O ORFEU DAS PRANCHETAS

Fabrício Carpinejar

O Campeonato Brasileiro de 2009 escreve o derradeiro capítulo do livro "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mário Filho, clássico de 1947 do irmão de Nelson Rodrigues.

O palco do épico curiosamente será o Maracanã neste domingo (6/12), no duelo entre Flamengo e Grêmio. No Maracanã, justo no estádio batizado de Mário Filho, o nome do escritor. Uma coincidência emocionante.

O protagonista é o mineiro Jorge Luís Andrade da Silva, o Andrade, ex-jogador do Mengo da geração vitoriosa dos anos 80, que formou uma das armações mais compactas e habilidosas do Brasil, ao lado de Zico e Adílio.

Andrade poderá ser o primeiro técnico negro campeão brasileiro. Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio. Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o exército foi mais justo antes.

Não há negros no comando dos nossos principais times. Existem preparadores físicos, assistentes, dirigentes. Mas nunca existiu um negro mandando numa grande esquadra, organizando taticamente o elenco, dando a palavra final sobre a escalação. É como se ele pudesse chefiar com a bola nos pés, não fora do campo. Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas. Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando a função autoral e a inteligência operística.

Mesmo depois de Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia, Didi, Garrincha e Pelé, o negro era um tabu como treinador dos maiores clubes. E pensar que a mudança demorou a acontecer nas planilhas. Dentro de campo, estava resolvida na década de 50. Segundo Mário Filho, o futebol passou por três grandes fases: 1900/1910 (elitização), 1910/1930 (exclusão de negros; Vasco é o primeiro time a adotá-los e lutar contra a discriminação) e 1930-1950 (ascensão social dos negros e liberdade racial).

Está caindo o último bastião do racismo no país. Acabaram as restrições.

Andrade é o Orfeu das pranchetas. Realizou uma revolução no vestiário, uma revolução de abrigo, só comparável à grandeza heroica de um Pelé fardado. Desde 2004, espera sua chance de efetivação no Flamengo. Já salvou o time da degola como interino, já foi suplente diante das demissões de Celso Roth, Joel Santana e Ricardo Gomes. Durante cinco anos, engoliu sapos, recompôs diplomaticamente suas frustrações e expectativas, aceitou passivamente os interesses das bolsas de valores. O folclore conta que Cuca o colocava para completar a barreira nos treinos, durante a cobrança de faltas.

Andrade é o principal personagem. Não será Petkovic ou Adriano. É ele. Com seu temperamento discreto, abalou a onipotência dos supertécnicos como Luxemburgo e Muricy, mostrando que altos salários não significam sucesso. É o gracioso urubu no meio das garças à beira do gramado. Abre passagem a uma nova geração de estrategistas das categorias de base. Indica que os responsáveis pela entressafra alcançam fartas colheitas. Não briga com a imprensa, não grita mais do que o normal, não arma segredos de Estado, não se escandaliza com as críticas. Difere do tom casmurro e embirrado de parte dos seus colegas e da histeria autoritária das estrelas de terno e gravata. Não é paranóico, não se vê perseguido e injustiçado nas coletivas. Tem samba no sangue, uma alegria mansa, um amor antigo pelas redes. É resolvido o suficiente para suportar qualquer pressão. Escuta mais do que fala. Porta-se com a audição de um juiz, longe da tradicional oratória de um promotor. Não é por acaso que faz acupuntura nos ouvidos.

Ao assumir o comando em julho, Andrade retirou o rubro-negro de baixo da tabela, conseguiu um aproveitamento de 72,5% em 17 jogos.

Mário Filho deve encontrar agora uma posição confortável no túmulo. Graças a Andrade, lavamos definitivamente o pó-de-arroz da pele.

GRÊMIO IMORTAL OU IMORAL?

Fabrício Carpinejar

Mosqueteiro: cadê a espada?

O destino quis que o Inter só fosse tetracampeão brasileiro com a ajuda do Grêmio. Está a dois pontos do líder Flamengo a uma rodada do final e enfrenta o Santo André no Beira-Rio. Sabe aquela condição que torna qualquer negócio impossível, qualquer casamento inviável?

É o campeonato mais esquizofrênico que já ouvi falar e vi acontecer. Mais dupla personalidade. Mais Dama do Lotação.

Quando o marido descobre que sua mulher o traiu no conto de Nelson Rodrigues, logo pega a arma e pergunta quem é o sujeito. Ela diz que não adianta se vingar: são muitos. Aquilo arrebenta com qualquer represália: como ele pode redimir sua honra trucidando a lista telefônica? Decide morrer de fome, trancado no quarto.

No Brasileirão, foram muitos os possíveis campeões. Muitos cornos. Não perca tempo tentando articulando tocaias.

Na semana passada, São Paulo era o favorito, bastava ganhar do Goiás. Levou uma surra no Serra Dourada. Agora o Flamengo só tem que empurrar o tricolor gaúcho - totalmente inofensivo - para as redes e levanta o caneco. Não duvido de mais nada. Nem de um título do Palmeiras matematicamente milagroso. Fluminense praticamente escapou do rebaixamento encaixando seis vitórias consecutivas, depois de amargar 27 rodadas na 2ª Divisão.

O Grêmio vive o maior dilema de sua história.

Agora está entre a imortalidade e a imoralidade.

Se deixar o Flamengo vencer no próximo domingo (6/12), seus jogadores abandonarão sua masculinidade e a fama farroupilha (no retrospecto de Marcelo Rospide, são duas vitórias e um empate, a tendência seguia para o alto).

Todo o país estará assistindo ao vexame de um dos maiores times brasileiros, capaz de se rebaixar a um conchavo. E não importa se jogarão com reservas, juniores ou dente de leite, é a estima da camisa que está na vitrine. O valor dela mais do que o preço. Ficará conhecido como o clube que entregou o campeonato. Por longo e maldito tempo. Daí pode tirar definitivamente a espada da mascote. O mosqueteiro seguirá desarmado em direção ao Juízo Final.

Se empatar ou ganhar do Flamengo, seus jogadores perderão a confiança da torcida. A impressão é que ser gremista é torcer somente contra o Inter, mesmo que isso signifique ser contra o próprio Grêmio. O que está em cena é se o amor ao time significa o ódio ao rival, ou não. É um debate inédito sobre moralidade futebolística.

Sei que é importante secar, desde que com a roupa limpa e lavada.

Entenda, o Grêmio pode perder naturalmente, já que não ganhou nenhuma fora de casa. Pode perder premeditadamente, que não estará sendo ilegal.

Mas o que é legal pode ser imoral. Não adianta reclamar da maracutaia legalizada da política quando há torcedor defendendo a quebra do decoro parlamentar no futebol. Sem eufemismos, é quebra do decoro parlamentar. Corresponde a vender um resultado. Melhor nem entrar em campo. Qualquer deputado seria cassado e aniquilaria sua reputação com essa atitude. 

Todos confiam na segunda opção. Que o Grêmio terá sangue doce no Maracanã. Sangue caramelizado. De maçã do amor. Ainda não consigo imaginar como será a encenação. Devem fazer um pênalti escancarado no ataque flamenguista. Para aumentar o desespero, talvez o juiz não marque e os zagueiros gremistas vão para cima dele:

- Está maluco, nos derrubamos o Adriano de propósito, ladrão ladrão!

Era previsível que o campeonato de pontos corridos, que funciona na Itália e na Espanha, encontraria algum defeito no Brasil. Descobrimos a falha do sistema na edição de 2009: a rivalidade regional. Caso o Atlético estivesse no topo e o Cruzeiro enfrentasse seu oponente direto na briga pela taça, a mesma discussão tomaria os botecos mineiros. Assim por diante no Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. Eu não acredito que o Corinthians se esforçou contra o Flamengo no último domingo (29/11). Foi uma pasmaceira de funcionário público. O aviso foi dado quando o timão atuou fardado com as imagens de torcedores. Sinal de que estava secando o São Paulo e atendendo ao capricho da massa bicolor.

Não há como apagar os méritos do Flamengo, que acumulou na última fase onze vitórias e quatro empates, 37 pontos de 51 possíveis, numa escalada improvável quando estava engolindo vento no meio da tabela. É o único time do certame que poderia criar até o momento um DVD sem recorrer à ilha de edição e ao dom da montagem. Cumpriu uma estabilidade vitoriosa no 2º turno.

Porém, o próprio filme do Mengo corre o risco de naufragar com a desistência gremista. Como justificar um épico com W.O. do adversário?

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