativo. Nem sempre tem estilo, parece que lhe falta algo. Toscos no trato com a esfera, os chutes saem tortos. A emoção do gol é que embeleza e compensa a aspereza original do disparo. O centroavante joga mal. Ele não vai a campo para jogar bem, ele vai para marcar gol.

Conhece sua natureza sádica e contorna sua limitação masoquista. Mais que uma posição, é sina.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: