VELHAS BANDEIRAS PERONISTAS

Mário Corso 

 maradona.jpg image by miguelangelobrito

Juan Domingo Perón e Diego Armando Maradona: nomes pomposos, caudilhos inconfundíveis.

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo brasileiro menos um torce contra a seleção argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.

Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos pouco, mas nos gostamos muito e por isso fizemos um pacto. Ele torceria pelo Inter sempre, menos contra o Boca, e eu seria Boca, menos, é claro, contra o Inter. Depois acertamos o mesmo entre as seleções. Foi difícil, sabia que me custaria muito, mas fiz pela nossa amizade, torci minha alma para torcer por eles.

Não pensem que isso me faz vacilar quando estamos contra eles. Eu estava em Buenos Aires naqueles três a zero em julho de 2007 e foi um dia que não esqueço.

Quando o Maradona assumiu, eu cantei a pedra. Disse que ele foi sublime em campo, mas fora dele só fez merda, e que a possibilidade de voltar a fazer era quase certo. Não me deu ouvidos, disse que eu estava erradíssimo e eles seriam campeões. Outros argentinos me disseram o mesmo: Maradona era a solução.

Hoje eles estão num brete, talvez até consigam ir à copa na repescagem, mas vamos combinar, é humilhante. Eu torço para irem, a copa sem los hermanos perde em charme. Não consigo conceber uma copa sem as grandes seleções, imaginem uma copa sem a Itália, sem a Alemanha. É como um campeonato gaúcho sem Gre-Nal, o gosto não é igual.

Mas a questão é que um país se expressa na sua seleção: a convocação de um herói do passado para salvar a pátria é o mesmo que os argentinos têm feito na política. Eles não renovam, tiram o pó das velhas bandeiras peronistas já sem cor e olham para o passado e não para o presente. Quando a coisa aperta convocam os mitos.

O que é o Maradona hoje? Uma mistura de Dom Quixote no corpo de Sancho Pança, uma combinação de arrogância com falta de qualquer percepção da realidade. Seus pés mágicos se foram e deixaram uma cabeça tonta que gasta quase toda sua energia para (mal) controlar seus vícios. Maradona foi um rei no futebol e um bufão na vida. A única coisa que se pode fazer com ele hoje é um tango.

Convocá-lo para técnico foi uma oferta dos argentinos para que ele se redima, e com isso redima a todos eles. A aposta saiu ao contrário, afundaram os dois. Um jogador pode administrar dons que compreende mal, pode deixar-se tomar pela competência mesmo sem ter nenhuma consciência de onde vem e como funciona. Já um técnico tem que ser ou alguém com visão estratégica e capacidade de administrar recursos humanos ou pode ser um líder nato, coisa que Maradona não é. Ele foi um craque nato, ser um ídolo e um exemplo de desempenho em campo não quer dizer que ele tem algum dom para a liderança. Nossos vizinhos apostaram no poder do mito, como se a presença xamânica do craque fosse hipnotizar a equipe, que aliás tem bom potencial.

Os argentinos são um povo que nunca diz basta para a saudades, a cada tanto andam de costas, tapados de mágoas antigas e idealizações extemporâneas. Por isso o populismo entre eles é tão entranhado, dificilmente abrem mão de lamentar o caudilho deposto, a primeira dama carismática, o amor perdido. Êta povo melancólico!

Pobre Argentina, e a seleção nem é o pior do que eles têm que aturar. A seleção só mostra o impasse que eles mesmos estão, eles têm craques (Messi barbariza no Barcelona e desaparece na seleção), mas não sabem usar, eles são um povo culto e preparado, mas não se entendem para agir. E meu sobrinho no meio disso...

SÍNDROME DA RELAÇÃO ESTÁVEL

Ana Baggio

Inter, segunda derrota consecutiva, amassado pelo Vitória da Bahia e novamente distante da liderança do Brasileiro. Arte de Francis Bacon

Uma desilusão amorosa seria menos traumática. O que vemos acontecer com o Inter é a síndrome da relação estável. Falta tesão, entrosamento e deleite para brigar por aquilo que a torcida deseja. Um time pronto a barganhar o título que não conquista há 30 anos não se desprenderia como vem fazendo nos últimos jogos. Volta a ser o Inter do quase. Ejaculação precoce seria elogio. As armações equivocadas, a falta de gana nos jogos fora do Beira-Rio e até dentro, como no caso do Cruzeiro, a indisposição do técnico em revirar seu baú de reservas, a pressão da diretoria na oferta de um bicho equivalente ao nacional ou a vaga para a Libertadores acabam minando uma relação prazerosa dos jogadores e sua torcida.

Falta motivação? Sim. Falta um maestro? Sim. E o maestro pode se ver no Inter das belas apresentações: o garoto Giuliano. Entrou em poucas partidas, mas fez estalar os olhos de talentos como D’Alessandro e Andrezinho, que neste sábado, contra o Vitória, não justificaram sequer o par de chuteiras.

Sandro, após a recusa do Inter em vendê-lo para a Inglaterra, bate cartão ponto nas quatro linhas. De longe e de perto, escancara sua falta de vontade. É um homem a mais para ocupar espaço. Não mais que isso. E nem o ocupa direito, basta ver a falha no primeiro gol do Vitória no Barradão. Mesmo o xingão do capitão Guinazu fez com que mostrasse mais empenho no decorrer do jogo.

Os demais terminam o primeiro tempo exauridos. Alecsandro não brilha há meses, ficará recalcado pelos títulos do pai e do irmão, se continuar olhando para dentro de casa. 

Assim estão os jogadores. Sem qualquer tipo de inspiração que os embale e os marque como absolutos e soberanos ao título. Jogam como o marido cansado que pede as pantufas e a cerveja gelada. Sequer se esmeram em levantar da poltrona. O controle remoto está viciado em derrotas. E o que sobra aos pobres colorados é ficar rezando, imaginando que o time assuma sua condição de lobo e saia de casa. Que rompa o relacionamento falido e abusivo, que aprenda a ter autonomia, e não dependa da esposa para fazer a comida.

Mas o Inter não parece querer largar sua condição. Será sempre a vítima da arbitragem, vítima das escalações fora de hora, vítima das lesões e decisões dos cartolas. Um time calcado a ser o quase. Ainda verá sua esposa sair de casa, bela e aprumada para garantir a vitória. Ficará remoendo os erros por mais de meses, culpando os vizinhos e o patrão. A cerveja estará choca e, com sorte, terá como consolo ligar a tevê para ver sua participação na Sul-Americana.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: