ESCOLA GAÚCHA DE GOLEIROS

Fabrício Carpinejar

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A decisão da Copa do Brasil teve um herói: o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras. Nenhum palmeirense sentiu saudade do santo Marcos. Ele foi guerreiro, insubordinável, raçudo, responsável por três grandes defesas nos dois jogos da decisão e ainda marcou o gol da vitória nas penalidades em cima do Santos. O arqueiro de 37 anos transformou a proximidade da aposentadoria em redenção. Quem pensava que tinha atingido o auge da carreira em 2011, quando foi campeão da Copa do Brasil pelo Vasco e cotado para a seleção brasileira, acabou por se enganar. 

Prass é mais um goleiro de safra gaudéria. O que chama atenção é a escola de goleiros do RS. Uma universidade a campo aberto. Talvez porque o goleiro no estado tenha o dobro de importância e seja obrigado a disputar a titularidade com unhas e dentes. Não é apenas um goleiro, mas um mártir, um salvador, um catalisador da rivalidade: Manga, Benitez, Gilmar, Taffarel e Clemer no Inter ou Lara, Leão, Mazaropi, Danrlei e Victor no Grêmio. São os puxadores de torcida, os anjos endemoniados, os paredões no sufoco, os pegadores de pênaltis. Eles não têm um papel passivo, são capitães morais da equipe. Não se encolhem nos 16,5 metros da grande área, jogam com os pés como se fossem o último zagueiro, puxam contra-ataque, e sempre vão para a área adversária a fim de cabecear no desespero. 

Curioso é que os melhores goleiros em atividade no país são gaúchos. Fernando foi revelado pelo Grêmio, à sombra do ídolo Danrlei. Além dele, temos Cássio, goleiro campeão mundial e brasileiro pelo Corinthians, natural de Veranópolis, também formado pelas categorias de base gremistas. Afora os titulares da dupla Gre-Nal, Marcelo Grohe e Alisson, brigando por uma vaga na Seleção Brasileira de Dunga.

UM DIA FOI TRI-LEGAL

Fabricio Carpinejar 


Tinha sete anos. Era 23 de dezembro de 1979. Foi a última vez em que comemorei um título do Campeonato Brasileiro. Estava na primeira série. Não pedi presente de Natal - não precisava de mais nada. O Beira-Rio colocou mais de cinquenta mil para assistir o passeio colorado em cima do Vasco. Campeonato invicto, única equipe até hoje a ostentar campanha perfeita. 

Desde o gol do Falcão aos treze minutos do segundo tempo, o Inter não comemora mais nenhum campeonato nacional (excetuando a Copa Brasil de 1991, outro torneio). São 36 anos. Eu me formei em jornalismo, e o Inter não ganhando mais. Eu tive dois filhos e o Inter não ganhando mais. Eu publiquei meu primeiro livro e o Inter não ganhando mais. Eu me pós-graduei em Letras e o Inter continuou não ganhando mais. Casei, descasei, casei de novo e o Inter não ganhando mais. Lancei trinta e três livros e o Inter não ganhando mais. Segue não ganhando, não há como achar normal. Naquela época, o Inter era tricampeão e o Corinthians nada. Hoje o Corinthians é hexacampeão e o Inter permanece tri. 

O Brasileiro tornou-se apenas disputa por vaga na Libertadores. Deixou de ser título para nós há quatro décadas. Somos figurantes, não mais protagonistas. Somos secundários, não mais líderes de ponta a ponta. 

O Inter, assim como o Grêmio, sofre da síndrome de flanelinha. Não persegue a glória, mas somente querer assegurar burocraticamente a vaga. É uma ausência de ambição que não pode ser coincidência. Reduzimos o nosso horizonte para o quarto lugar. 

Só interessa o G-4, ou só se consegue o  G-4? Eis a pergunta que se cala sozinha.

Em todo o início de campeonato, somos apontados como os favoritos. Em toda final de campeonato, somos o desencanto dos profetas. Temos sempre o plantel mais competitivo, e sempre somos atropelados na competição. Guardamos vários vices ao longo dessa abstinência (1987, 1988, 2005, 2006 e 2009), mas vice só lembra que alguém ganhou. 

Vigora um desinteresse do Brasileiro que mascara a pura incompetência e a falta de planejamento, ainda mais numa era de pontos corridos. Ele jamais é prioridade, como se houvesse alguma urgência mais gritante para o Inter. 

O Brasileiro existe e existirá todo ano e parece que é uma novidade, parece que é lembrado pela direção no segundo semestre, quando é tarde demais. 

Como o Inter pode ganhar um Mundial, duas Libertadores, um Recopa, uma Sul-Americana e não procurar a superioridade no seu país? Qual a coerência? Como deixar passar tanto tempo?  Quantas gerações necessitam envelhecer, como a minha, para o colorado recuperar a hegemonia da década de 70? 

Não é culpa do calendário. Não é culpa das lesões. Não é culpa do juiz, porque Rubens Minelli afirmava que time bom enfrenta doze (onze do adversário mais o árbitro). 

O Inter reproduz um futebol vadio, indigente, previsível. Esquece a sua grandeza ao depender de escores paralelos no estertor da competição, simplesmente porque não construiu os seus próprios resultados. O Inter apresenta um saldo negativo, coisa impensável para uma esquadra comandada por D'Alessandro, prova inegável de seu raquitismo ofensivo. O Inter não põe a mão na taça pois ainda não aprendeu a conciliar Libertadores e Brasileiro, não é capaz de formar dois times, quiçá um. O Inter não renova o seu elenco pelo costume de repatriar ídolos (Alex, Nilmar, Sóbis...), numa fórmula preguiçosa de repetir o que um dia deu certo. O Inter confunde grupo de qualidade com Instituto de Caridade, não dispensa atletas que não demonstram rendimento para fazer um falso número de opções  (quantos do time atual merecem um adeus? Uma listinha breve de condolências: Réver, Anderson, Lisandro López, Juan, Dida, Nico Freitas). O Inter não realiza uma preparação física adequada para um campeonato longo, costuma ser surpreendido com lesões rotineiramente. O Inter raramente ganha fora de casa, contabilizando meras três vitórias em turno e retorno de 2015, desempenho de clube mediano e caseiro. 

Não vem me dizer que está tudo tri. Tri-legal estava em 1979 quando eu tinha sete anos. Já é gíria de velho. 

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