ESTADO HIPNÓTICO

Ana Baggio

O amor por um clube não é amor. É maior que qualquer desejo. Não acredito que exista amor à primeira vista entre o torcedor e sua equipe, o amor é anterior à primeira vista. À primeira pegada, ao primeiro gol. Há quem vá ao estádio muito antes de caminhar, sequer entende o que significa o alarido de cores e o urro ao redor. Espantados, os olhos infantis seguem um ritmo, são exagerados, inflamados, até alcançarem a luz da bola.

E quando acontece, o amor está entranhado, como voltar não há resposta.

Não conheço ser algum que não se comova com uma bola parada. É como se ela fosse uma referência de vida. Tem de estar incessantemente em movimento. E faiscamos os lados quando bebês, tentando acreditar que ela fique estática, e quando se mexe, ganha uma magia que cresce. Mas a bola sozinha não mantém o amor. É preciso mais. É necessário que haja movimento e troca. E as crianças aprendem a dividir os chutes e os empurrões, até emergir o desejo por algo maior, por aquilo que chamamos de amor. Por mais que busquemos o desejo de satisfação na ação solitária com a bola, não há como comparar com a explosão de um jogo do seu clube, com a vitória de seu clube, com o arrebatamento de uma conquista.

Ser campeão, o que coloca toda uma nação em um mesmo patamar, independente das precariedades de cada um, é a motivação para a eternidade desse sentimento. Duvido que troque de time, troque de uniforme, troque de estação de rádio. Criamos mecanismos para santificar o time, adotamos estratégias pessoais como forma de perdurar a vitória. E ao justificar as derrotas, pouco nos importamos. Ou fazemos de conta que não ouvimos o burburinho alheio. É uma massa de cornos andando cabisbaixa pelas ruas, com as bandeiras enroladas, não há como esconder o desânimo, a consternação. Traída por quem mais ama. Vontade de tirar a camisa. Mas ficar nu ainda é vestir a tristeza.

Porque sabemos que a perda será provisória, mesmo que em décadas não surja um título relevante ou qualquer possibilidade de estar entre os melhores. A esperança engana. Torcedor é um apaixonado por toda a vida. É um ciumento nato. Não queira pegar seu radinho, sua almofada ou seu boné emprestado. Tolera até ter sua mulher roubada, mas sua camiseta não!

É um masoquista, que aceita os comentários mais infames de um apresentador, e os discute durante uma semana no trabalho, arranja um desentendimento com o chefe, com o subalterno, supera a inferioridade descambando o estagiário.

Volta para a tevê e escancara a DR com desconhecidos. Sua privacidade escancarada com direito a intervalos comerciais. Liga, xinga, aponta o editor como rival, promete cancelar o jornal, a revista, evitar o canal.    

E não adianta querer demovê-lo desse estado hipnótico. Vai morrer amando, vai exigir a bandeira sobre o caixão, o hino do clube tocado no enterro. Com sorte, não deixará uma parte do espólio para ajudar a esquadra. Trocam os jogadores, os técnicos, toda direção, e ainda o amor é sublime. Porque é o seu amor, não é de ninguém, depende de alguém, o seu clube, mas ainda será sempre só seu.

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