POR QUE ODIAMOS ALECSANDRO?

Fabrício Carpinejar

O centroavante do Vasco, Alecsandro, é o artilheiro do Campeonato Carioca, com sete gols. Tem uma média superior a um gol por partida em 2012.
 
Era para ser ídolo natural, mas não convence o torcedor por inteiro. Fica uma dúvida de sua natureza letal, uma desconfiança de seu dom. Está longe do estatuto de craque, da placa de bronze.
 
Mesmo que tenha feito dois gols contra o Fluminense, mesmo que tenha um aproveitamento comparável à passagem cruz-maltina de Romário, mesmo que dance Michel Teló na comemoração, nunca atingirá a popularidade de um Dedé, de um Juninho Pernambucano, de seus companheiros de pandeiro e de pelada.
 
No Internacional, tornou-se um dos maiores artilheiros da história do clube. Merecia a confiança por sua freqüência nas redes.
 
Não aconteceu, pelo contrário, foi hostilizado por deixar Leandro Damião na reserva. Mais de uma vez vaiado. Mais de uma vez conclamado para ser substituído.
 
Ele deveria constar na galeria de heróis matadores colorados ao lado de Nilson, Geraldão, Christian. Disputou 116 jogos e marcou 54 gols. Um gol a cada duas rodadas.
 
No entanto, Alecsandro é boicotado nitidamente. É competente, cumpridor de posicionamento e oportunista na pequena área, mas não tem carisma.
 
E centroavante pode abdicar de qualquer característica, menos do carisma. Pode deixar de cabecear, de chutar de longe, porém nunca esquecer a proximidade física com o humor. É um item indispensável do caráter do atacante, já que ele é o porta-voz da massa fanática no time, quase um infiltrado da arquibancada em campo.
 
É o carisma que mantém sua escalação ainda que esteja atravessando jejum, abstinência, fase azarada. 
 
Mocinho ou bandido, tanto faz. Há o carisma dos malvados (Edmundo, Kléber, Viola, Serginho Chulapa) e o carisma dos bondosos (Nilmar, Kaká, Bebeto). Os vilões traduzem o aspecto negro do torcedor, a truculência de nação, a rixa de tribos, a malandragem contra o juiz. Aplaudido por bater no adversário, pelas entradas duras e perigosas, pelas jogadas individuais. O bondoso tem aquele charme de preferido da sogra, de suar para conquistar a estabilidade, expõe a perspectiva disciplinada e trabalhadora do torcedor. Ovacionado pela aplicação ao esquema tático, pela doação aos lances coletivos. Ambos se credenciam à posteridade. Traduzem facilmente sinais de garra e lealdade.

Alecsandro não tem nenhum dos dois lados, é neutro como um massagista, é imparcial como um preparador físico. Incapaz até de produzir catimba, de prender tempo.

É o avesso da imagem. Apesar do alto desempenho, tem um único problema: é tímido. Não fala; resmunga. Arredio como uma toupeira.
 
Parece que é burocrático e desmotivado, pois não conta vantagem. São fachadas de sua calmaria. 
 
A grande verdade do futebol é que o atacante não tem direito a ser tímido. Terminará rejeitado na primeira crise.
 
Porque predomina o hábito de confundir recolhimento com arrogância.
 
O retraído não gosta de falar, não gosta de se expor, não gosta de provocar e comentar desempenhos. E não realiza publicidade de seus atos, campanha de recordes, como um Dadá, um Túlio Maravilha.
 
É a única função que exige oratória, megalomania, que o sujeito seja exibido. Nas apostilas de goleador, o desembaraço é a regra, rifado em letras garrafais.
 
O zagueiro, por exemplo, pode ser uma rocha de mudez. Ninguém irá questionar. O volante pode ser uma estátua. Ninguém irá estranhar. O lateral pode ser um antipático. Ninguém irá notar. 
 
Todo centroavante calado nunca será perdoado. Todo centroavante casmurro não tem escapatória.
 
Menos dia, mais dia, caminhará para o pelotão de fuzilamento. Sua glória é sempre efêmera.
 
Alecsandro é um injustiçado.  

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