EUSÉBIO RONALDO

Fabrício Carpinejar e Mário Corso


 

Morreu Eusébio no último domingo (5/1/2013) por parada cardiorrespiratória. O gênio se despediu aos 71 anos para se fundir ao bronze da memória. 

Quem viu Pantera Negra jogar, ficava impressionado com sua truculência artística. Era um tanque que estacionava na pequena área como um Smart. Era um gauro que voava como um beija-flor. Letal na cabeçada e nas duas pernas. Destroncava os zagueiros com suas corridas em ziguezague. Batia falta com violência e curva. Cobrava pênaltis com rigor e semblante monástico. 

Não ria à toa. Não brincava no gramado. Seu talento significava responsabilidade, concentração, vocação. Não atuava por egoísmo, mas representando uma multidão. A torcida estava dentro de sua cabeça. 

O moçambicano não teve tempo de molecagem, esteve focado em cuidar exclusivamente do trono e de seu papel coletivo. Foi o maior artilheiro da história do Benfica (638 gols em 614 partidas) e sua principal referência durante as 15 temporadas. Ganhou onze títulos nacionais e uma Liga dos Campeões. Derrotou a seleção bicampeã de Pelé de 1966, e levou Portugal a um surpreendente terceiro lugar, a melhor posição até hoje da esquadra na história das Copas. Tornou-se o goleador da competição de Londres, com nove gols. 

Para o povo português, seu enterro é o equivalente ao que seria para os brasileiros a morte de Pelé. Uma comoção inigualável pelas ruas de Lisboa. 

Ainda mais que Eusébio revela um hábito de Portugal de depender infinitamente de um craque. 

Portugal não é um time, é um reinado. Sempre um jogador carrega o piano. Antes Eusébio, hoje Cristiano Ronaldo. 

A Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, nunca terminou de fato. Prepondera na alma lusitana um sebastianismo feroz. Como se fosse um exército onde existem somente general e soldados, nenhuma posição intermediária.  

Se Eusébio marcou quatro gols nas quartas-de-final do Mundial de 66, contra a Coréia, contribuindo decisivamente para a vitória de  5 a 3, de virada, Cristiano Ronaldo recentemente anotou os três gols do triunfo de Portugal contra a Suécia, na repescagem para a Copa no Brasil.

Ambos se parecem pela extraordinária explosão.  Calmos em campo, de repente despertam elétricos e indomáveis em direção ao gol. 

Ambos se parecem pela dupla personalidade: sangue frio para decidir e drama para comemorar; blindados no desafio, passionais no apelo à garra. 

Ambos chamam a responsabilidade para si. Suas chuteiras equilibram um cetro invisível, uma autorização coletiva de resolver - sozinhos - o inferno.  

Simbolicamente, no futebol, Portugal ainda é uma monarquia, não entrou para a democracia. 

O país precisa de uma lenda para justificar a nostalgia do passado mítico (de nação mais poderosa do mundo nos séculos XV e XVI, ao lado da Espanha). 

O Rei está morto. Longa vida ao Rei!


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